segunda-feira, 19 de maio de 2014

O POETA E O FANTASIAR


 Marilia Brandão Lemos Morais (texto  publicado no livro Psicanálise e Contemporaneidade e na Revista Reverso)
 

            Convidada para comentar o artigo de Freud O Poeta e o fantasiar, escrito em 1907, publicado no volume IX da Edição Standard Brasileira, com a tradução de Escritores criativos e devaneio, gostaria de relembrar ser Freud um fino leitor da cultura de seu tempo, a Áustria de cem anos atrás. São vários os escritores que aparecem frequentemente em suas obras: autores já consagrados por volta de 1870 tais como Aristófanes, Boccacio, Cervantes, Diderot, Goethe, Hebbel, Heine, Hesíodo, Hoffmann, Homero, Horácio, Tasso, Milton, Molière, Rabelais, Schiller, Shakespeare, Sófocles, Swift. Quanto aos autores contemporâneos: Dostoievsky, Flaubert, Anatole France, Ibsen, Kipling, Thomas Mann, Nietzche, Schopenhauer, Bernard Shaw, Mark Twain, Oscar Wilde, Zola e Stefan Zweig. Freud acreditava convictamente que os textos considerados imortais podem servir de guias e maravilhado, embevecido nestas fontes, admirava a arte de adivinhar destes escritores, como citado em “Um estudo autobiográfico”: “E revelou-se – o que, aliás, os romancistas e os conhecedores do coração humano sabiam há muito tempo – que as impressões de todo este primeiro período da vida deixavam traços indeléveis”...

Em O Poeta e o fantasiar, Freud inicia falando da sua intensa curiosidade em saber de que fontes o escritor retira sua inspiração, o material para sua escritura e de como consegue impressionar-nos e despertar-nos emoções que talvez nem nos sentíssemos capazes. E começa a especular sobre estas fontes. 

“Será que deveríamos procurar na infância os traços iniciais da atividade imaginativa?” – pergunta ele, comparando a atividade do poeta com o brincar e o jogar, ocupações favoritas da criança que ela leva muito a sério e nas quais despende muita emoção, levando-a a criar um mundo próprio e a modificar o seu da forma que mais lhe agradar. E distinguindo este mundo de brinquedo do mundo da realidade. Somente estes apoios fornecidos por brinquedos palpáveis é que diferenciam o jogo da criança do devaneio, ou sonhar acordado, ou fantasiar do adulto.

Diz Freud: 

Quem avança na idade deixa de brincar, renuncia aparentemente ao prazer que sentia no jogo (infantil). Mas não existe coisa mais difícil para o homem do que renunciar a um prazer já experimentado A bem dizer, não sabemos renunciar a nada, só sabemos trocar uma coisa pela outra; onde parece que há renúncia, de fato há apenas formação substitutiva... Em vez de jogar ele se compraz daí por diante em imaginar, fantasiar. Constrói castelos na Espanha, entrega-se ao que chamamos devaneios....daí a hipótese segundo a qual a obra literária, assim como o sonho diurno, seria uma continuação e um substituto do jogo  infantil de outrora”.

A fantasia evocada através do devaneio tem origem e significações eróticas, pois os sonhos, obras de ficção, jogos e fantasias constituem a realização disfarçada de um desejo recalcado e todo desejo inconsciente “tende a realizar-se restabelecendo, de acordo com as leis do processo primário, os signos ligados às primeiras experiências de satisfação”, o que nos remete às relações erotizadas do bebê com a mãe através do seu corpo. Jogar é re-jogar jogos esquecidos e proibidos, é repetir e disfarçar prazeres perdidos. E por ser em parte um jogo, a literatura nos proporciona intenso prazer.

O texto é forma mas também é carne. Ouçamos Rilke em Cartas a um jovem poeta: “A criação intelectual, com efeito, provém da criação carnal. É da mesma essência; é apenas uma repetição mais silenciosa, enlevada e eterna da volúpia do corpo”.

Aproprio-me das palavras de Clarice Lispector: “Mas estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto terno e nevrálgico da palavra. Meu corpo incógnito te diz: dinossauros, ictossauros e pleiossauros, com sentido apenas auditivo, sem que por isso se tornem palha seca, e sim úmida... Ouve-me então com teu corpo inteiro.”

Digo agora palavras de Barthes: “O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias – pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.” Para ele, o texto tem uma forma humana, é uma figura, um anagrama do corpo, mas de nosso corpo erótico, pulsional. O prazer do texto seria irredutível ao seu funcionamento gramatical assim como o prazer do corpo é irredutível à necessidade fisiológica. O objeto de prazer do escritor não é a linguagem, mas sim a língua, a língua materna. O escritor é alguém que brinca com o corpo da mãe, para o embelezar, o glorificar ou o despedaçar, levar ao limite daquilo que do corpo pode ser reconhecido.  

Nesta escuta de corpos, a voz que se insinua num sentido apenas auditivo, numa carícia sussurrante de mãe, essa voz se faz letra, se faz traço, se inscreve no corpo pulsional, a partir deste gesto materno inaugural do desejo. Talvez aí esteja o poder de fascinação da infância e que faz com que as lembranças da primeira idade permaneçam com um quê de fascínio e encantamento.
            É preciso se perder para escrever, mergulhar no inexprimível, destituir-se do saber aprendido, despojar-se e entregar-se a uma intimidade corporal com o texto, para num outro momento distanciar-se dele. Marguerite Duras revela, em seu livro Escrever: “A partir do momento em que se está perdido e que não se tem mais o que escrever, é aí que se escreve... Isso torna a escrita selvagem. Vai-se ao encontro de uma selvageria anterior à vida”. É a partir do nada, do silêncio de uma irrupção do impossível, que o poema se constrói, o texto diz o que não sabe, num jorro de palavras desconexas explodindo em sua corporeidade significante, implodindo sentidos, a palavra -coisa, palavra imagem, palavra ícone que se faz verbo.

Fazer arte é dar forma ao impossível de ser dito. Onde não existem palavras, o poema eclode do silêncio e da solidão essencial, apontando para o branco da folha que se exibe em sua nudez, em sua mudez, convidando a escrever. Escrever se faz uma necessidade. Capturar no texto, no espaço formal da palavra, o inapreensível que mobiliza a escritura, como um escriba que risca no papel a sua pena, letra por letra, como o poeta que sulca com a palavra a casca da arvore, a solidão das coisas, a pedra da gruta, o traço no barro, a argila que contorna o oco do vaso, o estilete que fere e imprime nas coisas mesmas o estilo.
       Lacan confere à literatura a tarefa de acomodação dos restos, por mais que os signos busquem a plenitude da vida, eles apenas a capturam nos restos, no objeto de amor perdido para sempre. Recorro novamente a Rilke: “As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou”  (p.25) .
        Se a literatura é um jogo, é um jogo elaborado, sério, laborioso e complexo, onde o escritor usa de sua inteligência, sua cultura e seu talento para criar o seu texto. Mas ao mesmo tempo em que consegue grande domínio sobre as palavras, mantém contato com a passividade em que a palavra, não sendo mais que aparência e sombra da palavra, mantém-se inapreensível em seu fascínio. Escrever é entregar-se ao interminável, e o escritor, pela sua mediação silenciosa, capta o murmúrio gigante em que a linguagem, ao abri-se, torna-se imagem, torna-se plenitude vazia. E através deste silêncio que se origina no apagamento ao qual o autor é convidado, ele mesmo é capturado e torna-se instrumento de uma fala que é e não é mais sua.   
           Para ser reconhecido, o escritor precisa de um coeficiente de marginalidade proporcional àquele que a maioria dos leitores concede à sua própria infância, tempo em que construía sua realidade com desejos, tempo dos tapetes voadores e varinhas de condão, dos super-heróis, em suma, o tempo da magia, da onipotência dos pensamentos e do encantamento. Em sintonia com o princípio da realidade, o adulto civilizado conhece dois locais onde a liberdade do nonsense ainda sopra: o humor e a arte.

E falando em encantamento, lembrei-me de um poema de Manoel de Barros:

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um

    sabiá

    mas não pode medir os seus encantos

    A ciência não pode calcular quantos cavalos de força

    existem

    nos encantos de um sabiá.

    Quem acumula muita informação perde o condão de

    adivinhar: divinare.

    Os sabiás divinam. 

Retomando O Poeta e o fantasiar, recito Freud:

“A relação entre a fantasia e o tempo... é como se ela flutuasse em três

tempos... O trabalho psíquico vincula-se a uma impressão atual, a alguma ocasião motivadora no presente que foi capaz de despertar um desejo. Dali retrocede a lembrança de uma experiência anterior, geralmente da infância, na qual este desejo foi realizado criando uma situação referente ao futuro que apresenta a realização do desejo... Dessa forma, o passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une... (ou)... Uma poderosa experiência no presente desperta no poeta uma lembrança de uma experiência anterior, da qual se origina um desejo que encontra realização na obra criativa”.

O tempo só pode ser resgatado, só pode ser apreendido nos seus traços de memória. Resgatar estes traços num instante fugidio de um presente que sempre se esvai a caminho do futuro. Ali, onde o passado se quer presente e o presente é sempre passado, onde o futuro se determina como algo que será lembrado, ali, neste absurdo lugar de um tempo sempre presente e que se esvai, de instantes infinitesimais que se sucedem, somos. Mynemósine, a deusa da poesia e da memória, entrega Eros aos braços de Thanatos. Ela é aquela que canta tudo o que foi, é, e será, aquilo que se constrói em direção ao futuro, esta íntima relação entre memória e futuro, que permite aos poetas a capacidade da vidência.. Ali, no absurdo lugar de um tempo sem tempo do desejo inconsciente, tempo que se esvai e desemboca nesta “perda de tempo” onde, na escrita, o presente sempre escapa e só ressurge como passado representado. Esta tentativa impossível de captura do tempo na narrativa observamos em Água Viva, de Clarice Lispector:

“Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem seu instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa”.

Retomo o texto de Freud: 

“Mas quando é um poeta... que nos conta o que julgamos ser os seus próprios devaneios, sentimos um grande prazer provavelmente originário da confluência de muitas fontes... Como ele chega a este resultado? A verdadeira ars poetica... atenua o que o sonho diurno tem de egocêntrico, transformando-o e dissimulando-o, e nos seduz por um benefício de prazer puramente formal, estético... com o qual nos gratifica pela maneira como apresenta suas fantasias... chamamos prêmio de estímulo ou prazer preliminar, semelhante benefício de prazer que nos é oferecido a fim de permitir a liberação de um prazer superior que emana de camadas psíquicas muito mais profundas...Todo prazer estético que o poeta nos proporciona é da mesma natureza desse prazer preliminar e o verdadeiro prazer diante da obra literária resulta de nossa psique. Através dela, acha-se aliviada de certas tensões. Talvez o próprio fato de que o poeta nos permita fruir, daqui por diante de nossas próprias fantasias,sem escrúpulos nem vergonha, contribua em grande parte para este resultado”.

             É como se adivinhando no outro o reconhecimento de uma fantasia vergonhosa, nos autorizasse a fruir dela por nossa própria conta, sem remorso. Apresentada mais bela aqui, este é o papel da forma, da bela forma, do estético, com a qual estabelecemos uma conivência secreta entre o olhar e o quadro, com as cores e os objetos, num jogo de sombra e de luz. Quanto ao texto, são os ritmos, a respiração, o fôlego, o uso inabitual de um vocábulo, a surpresa, a imagem imprevista, a retomada de sons, um símbolo, a palavra- coisa, a palavra icônica. O essencial é que a corrente passe: o afeto, sermos afetados.

Para Antonin Artaud, o poema só terá existência se passar para o registro da voz, ditando um ritmo e inflexões. Trabalhar a escuta, escrever falando, colocar o poema em ato, brincar com os sons, perturbar a orelha.  Ao lado do sentido ordinário das palavras, é preciso despertar o seu sentido encantatório, fazer agir o seu charme, fugindo do lugar comum.

Em relação ao prazer do texto, o fato de o escritor escrever com prazer uma história, ou uma frase, não assegura o prazer do leitor. É necessário que o autor procure o leitor sem saber onde ele está, criando-se um espaço de fruição: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do gozo, que os dados não estejam lançados, que haja um jogo. Não há ribalta na cena do texto: autor e leitor se encontram nesta fenda da fruição. Como escreveu Ângelus Silésius: “O olho por onde eu vejo Deus é o mesmo olho por onde ele me vê[1]. 

A obra de arte tem como efeito provocar a suspensão do sentido habitual dos objetos e fenômenos, a uma singularização das diferenças onde o sempre-visto é transformado em olhado pela primeira vez, gerando um efeito de estranhamento, aquilo que Freud chamou de Unheimliche, um estranhamento familiar, ou estranheza inquietante que mostra que nada parece mais estranho em nós do que aquilo que nos é mais íntimo. Todo anjo é terrível, diz Rilke em Elegias do Duíno. Este desconserto ante o Belo que encobre o Horrível é o umbral angustiante de uma conjunção Eros-Thanatos, remetendo o sujeito a uma ambivalência pulsional originária, ao desamparo, a algo da ordem de uma indizível angústia, ao ponto em que o Belo, segundo Lacan, nos indica a relação da morte com sua resplandecência. O Belo, que sustenta o imaginário e ao mesmo tempo o faz falhar. O Belo enquanto efeito produtor de olhares- surpresa, operadores da possibilidade do sujeito vir a criar. O Belo enquanto esplendor da colisão Eros-Thanatos, como um brilho que reflete a evidência de uma fronteira estranha: a morte invadindo a vida e a vida invadindo a morte.

Ouçamos algo do prefácio escrito por Nei Duclós em Cartas a um jovem poeta: “A criação literária para Rilke é uma experiência assustadora: algo terrível permanece sempre oculto e o escritor precisa saber que há um núcleo impermeável às palavras. Transformado, pela vocação, em aprendiz de feiticeiro, o autor submete-se à escassez da revelação – como o relâmpago cruzando o céu de um anjo. Este pequeno vislumbre – o Belo, a arte verdadeira – só pode ser percebido na coragem da solidão..

    Penetrar nesse território sagrado é buscar o humano desprovido de disfarces. Rilke escreve o roteiro desta dolorosa passagem em direção à essência. O ato de arrancar a fantasia cotidiana grudada à carne não significa apenas recolher-se à solidão seminal da criação. Mas, especialmente, desistir da moeda mais cobiçada, o reconhecimento, cruzar o pior dos umbrais – a indiferença – e encontrar o mais amedrontador dos mundos, povoado pela necessidade absoluta”.

Tendo sido colocadas estas considerações sobre O Poeta e o fantasiar, partimos para pesquisar outras respostas à pergunta inicial de Freud: “De que fontes, este estranho ser, o poeta, retira o seu material e como consegue impressionar-nos e despertar-nos emoções das quais sequer nos julgávamos capazes?”

Perguntemos a Rilke em suas reflexões ao jovem aprendiz de literatura, senhor Kappus:

“Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o leva a escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: Sou forçado a escrever? Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar aquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa sua vida de acordo com essa necessidade”.

“Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade”.


“Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre a sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações?”.

“Tudo está em levar a termo e, depois, dar à luz. Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento, e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto, de uma nova claridade: só isso é viver artisticamente na compreensão e na criação”.

“Aí o tempo não serve de medida: um ano nada vale, dez anos não são nada. Ser artista não significa calcular e contar, mas amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranquila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. O verão há de vir”.

Perguntemos agora Drummond em sua Procura da poesia:


Não faça versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro

são indiferentes.

Não me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.//

Não cantes tua cidade, deixe-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.

Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.//

O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.//

Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família

Desapareceram na curva do tempo, é algo imprestável.//

Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.//

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intacta.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espere que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada

no espaço.//

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma


tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,                                                          

pobre ou terrível que lhe deres:

Trouxeste a chave?//

Repara:

ermas de melodia e conceito

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

 

  Termino agora, a ti perguntando: “– Trouxeste a chave?”




[1] Citado por Roland Barthes em O prazer do texto, 2002.


BIBLIOGRAFIA


 Andrade, Carlos Drummond. Procura da poesia. In  A rosa do povo. Reunião (10 livros de poesia). Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1973. Barros, Manoel. Livro sobre nada.2a  ed. Rio de janeiro: Record, 1996.
Barthes, Roland. O prazer do texto.3a  ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002.

Bellemin-Noël, Jean. Psicanálise e literatura. São Paulo: Editora Cultrix Ltda.1978.

Blanchot, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

Brandão, R. Silviano. Literatura e Psicanálise. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFGS. 1996.
Castello Branco, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.

Duras, Marguerite. Escrever. Rio de Janeiro: Rocco, 1994

França, Maria Inês. Psicanálise, estética e ética do desejo. São Paulo: Perspectiva, 1977
Freud, S. O Estranho. Edição Standard Brasileira.  Rio de Janeiro : Imago, v. XVII.

Freud, S. Escritores criativos e seus devaneios. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, v.IX.

Lacan,J. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro : Jorge Zahar.1988.
Lispector, Clarice. Água  viva. 2a. ed.. Rio de Janeiro: Artenova.1973.

Morais , Marilia Brandão Lemos .Psicanálise, arte e literatura.in Reverso n.o 46, publicação do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. Belo Horizonte, Setembro,1999.
 Rey, Jean Michel. O nascimento da poesia :  Antonin Artaud. Belo Horizonte: Autêntica Editora. 2002.

Rilke, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta.São Paulo: Globo, 2001.
Rilke, Rainer Maria. Elegias do Duíno.Rio de Janeiro: Globo.

 

 

 

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