1 -
O que são os transtornos alimentares? Bulimia, anorexia, compulsão alimentares
estão entre os mais comuns? São problemas contemporâneos ou sempre existiram e
só não eram diagnosticados?
Transtornos
alimentares são alterações do comportamento alimentar, da relação do indivíduo com
sua forma de comer e beber, intermediada
pelas emoções, alterações estas que provocam prejuízo à saúde do mesmo e
consequências na sua vida social e afetiva.
A
anorexia e a bulimia nervosa são as síndromes clássicas dos transtornos
alimentares. O transtorno da compulsão alimentar periódica é uma classificação
mais recente.
Anorexia
nervosa caracteriza-se pela perda de peso induzida e mantida pelo paciente,
associada a uma distorção da imagem corporal e um medo doentio de engordar, uma
recusa patológica de se alimentar, podendo chegar a graus graves de inanição.
As pacientes sentem-se gordas apesar de todas as evidências em contrário.
A
bulimia nervosa consiste de repetidos episódios de ingestão de grandes
quantidades de alimentos em um curto intervalo de tempo, associado a um
sentimento de perda de controle. Preocupações excessivas com o ganho de peso
levam o paciente a adotar medidas extremas para evitar engordar tais como a
autoindução de vômitos, uso de laxantes, de medicamentos para diminuir o apetite,
de preparados tireoidianos, de diuréticos, de jejuns prolongados, de exercícios
físicos exagerados, etc.
O
transtorno da compulsão alimentar periódica inclui pessoas, muitas vezes obesas,
que apresentam episódios recorrentes de compulsão alimentar (binge eating) : o excesso alimentar e a
perda de controle. Os indivíduos relatam
angústia , culpa e tristeza após
os episódios de comilança excessiva. Não está associado aos comportamentos de
purgação (vômitos induzidos, jejuns acentuados, automedicação).
Os
transtornos alimentares sempre existiram. No final do século XIX começaram a
surgir descrições de anorexia nervosa na literatura médica. Em 1873 o
psiquiatra inglês William Gull e o psiquiatra francês Ernest-Charles Lasègue
descreveram, independentemente, quadros clínicos de anorexia nervosa. O
historiador Bell (1985) descreve em seu livro Holy anorexia a vida de 260 santas e beatas da Idade Média e suas
práticas de jejum religioso a partir do século XIII. Para Bell, a chamada por
ele de “anorexia sagrada” é semelhante à “anorexia moderna”, pois entende que
em ambas há um conflito de identidade, uma tentativa de libertação feminina de
uma sociedade patriarcal.
Na
tragédia grega Antígona, de Sófocles,
escrita na Antiguidade, já aparece uma descrição da personagem que se recusa a
se alimentar para preservar o seu desejo.
Acreditamos
que a cultura da modernidade favorece o desencadeamento dos transtornos
alimentares, serve como solo propiciador para o desencadeamento dos fatores
biológicos, psíquicos e familiares, das predisposições singulares de cada um.
2 -
Os transtornos alimentares estão ligados à forma como as pessoas processam as
emoções. Por que isso ocorre?
Cada
pessoa adoece de acordo com suas predisposições individuais, de suas
predisposições genéticas expostas ao meio social e cultural em que vive, de seu desenvolvimento emocional, desde os
primeiros anos de vida, de suas relações
com o outro, da sua disposição familiar, afetiva, de situações desencadeantes
do momento em que vive. Algumas desenvolvem os transtornos alimentares. Estes
afetam mais adolescentes e adultos jovens, e mais mulheres que homens. A forma
do adoecer psíquico é singular e depende da história de cada um, desde os
primeiros anos de vida, de seus traumas, da sua vulnerabilidade.
Os
fatores socioculturais tem sido muito pesquisados no desenvolvimento dos
transtornos alimentares, desde as mudanças no modelo idealizado de beleza,
passando pelo papel da globalização, até
as transformações do lugar social e político ocupado pela mulheres e os seus
desdobramentos na formação da identidade feminina. Mudanças nos padrões de beleza, o ideal da
magreza, a depreciação da gordura, a
excessiva valorização estética do corpo associada a valores éticos tais como:_ Ser
magro é igual a ter autocontrole, competência profissional, ser eróticamente
atraente. Uma pressão social em relação à magreza exposta pela mídia, além de
mudanças socioeconômicas da sociedade ocidental e mudança de valores podem
criar um ambiente psicológico propício para o desencadear destes transtornos.
Mas apenas os indivíduos susceptíveis desenvolverão o transtorno.
Os
fatores familiares são enfatizados no desencadeamento dos transtornos
alimentares. Famílias com dificuldades de resolver conflitos, de reconhecer e
propiciar a separação e individuação de seus membros ou que desenvolvem um
relacionamento muito crítico e exigente em relação ao corpo podem também
propiciar um solo favorável ao desencadeamento dos transtornos alimentares.
O
ato de alimentar-se se inicia pelo estímulo sensorial e cognitivo desencadeado
pela aparência do alimento, seu cheiro e sabor e são reforçados pela sensação
de prazer que a alimentação produz. A fome pode ser definida como a motivação
para procurar e ingerir alimentos, começando um período de comportamento
alimentar. O que põe fim à sensação de fome é a saciedade. Os sinais de fome
antes do consumo de alimentos provocados pelo cheiro e sabor servem para
estimular e dar continuidade ao processo de ingestão. Neurotransmissores são
liberados no cérebro, em especial a dopamina, os opiáceos endógenos e os
endocanabinoides, que estão associados
com o prazer de comer. A resposta inicial do organismo é a salivação e a
produção de hormônios tais como insulina, glucagon e outros que visam dar continuidade ao
processo. A regulação do apetite também está relacionada a gatilhos
fisiológicos e hormônios intestinais, tais como a grelina, o hormônio da fome,
secretado antes de uma refeição, quando o estômago está vazio e suprimido pela
ingestão de alimentos, que atuam em
neurônios do hipotálamo estimulando o apetite. A leptina é produzida
pelas células de gordura ativa regiões
hipotalâmicas responsáveis pela saciedade. Estes são apenas alguns exemplos da
diversidade química e fisiológica da “cascata da saciedade” descrita por
Blundell referente à ação de preparar-se para consumir e o consumo real de
alimentos e sua cascata de sinais.
Do
ponto de vista psicobiológico, inúmeros locais do cérebro influenciam o
comportamento alimentar, especialmente o tronco cerebral, o sistema límbico e o
hipotálamo. A fome, a vontade de comer serve aos interesses do instinto de conservação,
da preservação do indivíduo enquanto vida, da pulsão de vida, de Eros e o ato
de alimentar-se é um ato prazeroso e um ato social, pois que a refeição sempre
teve esta conotação de celebração, de congraçamento, vide almoços em família,
banquetes de casamento, ceias de Natal e até a comunhão, na religião católica
tem este simbolismo de alimento. A função orgânica da alimentação, no homem, se
acha elevada a uma função erótica, passando do registro da necessidade para o
registro do desejo. O comer e o beber se inserem como atividades eróticas que o
corpo realiza. Não é apenas fome, é apetite. A dimensão simbólica dos alimentos
é a parte mais rica e é ela que assegura o desejo, o prazer de alimentar, a
degustação do prato predileto, o paladar compartilhado, a comunhão com a
família e amigos no ato de comer.
As
emoções interferem no apetite aguçando-o ou inibindo-o. A ansiedade, a
depressão, do mesmo modo que em alguns indivíduos estimula-os a comer mais,
noutros inibem-lhes o apetite e em outros desenvolvem os transtornos
alimentares.
O
ato de comer um chocolate ou sorvete, alimentos doces, de textura agradável ao
paladar e de alto teor energético nos alivia e acalma, estimulam a liberação de
neurotransmissores cerebrais que desencadeiam uma sensação prazerosa e agem
como um tranquilizante e sedativo de nossas dores momentâneas, antídoto para
nossas angústias eventuais. O chocolate
é rico ainda em algumas substancias estimulantes do cérebro e que aumentam a
sensação de prazer.
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