terça-feira, 10 de setembro de 2013

TRANSTORNOS ALIMENTARES : ENTREVISTA


TRANSTORNOS ALIMENTARES  

1 - O que são os transtornos alimentares? Bulimia, anorexia, compulsão alimentares estão entre os mais comuns? São problemas contemporâneos ou sempre existiram e só não eram diagnosticados?

Transtornos alimentares são alterações do comportamento alimentar, da relação do indivíduo com   sua forma de comer e beber, intermediada pelas emoções, alterações estas que  provocam prejuízo à saúde do mesmo e consequências na sua vida social e afetiva.
A anorexia e a bulimia nervosa são as síndromes clássicas dos transtornos alimentares. O transtorno da compulsão alimentar periódica é uma classificação mais recente.
Anorexia nervosa caracteriza-se pela perda de peso induzida e mantida pelo paciente, associada a uma distorção da imagem corporal e um medo doentio de engordar, uma recusa patológica de se alimentar, podendo chegar a graus graves de inanição. As pacientes sentem-se gordas apesar de todas  as evidências em contrário.
A bulimia nervosa consiste de repetidos episódios de ingestão de grandes quantidades de alimentos em um curto intervalo de tempo, associado a um sentimento de perda de controle. Preocupações excessivas com o ganho de peso levam o paciente a adotar medidas extremas para evitar engordar tais como a autoindução de vômitos, uso de laxantes, de medicamentos para diminuir o apetite, de preparados tireoidianos, de diuréticos, de jejuns prolongados, de exercícios físicos exagerados, etc.
O transtorno da compulsão alimentar periódica inclui pessoas, muitas vezes obesas, que apresentam episódios recorrentes de compulsão alimentar (binge eating) : o excesso alimentar e a perda de controle. Os indivíduos relatam  angústia  , culpa e tristeza após os episódios de comilança excessiva. Não está associado aos comportamentos de purgação (vômitos induzidos, jejuns acentuados, automedicação).
Os transtornos alimentares sempre existiram. No final do século XIX começaram a surgir descrições de anorexia nervosa na literatura médica. Em 1873 o psiquiatra inglês William Gull e o psiquiatra francês Ernest-Charles Lasègue descreveram, independentemente, quadros clínicos de anorexia nervosa. O historiador Bell (1985) descreve em seu livro Holy anorexia a vida de 260 santas e beatas da Idade Média e suas práticas de jejum religioso a partir do século XIII. Para Bell, a chamada por ele de “anorexia sagrada” é semelhante à “anorexia moderna”, pois entende que em ambas há um conflito de identidade, uma tentativa de libertação feminina de uma sociedade patriarcal.
Na tragédia grega Antígona, de Sófocles, escrita na Antiguidade, já aparece uma descrição da personagem que se recusa a se alimentar para preservar o seu desejo.
Acreditamos que a cultura da modernidade favorece o desencadeamento dos transtornos alimentares, serve como solo propiciador para o desencadeamento dos fatores biológicos, psíquicos e familiares, das predisposições singulares de cada um.

2 - Os transtornos alimentares estão ligados à forma como as pessoas processam as emoções. Por que isso ocorre?

Cada pessoa adoece de acordo com suas predisposições individuais, de suas predisposições genéticas expostas ao meio social e cultural em que vive,  de seu desenvolvimento emocional, desde os primeiros anos de vida,  de suas relações com o outro, da sua disposição familiar, afetiva, de situações desencadeantes do momento em que vive. Algumas desenvolvem os transtornos alimentares. Estes afetam mais adolescentes e adultos jovens, e mais mulheres que homens. A forma do adoecer psíquico é singular e depende da história de cada um, desde os primeiros anos de vida, de seus traumas, da sua vulnerabilidade.
Os fatores socioculturais tem sido muito pesquisados no desenvolvimento dos transtornos alimentares, desde as mudanças no modelo idealizado de beleza, passando pelo  papel da globalização, até as transformações do lugar social e político ocupado pela mulheres e os seus desdobramentos na formação da identidade feminina.  Mudanças nos padrões de beleza, o ideal da magreza, a depreciação da gordura,  a excessiva valorização estética do corpo  associada a valores éticos tais como:_ Ser magro é igual a ter autocontrole, competência profissional, ser eróticamente atraente. Uma pressão social em relação à magreza exposta pela mídia, além de mudanças socioeconômicas da sociedade ocidental e mudança de valores podem criar um ambiente psicológico propício para o desencadear destes transtornos. Mas apenas os indivíduos susceptíveis desenvolverão o transtorno.
Os fatores familiares são enfatizados no desencadeamento dos transtornos alimentares. Famílias com dificuldades de resolver conflitos, de reconhecer e propiciar a separação e individuação de seus membros ou que desenvolvem um relacionamento muito crítico e exigente em relação ao corpo podem também propiciar um solo favorável ao desencadeamento dos transtornos alimentares.

 3 - Do ponto de vista neurológico, qual a relação podemos estabelecer entre as emoções e o apetite ou a falta dele?

O ato de alimentar-se se inicia pelo estímulo sensorial e cognitivo desencadeado pela aparência do alimento, seu cheiro e sabor e são reforçados pela sensação de prazer que a alimentação produz. A fome pode ser definida como a motivação para procurar e ingerir alimentos, começando um período de comportamento alimentar. O que põe fim à sensação de fome é a saciedade. Os sinais de fome antes do consumo de alimentos provocados pelo cheiro e sabor servem para estimular e dar continuidade ao processo de ingestão. Neurotransmissores são liberados no cérebro, em especial a dopamina, os opiáceos endógenos e os endocanabinoides,  que estão associados com o prazer de comer. A resposta inicial do organismo é a salivação e a produção de hormônios tais como insulina, glucagon  e outros que visam dar continuidade ao processo. A regulação do apetite também está relacionada a gatilhos fisiológicos e hormônios intestinais, tais como a grelina, o hormônio da fome, secretado antes de uma refeição, quando o estômago está vazio e suprimido pela ingestão de alimentos, que atuam em  neurônios do hipotálamo estimulando o apetite. A leptina é produzida pelas células de gordura  ativa regiões hipotalâmicas responsáveis pela saciedade.           Estes são apenas alguns exemplos da diversidade química e fisiológica da “cascata da saciedade” descrita por Blundell referente à ação de preparar-se para consumir e o consumo real de alimentos e sua cascata de sinais.
Do ponto de vista psicobiológico, inúmeros locais do cérebro influenciam o comportamento alimentar, especialmente o tronco cerebral, o sistema límbico e o hipotálamo. A fome, a vontade de comer serve aos interesses do instinto de conservação, da preservação do indivíduo enquanto vida, da pulsão de vida, de  Eros e   o ato de alimentar-se é um ato prazeroso e um ato social, pois que a refeição sempre teve esta conotação de celebração, de congraçamento, vide almoços em família, banquetes de casamento, ceias de Natal e até a comunhão, na religião católica tem este simbolismo de alimento. A função orgânica da alimentação, no homem, se acha elevada a uma função erótica, passando do registro da necessidade para o registro do desejo. O comer e o beber se inserem como atividades eróticas que o corpo realiza. Não é apenas fome, é apetite. A dimensão simbólica dos alimentos é a parte mais rica e é ela que assegura o desejo, o prazer de alimentar, a degustação do prato predileto, o paladar compartilhado, a comunhão com a família e amigos no ato de comer.
As emoções interferem no apetite aguçando-o ou inibindo-o. A ansiedade, a depressão, do mesmo modo que em alguns indivíduos estimula-os a comer mais, noutros inibem-lhes o apetite e em outros desenvolvem os transtornos alimentares.

 4 - Por que, muitas vezes, resolvemos angústias e outros sentimentos negativos comendo chocolate ou sorvete?

O ato de comer um chocolate ou sorvete, alimentos doces, de textura agradável ao paladar e de alto teor energético nos alivia e acalma, estimulam a liberação de neurotransmissores cerebrais que desencadeiam uma sensação prazerosa e agem como um tranquilizante e sedativo de nossas dores momentâneas, antídoto para nossas angústias eventuais.  O chocolate é rico ainda em algumas substancias estimulantes do cérebro e que aumentam a sensação de  prazer.

( Entrevista  de Marília Brandão Lemos à jornalista Marcia Maria Cruz, do Caderno Bem Viver, do jornal Estado de Minas)







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