“Que é, pois , o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? / E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”
Com esta exclamação famosa, Santo Agostinho nos coloca uma interrogação filosófica sobre memória, tempo e história, da qual me aproprio para uma breve reflexão. O tempo só pode ser apreendido nos seus rastros passados, nos seus traços de memória. Resgatar estes traços, num instante fugidio de um presente que sempre se esvai, a caminho do futuro. Ali, onde o passado se quer presente e o presente é sempre passado, onde o futuro se determina como algo que será lembrado, ali, neste absurdo lugar de um tempo sempre presente que se esvai, de instantes infinitesimais que se sucedem, somos.
E o que é o gesto da memória senão este olhar que se volta para o passado na tentativa de retomá-lo? Mas, também é admitir que este gesto implica em edificar o que ainda não é, o que virá a ser. Mnemósyne, a deusa da memória e da poesia, é aquela que canta tudo aquilo que foi, o que é, o que será, tudo aquilo que se constrói em direção ao futuro. E garante ao poeta o dom da vidência, o aproximando dos profetas, assinalando mais uma vez a íntima relação entre memória e futuro. Se o presente é este inapreensível, isso que escoa e que já era, este instante sucessivamente fugaz, como capturá-lo a não ser onde ele é passado?
Era uma vez, nestas velhas histórias que a memória reinventa, um menino e uma menina, João e Maria. E havia o caminho de ida percorrido. E havia o caminho de volta perdido. Pegadas que se apagam pela chuva, pedaços de pão e gravetos que os pássaros fizeram desaparecer, rastros que se perdem, marcas que se colocam no lugar do que se perdeu. O que é este caminho para sempre perdido dos Joãos e Marias, senão os traços de memória, os fiapos de um passado, os nossos rastros, as marcas que se apagaram mas, no entanto, estão lá, firmes Talvez a busca que se efetue hoje, possa se resumir na pergunta:
_ Afinal,o que fica das pegadas do chão da memória?
Fica o que significa, podemos pensar. Ou talvez, o que significa passe a ficar. Não no lugar de uma nostalgia de origem, mas no lugar de uma novidade antiga, de uma procura do novo, de novos sentidos, o que assinala antes o futuro, a criação, a esperança, os novos rumos, o caminho redescoberto, mais que o caminho perdido. E se o novo depende muito mais da intensidade do nosso olhar, do que da pretensa novidade das coisas observadas, isto significa que o observador deve mobilizar-se e transformar-se para poder ver. Nos olhemos pois, como se fosse a primeira vez, o primeiro olhar, um olhar de sedução.
Não somos mais os mesmos. Carregamos as marcas do tempo no corpo e na alma. Dos sucessos e dos insucessos. Dos sonhos perdidos e dos novos sonhos. Dos ganhos e das perdas. Estamos mais vividos. Mais amadurecidos, talvez.
E o que ficou? Ficou a nossa adolescência cheia de ideais, que procuramos passar para nossos filhos. Ideais políticos, humanistas, científicos, ideais de uma sociedade mais justa, já que o objeto de nosso trabalho é o homem em sua dor e em seu desamparo frente a doença e a morte.
Ficou a nossa amizade, a ser redescoberta ainda hoje, a saudade dos finais de tarde no bar do Espanhol, a lembrança das atividades do DA, dos ensaios do Show Medicina, a angústia ante o anonimato e aos corpos dos nossos primeiros cadáveres dissecados nas aulas de anatomia, o mal-estar das primeiras necrópsias das aulas de anatomia patológica, a alegria do primeiro cliente atendido no ambulatório, o alívio após a primeira cirurgia assistida, o primeiro plantão, o primeiro parto, a esperança, a solidariedade ante a angústia de um futuro ainda por se fazer e que hoje já é passado.
Ficou algo de nossa dor, por não termos tido coragem de ousar assumir alguns de nossos sonhos e desejos mais secretos. Ficou a nossa alegria descompromissada, o nosso de bem com a vida, a vontade de mudar o mundo, a coragem rebelde de nós, meninas e meninos cheios de medos e preconceitos, de nós, Marias e Joãos alegres, corajosos e combativos. Ficou o nosso caminho profissional percorrido, ficaram as vidas salvas, as dores amainadas, a luta pela vida mais digna. Ficaram os nossos afetos.
De tudo fica um pouco. Ficou um pouco de você, um pouco de nós, um pouco da cadeira, do tijolo, do violão, das flores, pra não dizer que não falei das flores, do cheiro de éter, do gosto de hortelã da bala, do baile, da festa, do sonho, de Paris, da virada do milênio.
Se, como diz o poeta, a vida é a arte do encontro e se todo encontro é um reencontro com alguma coisa para sempre perdida e a tentativa de resgate desta coisa mesma, pergunto:
_ Será que hoje nos reconheceremos?
Penso que, se chegarmos bem perto, olhos nos olhos, arriscaria a dizer que continuamos os mesmos, adolescentes adentrados anos atrás nesta escola de Medicina. Bastaria um olhar e um sorriso franco para nosso reconhecimento mútuo. O tempo tem também destas mágicas e anos e anos esvaem-se num piscar de olhos. Vejo-te João, no fundo do meu olhar. Reconheço-te Maria, de tantas lidas de então.
Ao ousarmos afirmar, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, a força e a fragilidade da lembrança, o desejo de volta ao passado e a impossibilidade do retorno, o vigor do presente e seu fim próximo, a saudade que nos assalta, a nostalgia que nos atropela e o movimento rumo ao futuro, nos resta apelar, para finalizar, ao poeta Eliot, com o canto do pássaro em seu poema:
Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano
Não pode suportar a realidade
O tempo passado e o tempo futuro,
O que poderia ter sido e o que foi,
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
(Texto apresentado na comemoração de aniversário de 25 anos de formatura de turma de médicos da Faculdade de Medicina da UFMG, BH, no anfiteatro da faculdade)
BIBLIOGRAFIA
Castello-Branco, Lucia, A traição de Penélope. Annablume editora comunicação. São Paulo, 1994.
Gagnebin, Jeanne Marie, Sete aulas sobre Linguagem, Memória e História. Imago Editora LTDA. Rio de Janeiro, 1997.
Santo Agostinho, Confissões, Livro XI, 14(17). Tradução de J. O. Santos e A. Pina. São Paulo: Abril, Coleção Os pensadores, 1973.
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