terça-feira, 10 de setembro de 2013

TRANSTORNO DISMÓRFICO CORPORAL : ENTREVISTA


Transtorno Dismórfico Corporal


1-      Hoje em dia temos vários distúrbios psicológicos ligados ao corpo. Um deles é a dismorfia corporal. Como a pessoa desenvolve este distúrbio?

Primeiramente gostaria de explicar o que é a dismorfia. A dismorfia  corporal, também chamada transtorno dismórfico corporal, é um transtorno mental no qual a pessoa se sente extremamente preocupada com a sua aparência física e se atribui defeitos físicos que não existem realmente, mas apenas na sua imaginação, o que lhe causa sofrimento intenso.Pode existir um pequeno defeito físico, por exemplo, um nariz grande, espinhas na pele, mas a preocupação e o sofrimento causados são desproporcionais e a pessoa se sente feia, acha que todos estão reparando e comentando sobre o seu possível defeito. Esta situação provoca prejuízos ao seu desempenho social e ocupacional

 O transtorno desenvolve-se em pessoas que tem uma predisposição biológica, uma predisposição  emocional adquirida no seu desenvolvimento psicológico desde os primeiros anos de vida, na formação da sua estrutura psíquica e de seu Eu. As características  culturais da sociedade atual com a valorização de um corpo perfeito e a tirania da beleza também são importante para o desenvolvimento deste transtorno.

2-      A pessoa que sofre de dismorfia vive uma busca constante pela beleza. Ela acredita , em algum momento, que alcançou a beleza esperada?

Estas pessoas são ligadas ao inverso da beleza, ou seja, à feiúra. Dismorfia é uma palavra grega que significa feiúra . Sentem-se feias e procuram corrigir seus defeitos imaginários com tratamentos dermatológicos e cirurgias plásticas, mas  nunca se satisfazem, porque o “defeito” não é no corpo, mas sim uma projeção no corpo de conflitos psíquicos inconscientes. Na estruturação psíquica do Eu existe uma fase que se chama fase do espelho, onde a criança se reconhece pelo olhar do Outro, no caso, a mãe. Alguma falhas neste processo criam feridas no narcisismo individual que continuam provocando dor. Onde algo não foi simbolizado, fica um vazio que se projeta  no corpo como um defeito físico imaginário.

3-      Por se sentir sempre feio e com defeitos, o dismórfico pode reduzir a sua identidade social? Qual prejuízo de uma atitude como esta?

Sim. O indivíduo portador deste transtorno começa a ficar isolado, sentindo-se mal, triste, tímido, o que prejudica a formação de laços sociais e afetivos e como este transtorno aparece na adolescência, causa prejuízos intensos na formação da sua identidade social.

4    A pessoa que tem dismorfia corporal costuma não acreditar quando alguém diz       que certo defeito não existe. Por que a pessoa cria esta realidade na cabeça e se apega tanto a ela?

Porque existe nestas pessoas uma deformação da imagem corporal, que é a representação psíquica que fazemos de nosso próprio corpo. Esta deformação é parcial, restringe-se a uma parte do corpo que geralmente é a face, mas pode ser localizada em qualquer parte do mesmo. Argumentações dos outros, embasadas  na realidade, não são ouvidas.

5-      Homens e mulheres são atingidos por este distúrbio na mesma proporção? Mas os sintomas são os mesmos nos dois?

Não existe diferença na prevalência deste transtorno entre homens e mulheres. Em relação à população geral , 1% dos indivíduos  são acometidos. As queixas mais comuns costumam ser na face, por exemplo, nariz comprido, rugas, manchas na pele, etc. Nas mulheres a maior preocupação costuma ser a pele e os cabelos(volume e comprimento). Nos homens o cabelo também é fonte de preocupação (calvície) e o tamanho dos genitais.

6      A dismorfia corporal pode ser uma porta de entrada para outros transtornos,   como a anorexia e a bulimia?

A  anorexia nervosa e a bulimia nervosa são transtornos alimentares que tem em comum com a dismorfia a alteração da imagem corporal. Se na dismorfia a alteração da imagem é parcial, na anorexia existe uma distorção da imagem do corpo na sua totalidade, a pessoa que sofre de anorexia se enxerga gorda, obesa, embora esteja magérrima. Existe também em comum uma falta de crítica  em relação aos sintomas e uma preocupação enorme com a aparência estética. E, claro que a preocupação de um portador de dismorfia pode se transformar numa preocupação excessiva com o peso corporal e o desenvolvimento de anorexia e bulimia nervosas. 

7 A dismorfia sempre afeta as pessoas na mesma intensidade ou ela tem graus   diferentes?

Existem desde quadros  leves até intensos e graves.


8 Existem  casos de pessoas que se deformaram em busca da beleza, e com isso desenvolveram depressão, angústia. O que mais a dismorfia traz à pessoa?

Além de depressão, angústia e ansiedade, o transtorno dismórfico corporal pode levar a um extremo isolamento social, os indivíduos podem abandonar a escola, evitar entrevistas em empregos, trabalhar em ocupações abaixo de suas capacidades, ou não trabalhar. Costumam ter poucos amigos, evitar encontros afetivos e outras interações sociais como festas, ter dificuldades conjugais em decorrência de seus sintomas. Nos casos mais graves, o sofrimento e as dificuldades sociais podem provocar ideações suicidas e tentativas de suicídio ( em comorbidade com depressão).
O Transtorno dismórfico corporal pode estar associado ao Transtorno depressivo maior e ao transtorno obsessivo compulsivo. Observa-se uma incidência maior nas famílias que tem portadores de TOC.

9 Muitas pessoas vêem nas celebridades o tipo físico perfeito e tentam a todo custo copiá-las. Como esta exaltação à beleza contribui para que as pessoas desenvolvam a doença?

Estes são os aspectos culturais do nosso tempo, com a valorização excessiva da imagem, da beleza, da juventude, da estética, do individualismo, em detrimento de valores éticos. E muitas vezes a imagem  estética é associada a sucesso, à felicidade, à inteligência, o que faz com que se procure um ideal inatingível de beleza, veiculados pela celebridades, mas impossível para a grande maioria da população. Estes aspectos de nossa cultura global criam um solo propício para o desenvolvimento da dismorfia.
 
  10       Os cirurgiões plásticos são os médicos mais procurados pelas pessoas que tem dismorfia corporal. Como pode ele distinguir um paciente dismórfico de outro normal?

Bem, todas as pessoas que procuram por uma cirurgia plástica estética  estão preocupadas com a aparência. do próprio corpo, ou seja , cuidados com a saúde e com a imagem física  fazem parte do cotidiano das pessoas que procuram os cirurgiões plásticos.  Para identificar um portador de transtorno dismórfico corporal, o cirurgião plástico deverá efetuar uma avaliação clínica minuciosa tendo em vista esta questão. Os indivíduos portadores do transtorno fazem queixas subjetivas que estéticamente são infundadas e muitas vezes já passaram por mais de uma cirurgia e mantêm-se sempre insatisfeitos. Caso o cirurgião os opere, isto trará ao paciente uma nova demanda de insatisfação consigo mesmo e com a cirurgia, acarretando agravamento do quadro.

   11 A dismorfia pode surgir em todas as fases da vida?

O transtorno dismórfico corporal aparece no início da adolescência e na adolescência tardia( até os 20 anos). A evolução é flutuante, às vezes melhora e às vezes acentua-se e tende a ter uma evolução crônica, se não tratado.
12 A família dos pacientes pode confundir o distúrbio com vaidade? Como os familiares podem perceber que não é frescura?

A princípio pode parecer apenas vaidade para os familiares. Mas a diferença logo se fará notar porque quem é portador do transtorno dismórfico estas idéias são supervalorizadas chegando a tornarem-se obsessivas. Trazem um sofrimento intenso e uma alteração no comp[ortamento social do indivíduo.
13  Existe tratamento para este distúrbio? Como é?

Sim. O tratamento é psicoterápico e medicamentoso, de acordo com cada caso.

14  E como a pessoa pode conviver com este distúrbio sem perder a qualidade de vida?

Desde que reconheça a necessidade de tratamento especializado psiquiátrico e psicoterápico. Pois estes pacientes não têm crítica de seus sintomas. A partir momento do reconhecimento da necessidade de procurar tratamento  e do início do mesmo, tudo pode melhorar na vida destas pessoas.

 Marilia Brandão Lemos

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário