quarta-feira, 9 de outubro de 2013

ESTRESSE: ENTREVISTA

Alto nível de ansiedade pode ser sinal de estresse patológico

A todo instante estamos tentando nos adaptar às exigências do dia a dia, sejam pressões provenientes do meio ambiente, do nosso mundo interno ou psíquico (nossos sonhos, desejos, nossas frustrações e decepções).

Escrito por Manuela Marques em Saúde e Vida - 04/10/2013

Marília Brandão afirma que é preciso observar com atenção o aumento de irritabilidade e a fadiga excessiva
(Foto: Arquivo Pessoal)
São essas diversas exigências que desencadeiam as situações geradoras de estresse. De acordo com a especialista e membro da Associação Mineira de Psiquiatria, Marília Brandão de Morais, o estresse se define nas reações que o organismo tem frente a situações adversas, um mecanismo natural que prepara nosso corpo e nossa mente para enfrentarmos condições de perigo e nos ajuda a sobreviver. “A reação de estresse é normal, fisiológica e esperada”, afirma a psiquiatra.
O problema começa quando os estímulos estressores se tornam constantes e a capacidade do indivíduo de reagir aos mesmos diminui, surgindo assim os primeiros sinais e sintomas do estresse patológico. A médica explica que a ansiedade é a mola propulsora desse mal, este é um sinal de alerta que nos mobiliza e nos faz menos acomodados e mais ativos. “Quando o nível de ansiedade aumenta muito nos paralisa. Esse descontrole serve como um primeiro parâmetro para indicar se os fatores estressores podem estar caminhando para o desencadeamento de um estado de estresse patológico. Também é preciso observar com atenção o aumento de irritabilidade e a fadiga excessiva”.
A especialista relata que a partir do momento que os estímulos estressores passam a ser constantes e crônicos podem afetar o equilíbrio do indivíduo, seja ele imunológico, endócrino ou mental. “Na realidade, uma reação de estresse patológico pode desencadear, dependendo da vulnerabilidade do indivíduo, diversos transtornos de ansiedade, tais como: pânico, fobias sociais e depressão. Além de doenças cardiovasculares, diminuição da imunidade com predisposição aos estados infecciosos, afecções de pele e doenças do aparelho digestivo”, alerta Marília.
Os sintomas mais comuns do estresse patológico podem ser divididos em três grupos. Os sintomas de ansiedade, como: irritabilidade, impaciência, inquietação, dificuldade de concentração e esquecimento. Os do transtorno de somatização: vômitos, náuseas, dores generalizadas, musculares, lombares, articulares, cefaléias, diarréia, flatulência, alteração do apetite e diminuição da libido. E também os de depressão: desânimo, desinteresse, apatia, fadiga fácil, dores sem causa física, sonolência excessiva ou insônia, baixo desempenho, perda de prazer com atividades que antes lhe eram prazerosas e isolamento social.
Os dados epidemiológicos mostram que as mulheres são duas vezes mais propensas ao estresse do que os homens. “As características biológicas como um ciclo hormonal, a gravidez e os cuidados com a família, a torna mais susceptível. Além das características culturais que as levam a desempenhar uma dupla jornada de trabalho”.
Segundo a psiquiatra, o diagnóstico do estresse patológico é clínico e deve envolver uma investigação minuciosa, para que se excluam outras doenças que poderiam estar causando tais sintomas. “O estresse é uma condição que afeta o indivíduo como um todo e os aspectos emocionais são geralmente os primeiros sintomas a se apresentarem”.
Quanto mais precoce for o diagnóstico e o tratamento, mais chance de se reverter os efeitos patológicos do estresse. “Acreditar que estes sintomas podem ser transitórios, que melhoram com o tratamento e que servem como sinal de alerta para mudar o que não vai bem. Aderir ao tratamento e procurar uma psicoterapia são as formas de se curar o estresse patológico”, enfatiza.
Profissões mais estressantes
Viver é estressante. A ausência de estresse significa a morte. Pensando nesse contexto, todas as profissões possuem sua carga de estresse. Aquelas atividades que mais gostamos de desempenhar e melhor lidamos, provavelmente serão as que nos gerarão menos incômodos. “Aqueles profissionais que trabalham mais proximamente com o ser humano, tais como os da área da saúde, professores, policiais, bombeiros e os executivos, estão mais submetidos a pressões. Mas, uma dona de casa também vive pressionada, pois muitas vezes tem que lidar com um orçamento apertado, cuidar dos filhos, da casa, do marido e conviver com as enormes dificuldades do cotidiano na sociedade atual”, finaliza Marília.


 0  0  5

domingo, 6 de outubro de 2013

SOBRE O RISO E O BOM HUMOR


SOBRE O RISO E O BOM HUMOR

Com as unhas cravadas no mal-estar  Entrevista à Marcia Junges

Fazer humor é transgredir, é despir as ideologias de suas roupagens, e as teorias de sua pompa, frisa a psicanalista Marília Brandão Lemos Morais. Os humoristas são aqueles que enterram as unhas no “mal-estar” do qual padece a contemporaneidade, fazendo ressurgir a transgressão

“O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita”. A afirmação é da psicanalista Marília Brandão Lemos Morais em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Ela recupera o conceito de humor em Sigmund Freud, dizendo que este não é resignado, mas rebelde. Os humoristas são aqueles que “cravam as unhas no mal-estar”, apontam a “finitude humana, sua dor e sofrimento”. E complementa: “Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!”. Marília constata que nossa sociedade “parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor”.

Psiquiatra e psicanalista, Marília Brandão LemosMorais  é formada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. Filiada ao Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ao Círculo Brasileiro de Psicanálise e à International Federation of Psychoanalisis. Título de Especialista em Psiquiatria e Psicoterapia pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Médica Brasileira

 COM AS UNHAS CRAVADAS NO  MALESTAR

Fazer humor é transgredir, é despir as ideologias de suas roupagens, e as teorias de sua pompa, frisa a psicanalista Marília Brandão Lemos Morais . Os humoristas são aqueles que enterram as unhas no “mal-estar” do qual padece a contemporaneidade, fazendo ressurgir a transgressão

Por: Márcia Junges

“O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita”. A afirmação é da psicanalista Marília Lemos em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Ela recupera o conceito de humor em Sigmund Freud, dizendo que este não é resignado, mas rebelde. Os humoristas são aqueles que “cravam as unhas no mal-estar”, apontam a “finitude humana, sua dor e sofrimento”. E complementa: “Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!”. Marília constata que nossa sociedade “parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor”.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Psicanaliticamente, o que explica a necessidade e o prazer que sentimos de rir e fazer rir?
Marília Lemos – O riso é uma descarga de afeto que gera prazer e contagia. O mecanismo do riso é explicado como consequência da suspensão da inibição: um quantum de energia psíquica torna-se livre e encontra uma via de descarga motora na risada.O chiste e o humor convidam ao prazer e ao gozo em função do riso que provocam, contagiando o espaço social. Se o chiste está estruturado como uma formação do inconsciente, é por isto mesmo um trânsito para que alguma coisa da ordem do recalcado abra passagem e se mostre sem passar pelo desconforto da angústia e do padecimento de sintomas.
No capítulo V do livro Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), de Freud, são analisados os motivos dos chistes e o impulso que temos de passá-los para frente, através de um contágio entusiasmado, colocando-os como um processo social. Na estrutura dos chistes, são determinadas três pessoas: a primeira, quem conta a piada; a segunda, aquela de quem se fala e que não está presente e é o alvo das pressões sexuais e agressivas; e a terceira, que é para quem se conta a piada, a plateia ou a paróquia (termo retirado de Bergson que Freud colocou como todo chiste requer seu próprio público). A função desta terceira pessoa é fundamental: é aquela que ri da piada e a que a referenda, pois, sem seu riso, a piada não é piada, portanto, um efeito a posteriori, que só então faz o piadista rir. Esta terceira pessoa é importante para o piadista reexperimentar, através dela, o efeito surpresa da piada ouvida pela primeira vez, e para autorizar a transgressão da repressão social efetuada pelo piadista.
Os chistes provêm dos jogos de palavras e pensamentos usados pelas crianças e que produzem prazer. Com o passar dos anos são abandonados em função da faculdade crítica e da racionalidade. Entretanto, o sujeito não quer renunciar a um prazer que lhe é familiar. Daí o ulterior desenvolvimento destes jogos infantis até a sua transformação em chistes, impulsionados pelo desejo de burlar a crítica e reencontrar o antigo prazer. O propósito, a função dos chistes consiste em suspender as inibições internas e tornar acessíveis as fontes de prazer. Os chistes são tendenciosos, satisfazem a uma tendens, uma intenção. A sua forma engenhosa satisfaz a intenções agressivas e sexuais, a sua forma alusiva e indireta permite que pensamentos sejam expressos, burlando a crítica. O fato de negarem a censura e de liberarem a inibição que pesava sobre estas fantasias coloca à mostra o inconsciente e o prazer é derivado da economia de um dispêndio psíquico, aquele que mantinha a inibição. Entre os vários tipos de inibição, o texto freudiano se refere ao recalque, reconhecido por impedir que impulsos a ele sujeitos e seus derivativos tornem-se conscientes. E diz que os chistes são capazes de liberar prazer de fontes já submetidas ao recalque.

IHU On-Line – Qual é a função do riso? Catarse, mecanismo de defesa?

Marília Lemos – O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita. Numa brincadeira pode-se até dizer a verdade, enuncia Freud em seu livro Os chistes e sua relação com o inconsciente. O recurso ao falei de brincadeira ou é de mentirinha pode ser a maneira de uma verdade ser anunciada, através do faz de conta: Foi sem querer querendo, como diz o Chavez do programa humorístico da TV. Esta verdade se diz através de um sentido insólito brotado no nonsense, do paradoxo, do absurdo, ao qual se segue uma revelação de sentido que é sempre surpreendente e fugaz, seguido da descarga de riso.

IHU On-Line – Em que medida rir pode ser também uma transgressão e uma rebeldia?

Marília Lemos – O humor não é resignado, mas rebelde, diz Freud em seu ensaio O humor (1926). São os humoristas, aqueles que captam a fragilidade do homem, seus conflitos, sua finitude, sua dor e sofrimento, “cravam as unhas no mal-estar”, desviam do interdito e dali saem com um dito espirituoso que os fazem rir de si mesmos, ou do outro e fazem o outro rir. São eles que revelam nossas contradições, nossas falhas, nossas imperfeições. Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!

IHU On-Line – Como podemos compreender as conexões entre angústia, ironia e riso?

Marília Lemos Se o humor consiste numa forma inteligente de lidar com a dor e o sofrimento e ainda tirar proveito disso, podemos observar esta conexão na própria vida de Freud em duas situações descritas por Peter Gay (e citadas por Kupermann). Em 1938, na época de deixar a Áustria dominada, então, pelo nazismo, após a prisão e interrogatório de sua filha Anna, Freud foi obrigado a assinar um documento para a Gestapo dizendo que não havia sofrido maus-tratos. Após assiná-lo, ele acrescentou de próprio punho: “Posso recomendar altamente a Gestapo a todos”. Esta tirada de humor foi, de início, interpretada por Gay como uma tentativa inconsciente de suicídio, uma vez que a ousadia de Freud punha em risco a sua própria vida, caso as autoridades nazistas reconhecessem ali uma fina ironia. Mas, num segundo tempo, o mesmo Gay reconhece que esta atitude demonstrava uma grande coragem e vitalidade do criador da psicanálise e “seu senso de humor irreprimível”. Esta ambiguidade, que aponta tanto para a vida quanto para a morte, revela a ambivalência e o paradoxo próprios do registro tragicômico e do humor negro, nesta estranha proximidade da angústia, da ironia e do riso.

IHU On-Line – Por que o humor pode ser o último véu a encobrir o horror?

Marília Lemos – Podemos observar como o humor pode ser o último véu a encobrir o horror, citando o famoso chiste de humor negro escrito por Freud, o do condenado à morte que, numa segunda-feira de manhã, ao ser levado para a execução, comenta: “É, a semana está começando otimamente.” Humor enquanto afirmação do desejo diante da adversidade e da morte. Humor lúcido e trágico, ao mesmo tempo triunfal, alegre, ou seja, o humor freudiano, em sua associação íntima com a morte é tragicômico.

IHU On-Line – Em que medida o humor freudiano é um humor trágico?

Marília Lemos – Em alguns episódios da vida de Freud, especialmente em sua velhice, quando acometido por um câncer de mandíbula que lhe causava muito sofrimento, ou quando assistia ao advento do nazismo na Europa – todos estes momentos demonstram fino humor. Em maio de 1933, ao saber que seus livros estavam incluídos nos que seriam queimados em praças públicas das cidades alemãs e nos campi universitários, fez o seguinte comentário: “Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje se contentam em queimar os meus livros”. Mal sabia ele o quanto estava sendo profético!
Numa conversa com o jornalista americano George Sylvester Viereck em 1926, Freud teria dito: Setenta anos de existência ensinaram-me a aceitar a vida com alegre humildade... Não gosto de meu palato artificial, porque a luta para mantê-lo em função consome minha energia. Prefiro, entretanto, um palato postiço a nenhum; ainda prefiro a existência à extinção... Não sou pessimista, não permito que nenhuma reflexão filosófica me faça perder o gozo das coisas simples da vida. Sábias palavras de alguém que, apesar dos sofrimentos pelos quais passou, ainda amava a vida e pode expressar, aos 71 anos, a sua criatividade e escrever sobre o valioso dom do humor para aliviar as dores da existência, pois só através dele, é possível divertir-se no infortúnio. O humor permite a inscrição da intensidade pulsional no universo das representações, ainda que em situações-limite. Permite que o sujeito afirme seu desejo contra a pulsão de morte que o habita.

IHU On-Line – Por que o humor é ético, estético e político? Poderia aprofundar essa relação?

Marília Lemos – Esta relação é bem aprofundada por Kupermann (Ousar rir) e Birman , em Frente e verso: o trágico e o cômico na desconstrução do poder, em Seria trágico... se não fosse cômico (Slavustzky e Kupermann). O humor é ético porque é a afirmação do desejo frente à pulsão de morte. O humor permite a inscrição da intensidade pulsional no universo das representações, ainda que em situações-limite. A essência do humor seria poupar afetos penosos. O humor possui, segundo Freud, qualquer coisa de grandeza e elevação, que faltam ao chiste e ao cômico: o eu se recusa a sofrer as provocações impostas pela realidade. Significa a vitória do eu sobre o mundo externo e a vitória do princípio do prazer, do modo de funcionamento do processo primário característico do inconsciente. O desejo se afirma frente à pulsão de morte e a pulsão traça novos caminhos simbólicos, encontra outros objetos de satisfação. A despeito do triunfo do narcisismo enfatizado por Freud, o humor denuncia o fracasso e a impossibilidade de realização das ilusões narcísicas do eu, leva a uma desidealização e desmontagem de certezas, permitindo que o desejo abra caminhos. Estamos lidando, na questão do humor, não apenas com o triunfo do eu, mas com a afirmação teimosa e rebelde do erotismo e do desejo do sujeito frente às adversidades impostas pelo destino, pelo acaso e pela morte. O caráter rebelde do humor se opõe à resignação masoquista do sujeito ante o real e os imperativos sociais.
A obra Os chistes e sua relação com o inconsciente é, segundo Jones, a principal contribuição freudiana para a estética, entendendo-se por estética as condições nas quais a fruição de prazer torna-se possível diante das produções artísticas e culturais. O humor é estético, pois, criativo, contorna os interditos e causa prazer da ordem sublimatória. Na segunda tópica freudiana, com a formulação do conceito de pulsão de morte, o processo sublimatório é concebido como uma mudança do objeto de satisfação num circuito pulsional, como uma saída criativa do aparato psíquico, pela criação de novos objetos para a satisfação erótica do sujeito, que também possam ser culturalmente compartilhados, sem que isto implique em renúncia à satisfação pulsional, mas sim, um processo que é movido pelo erotismo e pelo desejo.
O humor como desconstrução de poder está exemplificado por Birman com o famoso humor judaico. O judaísmo utilizou-se do humor para a sua sobrevivência, enquanto cultura minoritária e enquanto ethos, como forma de reação criativa ao antissemitismo. Os judeus não se colocaram numa posição de vítimas, nem de mortificação masoquista, passiva, mas opuseram-se ativamente a isto, através de uma desmontagem social promovida pelo chiste, propiciadora da circulação do desejo e abertura de novas vias de discurso. Birman diz que Transformar a agressão mortífera em chiste e ainda gozar com o que se realiza, pelo riso que provoca, implica, para a tradição judaica, não se identificar com o agressor e esvaziar em ato, em cena social, o aniquilamento presente no gesto antissemita. Na virada do século XIX para o século XX, quando foi escrito o livro Os chistes e sua relação com o inconsciente, uma Áustria antissemita foi o palco para a criação da psicanálise. Não é por acaso que a singularidade da criatividade judaica, a qual permeia este livro recheado de piadas sobre judeus, contribuiu para a sua constituição. O humor é político, pois que é uma forma de desconstrução, pelas beiradas, do poder instituído, para que o sujeito reafirme o seu desejo e restaure o seu direito de existir numa comunidade social. Sem perder a graça!

IHU On-Line – Como compreender a contribuição de Lacan, quando refere que o chiste é da ordem do simbólico, o cômico, da ordem do imaginário e o humor, da ordem do real?

Marília Lemos – O chiste é da ordem do simbólico, porque se dá apenas no contexto da linguagem. Com a necessidade da primeira pessoa, a que conta a piada, a segunda pessoa, de quem se fala, e a terceira pessoa, aquela que ri da piada e que a referenda e autoriza a transgressão da repressão social, o chiste é considerado um modelo para o inconsciente. A referência de Freud à terceira pessoa coloca em cena um Outro como um lugar do simbólico, do código da linguagem com toda sua polissemia e ambiguidade, além da pessoa que a encarna. Uma diferença com o cômico está justamente aí, porque o cômico não necessita desta terceira pessoa, apenas de duas: a que ri e a de quem se ri. O cômico se realiza na dimensão especular da relação narcisista do eu com a imagem do outro, seu semelhante. Há, no cômico, uma tendência ao afastamento da palavra da sua propriedade significante e a aproximação ao puro significado: por exemplo, o pastelão na cara. O cômico pode prescindir da linguagem, uma vez que se desenvolve no registro da imagem, valendo-se do inesperado e do contraste repentino, como o que ocorre numa galeria de espelhos. Se encontramos algo cômico, poderemos rir sozinhos, embora muitas vezes o passemos para frente. Mas um chiste não nos permite rir sozinhos; é imperioso passarmos para a alguém que dê uma gostosa gargalhada.
O humor seria uma criação simbólica repentina, quando, através da surpresa e do inesperado, eclode um sentido novo. Seria, como diz Kuppermam, o marco zero da criatividade. É articulado e depende totalmente da linguagem e do deslizamento de sentido da palavra. Completa seu curso dentro de uma única pessoa; não é necessário uma outra para a fruição do prazer humorístico. Mas quando o humor é comunicado ou compartilhado pelo humorista, sentimos o mesmo prazer que o seu. A essência do humor é poupar afetos. No humor, a pessoa que é vítima da dor, consegue suprimir este afeto penoso in status nascendi e obter um prazer humorístico, o humorista consegue rir de si mesmo. De um encontro faltoso com o real, o humorista escamoteia o mal-estar e cria um dito espirituoso.

IHU On-Line – O risível muda de acordo com as culturas e com a época? Nesse sentido, qual é a peculiaridade do humor de nossos dias?

Marília Lemos – Apesar de o riso humorístico ser festivo e universal, sem idade ou pátria, o risível muda de acordo com a cultura e a época. Na Antiguidade e no Renascimento, havia a tradição das festas populares, na qual o sagrado era ritualmente profanado no paganismo. Uma estética do grotesco se disseminou no realismo alemão, que conjugava o horror e o disforme com a mordacidade. O conceito de Unheimlich (o estranho-familiar em Freud, ou o Sinistro) remete historicamente para esta estética do grotesco. Na Modernidade, o homem já não mais sabia rir (Nietzsche), a não ser por uma gargalhada estridente que funcionava mais como um instrumento de crítica que de prazer e descontração.
Vale dizer que os temas do riso e do cômico estavam na moda, na segunda metade do século XIX e vários autores escreveram sobre ele, antes e depois de Freud. No campo da filosofia, o livro O riso, de Henri Bergson, publicado originalmente em 1899 na Révue de Paris, obra de grande bojo teórico, era conhecido por Freud e foi incorporado e criticado por ele no seu livro de 1905. Outra foi Komic und Humor, do filósofo Theodor Lipps. Mas a originalidade do livro de Freud e sua contribuição maior foi inscrevê-lo como uma formação psíquica do inconsciente, destacando as dimensões do sentido e do desejo presentes na produção do chiste pelo sujeito e inseri-lo no corpo teórico da psicanálise, que estava, naquele momento, sendo constituído. O que o discurso freudiano vai enfatizar na técnica do chiste e do seu efeito humorístico são os mesmos mecanismos de condensação e deslocamento pelos quais o inconsciente se apresenta, como nos sonhos, atos falhos e sintomas.
Nos nossos dias, o tempo da modernidade líquida, segundo Zygmund Bauman , ou da hipermodernidade descrita por Gilles Lipovetsky em A era do vazio, no qual ele demonstra que vivemos numa “sociedade humorística” em que um código e um estilo humorístico dominam desde a publicidade até a política, da moda às produções acadêmicas, da arte aos meios de comunicação em massa, em que também as relações interpessoais são caracterizadas por um clima irreverente, nada deve ser pesado ou sério ou sólido, cuja orientação é que a vida deve ser vivida de modo cool [legal] ou light [leve] ou fun [divertido], descontraidamente, sem conflitos, sem litígios, em nome de uma do bem estar definido por uma cultura, na qual os alvos almejados são a adaptação e o sucesso pessoal. Paradoxalmente, vivemos numa cultura marcada pela depressão, um dos efeitos da descrença e da falência dos ideais universais modernos que tinham possibilitado, até meados do século XX, o engajamento dos sujeitos em projetos para o bem comum. Uma sociedade contemporânea que parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

FOBIAS

FOBIAS

Fobia é um transtorno de ansiedade caracterizado por um medo enorme, irracional de uma situação ou de um objeto que na realidade não oferece perigo.
 O medo é um sentimento universal de uma pessoa diante de um perigo ou de uma situação desconhecida. Todos nós  temos medo e este medo serve para nos preservar, para nos defender. Nos pacientes fóbicos este medo é tão exagerado para situações que não amedrontam a maioria das pessoas e desencadeiam uma série de sintomas quando a pessoa é exposta à situação que provoca a fobia.
Sintomas de uma crise de ansiedade:
coração disparado, formigamento, falta de ar, sensação que vai desmaiar, que vai ficar louco, inquietação, sensação de quente e frio, sudorese, palidez ou rubor, náusea, vômitos, tremores nas mãos.
O homem, ao criar a civilização, sempre tentou dominar a natureza, para sua própria defesa, criar leis para regular as relações entre os homens, criou a ciência, a medicina para evitar as doenças, a morte. Os medos básicos do homem aparecem quando ele é confrontado com a sua fragilidade e impotência frente  às forças indomáveis da natureza, a doença, o envelhecimento e a morte, a relação com os outros homens.

AGORAFOBIA

Medo de estar sozinho em espaços abertos, em meio à multidão, em  lugares públicos onde uma saída rápida seria difícil para um lugar seguro em caso de ocorrer uma crise  de ansiedade. Por exemplo, supermercados, viagens em  transporte público como ônibus, trens, aviões, viajar sozinho, filas de banco, medo de sair de casa desacompanhado. A pessoa pode ir reduzindo a sua atuação social até ficar confinado em casa. Muitos são aterrorizados com o pensamento de que podem ter um ataque e serem deixados sem socorro em lugares  públicos. Depois as pessoas começam a evitar estes lugares com medo de terem o ataque de ansiedade. Ë o medo do medo.Sentem-se seguros apenas se acompanhados de uma pessoa de confiança, um familiar.
É a fobia mais incapacitante porque afeta o indivíduo na sua capacidade de funcionar em situações sociais e profissionais fora de casa e também afetivas, conjugais. Pode vir associado ou não d o transtorno de pânico.
Acomete mais as mulheres no início da idade adulta

FOBIA SOCIAL

Medo de expor-se a situações em que a pessoa sinta-se em evidência, medo de expor-se a um pequeno grupo de pessoas   apresentar um trabalho na escola para seus colegas, medo de falar em público, de assinar cheques, de escrever em público, de comer em público, medo de relacionar-se com o sexo oposto, o que leva a pessoa a evitar situações sociais. É o medo da crítica, o medo do olhar do outro.
Atinge igualmente homens e mulheres e iniciam-se na adolescência. Trazem profundo sofrimento aos seus portadores e podem também levar ao confinamento ao lar.

 FOBIAS ESPECÍFICAS ( ISOLADAS)

São fobias restritas à situações muito específicas tais como  medo de pequenos animais, ou de um determinado animal, medo de altura, medo de espaços fechados, por exemplo, elevadores, medo de doenças específicas, como AIDS, etc. O contato com a situação temida pode desencadear a crise de ansiedade. As pessoas começam a evitar estas situações e se exposição a elas,
O tratamento se faz com psicoterapia e medicamentos, quando os sintomas causam muito sofrimento e restringem a vida social, de trabalho e afetiva do indivíduo.

CAUSAS

A fobia é um medo específico, colocado na realidade externa do indivíduo que pode representar um deslocamento de algum medo desconhecido, dentro de si mesmo, projetado para fora. Depende da singularidade de cada um, de sua história, de suas vivências emocionais, de sua estrutura psíquica.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

TRANSTORNO DISMÓRFICO CORPORAL : ENTREVISTA


Transtorno Dismórfico Corporal


1-      Hoje em dia temos vários distúrbios psicológicos ligados ao corpo. Um deles é a dismorfia corporal. Como a pessoa desenvolve este distúrbio?

Primeiramente gostaria de explicar o que é a dismorfia. A dismorfia  corporal, também chamada transtorno dismórfico corporal, é um transtorno mental no qual a pessoa se sente extremamente preocupada com a sua aparência física e se atribui defeitos físicos que não existem realmente, mas apenas na sua imaginação, o que lhe causa sofrimento intenso.Pode existir um pequeno defeito físico, por exemplo, um nariz grande, espinhas na pele, mas a preocupação e o sofrimento causados são desproporcionais e a pessoa se sente feia, acha que todos estão reparando e comentando sobre o seu possível defeito. Esta situação provoca prejuízos ao seu desempenho social e ocupacional

 O transtorno desenvolve-se em pessoas que tem uma predisposição biológica, uma predisposição  emocional adquirida no seu desenvolvimento psicológico desde os primeiros anos de vida, na formação da sua estrutura psíquica e de seu Eu. As características  culturais da sociedade atual com a valorização de um corpo perfeito e a tirania da beleza também são importante para o desenvolvimento deste transtorno.

2-      A pessoa que sofre de dismorfia vive uma busca constante pela beleza. Ela acredita , em algum momento, que alcançou a beleza esperada?

Estas pessoas são ligadas ao inverso da beleza, ou seja, à feiúra. Dismorfia é uma palavra grega que significa feiúra . Sentem-se feias e procuram corrigir seus defeitos imaginários com tratamentos dermatológicos e cirurgias plásticas, mas  nunca se satisfazem, porque o “defeito” não é no corpo, mas sim uma projeção no corpo de conflitos psíquicos inconscientes. Na estruturação psíquica do Eu existe uma fase que se chama fase do espelho, onde a criança se reconhece pelo olhar do Outro, no caso, a mãe. Alguma falhas neste processo criam feridas no narcisismo individual que continuam provocando dor. Onde algo não foi simbolizado, fica um vazio que se projeta  no corpo como um defeito físico imaginário.

3-      Por se sentir sempre feio e com defeitos, o dismórfico pode reduzir a sua identidade social? Qual prejuízo de uma atitude como esta?

Sim. O indivíduo portador deste transtorno começa a ficar isolado, sentindo-se mal, triste, tímido, o que prejudica a formação de laços sociais e afetivos e como este transtorno aparece na adolescência, causa prejuízos intensos na formação da sua identidade social.

4    A pessoa que tem dismorfia corporal costuma não acreditar quando alguém diz       que certo defeito não existe. Por que a pessoa cria esta realidade na cabeça e se apega tanto a ela?

Porque existe nestas pessoas uma deformação da imagem corporal, que é a representação psíquica que fazemos de nosso próprio corpo. Esta deformação é parcial, restringe-se a uma parte do corpo que geralmente é a face, mas pode ser localizada em qualquer parte do mesmo. Argumentações dos outros, embasadas  na realidade, não são ouvidas.

5-      Homens e mulheres são atingidos por este distúrbio na mesma proporção? Mas os sintomas são os mesmos nos dois?

Não existe diferença na prevalência deste transtorno entre homens e mulheres. Em relação à população geral , 1% dos indivíduos  são acometidos. As queixas mais comuns costumam ser na face, por exemplo, nariz comprido, rugas, manchas na pele, etc. Nas mulheres a maior preocupação costuma ser a pele e os cabelos(volume e comprimento). Nos homens o cabelo também é fonte de preocupação (calvície) e o tamanho dos genitais.

6      A dismorfia corporal pode ser uma porta de entrada para outros transtornos,   como a anorexia e a bulimia?

A  anorexia nervosa e a bulimia nervosa são transtornos alimentares que tem em comum com a dismorfia a alteração da imagem corporal. Se na dismorfia a alteração da imagem é parcial, na anorexia existe uma distorção da imagem do corpo na sua totalidade, a pessoa que sofre de anorexia se enxerga gorda, obesa, embora esteja magérrima. Existe também em comum uma falta de crítica  em relação aos sintomas e uma preocupação enorme com a aparência estética. E, claro que a preocupação de um portador de dismorfia pode se transformar numa preocupação excessiva com o peso corporal e o desenvolvimento de anorexia e bulimia nervosas. 

7 A dismorfia sempre afeta as pessoas na mesma intensidade ou ela tem graus   diferentes?

Existem desde quadros  leves até intensos e graves.


8 Existem  casos de pessoas que se deformaram em busca da beleza, e com isso desenvolveram depressão, angústia. O que mais a dismorfia traz à pessoa?

Além de depressão, angústia e ansiedade, o transtorno dismórfico corporal pode levar a um extremo isolamento social, os indivíduos podem abandonar a escola, evitar entrevistas em empregos, trabalhar em ocupações abaixo de suas capacidades, ou não trabalhar. Costumam ter poucos amigos, evitar encontros afetivos e outras interações sociais como festas, ter dificuldades conjugais em decorrência de seus sintomas. Nos casos mais graves, o sofrimento e as dificuldades sociais podem provocar ideações suicidas e tentativas de suicídio ( em comorbidade com depressão).
O Transtorno dismórfico corporal pode estar associado ao Transtorno depressivo maior e ao transtorno obsessivo compulsivo. Observa-se uma incidência maior nas famílias que tem portadores de TOC.

9 Muitas pessoas vêem nas celebridades o tipo físico perfeito e tentam a todo custo copiá-las. Como esta exaltação à beleza contribui para que as pessoas desenvolvam a doença?

Estes são os aspectos culturais do nosso tempo, com a valorização excessiva da imagem, da beleza, da juventude, da estética, do individualismo, em detrimento de valores éticos. E muitas vezes a imagem  estética é associada a sucesso, à felicidade, à inteligência, o que faz com que se procure um ideal inatingível de beleza, veiculados pela celebridades, mas impossível para a grande maioria da população. Estes aspectos de nossa cultura global criam um solo propício para o desenvolvimento da dismorfia.
 
  10       Os cirurgiões plásticos são os médicos mais procurados pelas pessoas que tem dismorfia corporal. Como pode ele distinguir um paciente dismórfico de outro normal?

Bem, todas as pessoas que procuram por uma cirurgia plástica estética  estão preocupadas com a aparência. do próprio corpo, ou seja , cuidados com a saúde e com a imagem física  fazem parte do cotidiano das pessoas que procuram os cirurgiões plásticos.  Para identificar um portador de transtorno dismórfico corporal, o cirurgião plástico deverá efetuar uma avaliação clínica minuciosa tendo em vista esta questão. Os indivíduos portadores do transtorno fazem queixas subjetivas que estéticamente são infundadas e muitas vezes já passaram por mais de uma cirurgia e mantêm-se sempre insatisfeitos. Caso o cirurgião os opere, isto trará ao paciente uma nova demanda de insatisfação consigo mesmo e com a cirurgia, acarretando agravamento do quadro.

   11 A dismorfia pode surgir em todas as fases da vida?

O transtorno dismórfico corporal aparece no início da adolescência e na adolescência tardia( até os 20 anos). A evolução é flutuante, às vezes melhora e às vezes acentua-se e tende a ter uma evolução crônica, se não tratado.
12 A família dos pacientes pode confundir o distúrbio com vaidade? Como os familiares podem perceber que não é frescura?

A princípio pode parecer apenas vaidade para os familiares. Mas a diferença logo se fará notar porque quem é portador do transtorno dismórfico estas idéias são supervalorizadas chegando a tornarem-se obsessivas. Trazem um sofrimento intenso e uma alteração no comp[ortamento social do indivíduo.
13  Existe tratamento para este distúrbio? Como é?

Sim. O tratamento é psicoterápico e medicamentoso, de acordo com cada caso.

14  E como a pessoa pode conviver com este distúrbio sem perder a qualidade de vida?

Desde que reconheça a necessidade de tratamento especializado psiquiátrico e psicoterápico. Pois estes pacientes não têm crítica de seus sintomas. A partir momento do reconhecimento da necessidade de procurar tratamento  e do início do mesmo, tudo pode melhorar na vida destas pessoas.

 Marilia Brandão Lemos

 

 

 

TRANSTORNOS ALIMENTARES : ENTREVISTA


TRANSTORNOS ALIMENTARES  

1 - O que são os transtornos alimentares? Bulimia, anorexia, compulsão alimentares estão entre os mais comuns? São problemas contemporâneos ou sempre existiram e só não eram diagnosticados?

Transtornos alimentares são alterações do comportamento alimentar, da relação do indivíduo com   sua forma de comer e beber, intermediada pelas emoções, alterações estas que  provocam prejuízo à saúde do mesmo e consequências na sua vida social e afetiva.
A anorexia e a bulimia nervosa são as síndromes clássicas dos transtornos alimentares. O transtorno da compulsão alimentar periódica é uma classificação mais recente.
Anorexia nervosa caracteriza-se pela perda de peso induzida e mantida pelo paciente, associada a uma distorção da imagem corporal e um medo doentio de engordar, uma recusa patológica de se alimentar, podendo chegar a graus graves de inanição. As pacientes sentem-se gordas apesar de todas  as evidências em contrário.
A bulimia nervosa consiste de repetidos episódios de ingestão de grandes quantidades de alimentos em um curto intervalo de tempo, associado a um sentimento de perda de controle. Preocupações excessivas com o ganho de peso levam o paciente a adotar medidas extremas para evitar engordar tais como a autoindução de vômitos, uso de laxantes, de medicamentos para diminuir o apetite, de preparados tireoidianos, de diuréticos, de jejuns prolongados, de exercícios físicos exagerados, etc.
O transtorno da compulsão alimentar periódica inclui pessoas, muitas vezes obesas, que apresentam episódios recorrentes de compulsão alimentar (binge eating) : o excesso alimentar e a perda de controle. Os indivíduos relatam  angústia  , culpa e tristeza após os episódios de comilança excessiva. Não está associado aos comportamentos de purgação (vômitos induzidos, jejuns acentuados, automedicação).
Os transtornos alimentares sempre existiram. No final do século XIX começaram a surgir descrições de anorexia nervosa na literatura médica. Em 1873 o psiquiatra inglês William Gull e o psiquiatra francês Ernest-Charles Lasègue descreveram, independentemente, quadros clínicos de anorexia nervosa. O historiador Bell (1985) descreve em seu livro Holy anorexia a vida de 260 santas e beatas da Idade Média e suas práticas de jejum religioso a partir do século XIII. Para Bell, a chamada por ele de “anorexia sagrada” é semelhante à “anorexia moderna”, pois entende que em ambas há um conflito de identidade, uma tentativa de libertação feminina de uma sociedade patriarcal.
Na tragédia grega Antígona, de Sófocles, escrita na Antiguidade, já aparece uma descrição da personagem que se recusa a se alimentar para preservar o seu desejo.
Acreditamos que a cultura da modernidade favorece o desencadeamento dos transtornos alimentares, serve como solo propiciador para o desencadeamento dos fatores biológicos, psíquicos e familiares, das predisposições singulares de cada um.

2 - Os transtornos alimentares estão ligados à forma como as pessoas processam as emoções. Por que isso ocorre?

Cada pessoa adoece de acordo com suas predisposições individuais, de suas predisposições genéticas expostas ao meio social e cultural em que vive,  de seu desenvolvimento emocional, desde os primeiros anos de vida,  de suas relações com o outro, da sua disposição familiar, afetiva, de situações desencadeantes do momento em que vive. Algumas desenvolvem os transtornos alimentares. Estes afetam mais adolescentes e adultos jovens, e mais mulheres que homens. A forma do adoecer psíquico é singular e depende da história de cada um, desde os primeiros anos de vida, de seus traumas, da sua vulnerabilidade.
Os fatores socioculturais tem sido muito pesquisados no desenvolvimento dos transtornos alimentares, desde as mudanças no modelo idealizado de beleza, passando pelo  papel da globalização, até as transformações do lugar social e político ocupado pela mulheres e os seus desdobramentos na formação da identidade feminina.  Mudanças nos padrões de beleza, o ideal da magreza, a depreciação da gordura,  a excessiva valorização estética do corpo  associada a valores éticos tais como:_ Ser magro é igual a ter autocontrole, competência profissional, ser eróticamente atraente. Uma pressão social em relação à magreza exposta pela mídia, além de mudanças socioeconômicas da sociedade ocidental e mudança de valores podem criar um ambiente psicológico propício para o desencadear destes transtornos. Mas apenas os indivíduos susceptíveis desenvolverão o transtorno.
Os fatores familiares são enfatizados no desencadeamento dos transtornos alimentares. Famílias com dificuldades de resolver conflitos, de reconhecer e propiciar a separação e individuação de seus membros ou que desenvolvem um relacionamento muito crítico e exigente em relação ao corpo podem também propiciar um solo favorável ao desencadeamento dos transtornos alimentares.

 3 - Do ponto de vista neurológico, qual a relação podemos estabelecer entre as emoções e o apetite ou a falta dele?

O ato de alimentar-se se inicia pelo estímulo sensorial e cognitivo desencadeado pela aparência do alimento, seu cheiro e sabor e são reforçados pela sensação de prazer que a alimentação produz. A fome pode ser definida como a motivação para procurar e ingerir alimentos, começando um período de comportamento alimentar. O que põe fim à sensação de fome é a saciedade. Os sinais de fome antes do consumo de alimentos provocados pelo cheiro e sabor servem para estimular e dar continuidade ao processo de ingestão. Neurotransmissores são liberados no cérebro, em especial a dopamina, os opiáceos endógenos e os endocanabinoides,  que estão associados com o prazer de comer. A resposta inicial do organismo é a salivação e a produção de hormônios tais como insulina, glucagon  e outros que visam dar continuidade ao processo. A regulação do apetite também está relacionada a gatilhos fisiológicos e hormônios intestinais, tais como a grelina, o hormônio da fome, secretado antes de uma refeição, quando o estômago está vazio e suprimido pela ingestão de alimentos, que atuam em  neurônios do hipotálamo estimulando o apetite. A leptina é produzida pelas células de gordura  ativa regiões hipotalâmicas responsáveis pela saciedade.           Estes são apenas alguns exemplos da diversidade química e fisiológica da “cascata da saciedade” descrita por Blundell referente à ação de preparar-se para consumir e o consumo real de alimentos e sua cascata de sinais.
Do ponto de vista psicobiológico, inúmeros locais do cérebro influenciam o comportamento alimentar, especialmente o tronco cerebral, o sistema límbico e o hipotálamo. A fome, a vontade de comer serve aos interesses do instinto de conservação, da preservação do indivíduo enquanto vida, da pulsão de vida, de  Eros e   o ato de alimentar-se é um ato prazeroso e um ato social, pois que a refeição sempre teve esta conotação de celebração, de congraçamento, vide almoços em família, banquetes de casamento, ceias de Natal e até a comunhão, na religião católica tem este simbolismo de alimento. A função orgânica da alimentação, no homem, se acha elevada a uma função erótica, passando do registro da necessidade para o registro do desejo. O comer e o beber se inserem como atividades eróticas que o corpo realiza. Não é apenas fome, é apetite. A dimensão simbólica dos alimentos é a parte mais rica e é ela que assegura o desejo, o prazer de alimentar, a degustação do prato predileto, o paladar compartilhado, a comunhão com a família e amigos no ato de comer.
As emoções interferem no apetite aguçando-o ou inibindo-o. A ansiedade, a depressão, do mesmo modo que em alguns indivíduos estimula-os a comer mais, noutros inibem-lhes o apetite e em outros desenvolvem os transtornos alimentares.

 4 - Por que, muitas vezes, resolvemos angústias e outros sentimentos negativos comendo chocolate ou sorvete?

O ato de comer um chocolate ou sorvete, alimentos doces, de textura agradável ao paladar e de alto teor energético nos alivia e acalma, estimulam a liberação de neurotransmissores cerebrais que desencadeiam uma sensação prazerosa e agem como um tranquilizante e sedativo de nossas dores momentâneas, antídoto para nossas angústias eventuais.  O chocolate é rico ainda em algumas substancias estimulantes do cérebro e que aumentam a sensação de  prazer.

( Entrevista  de Marília Brandão Lemos à jornalista Marcia Maria Cruz, do Caderno Bem Viver, do jornal Estado de Minas)