sexta-feira, 8 de maio de 2020

VAPT VUPT



VAPT  VUPT

MARíLIA BRANDÃO LEMOS


a luz do vagalume
pisca
vida
nenhuma luz de
vagalume
morre
a morte é escuridão

STYLOS

Poema de minha autoria
que ganhou IX Prêmio Literário Livraria  Asabeça 2010


S
T
Y
L
O
S


Estilo , de stylos
um estilete risca o corpo
                 da linguagem
               risco corporal
navalha na carne
escarifica a pele
desenha tatuagens de bichos
                      os olhos dos bichos
                      os olhos das coisas
garatujas de crianças
letras jorram linfa e fel.
Como Sade
escrever o próprio sangue e dejetos
fazer da escrita das ruínas
                          dos restos
                          dos resíduos.


terça-feira, 28 de abril de 2020

ELEIÇÕES


Marília Brandão Lemos

Se somos os nós desatados
Nós os ataremos
Se somos os Vós sem voz
não nos calaremos
os avos a mais das frações
os menos das facções
as avós da Plaza de Mayo
não desistiremos
Se somos Ele ou parte dele
nos incluiremos
Se somos os deserdados da morte
seremos os premiados da sorte
Se não somos Tu
a ti recorreremos
Se não somos Você
te cobraremos
Se não somos Eu
venceremos

quarta-feira, 15 de abril de 2020

RETOMANDO O BLOG

                         Depois de seis anos sem postar, resolvi retomar o Blog.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O POETA E O FANTASIAR


 Marilia Brandão Lemos Morais (texto  publicado no livro Psicanálise e Contemporaneidade e na Revista Reverso)
 

            Convidada para comentar o artigo de Freud O Poeta e o fantasiar, escrito em 1907, publicado no volume IX da Edição Standard Brasileira, com a tradução de Escritores criativos e devaneio, gostaria de relembrar ser Freud um fino leitor da cultura de seu tempo, a Áustria de cem anos atrás. São vários os escritores que aparecem frequentemente em suas obras: autores já consagrados por volta de 1870 tais como Aristófanes, Boccacio, Cervantes, Diderot, Goethe, Hebbel, Heine, Hesíodo, Hoffmann, Homero, Horácio, Tasso, Milton, Molière, Rabelais, Schiller, Shakespeare, Sófocles, Swift. Quanto aos autores contemporâneos: Dostoievsky, Flaubert, Anatole France, Ibsen, Kipling, Thomas Mann, Nietzche, Schopenhauer, Bernard Shaw, Mark Twain, Oscar Wilde, Zola e Stefan Zweig. Freud acreditava convictamente que os textos considerados imortais podem servir de guias e maravilhado, embevecido nestas fontes, admirava a arte de adivinhar destes escritores, como citado em “Um estudo autobiográfico”: “E revelou-se – o que, aliás, os romancistas e os conhecedores do coração humano sabiam há muito tempo – que as impressões de todo este primeiro período da vida deixavam traços indeléveis”...

Em O Poeta e o fantasiar, Freud inicia falando da sua intensa curiosidade em saber de que fontes o escritor retira sua inspiração, o material para sua escritura e de como consegue impressionar-nos e despertar-nos emoções que talvez nem nos sentíssemos capazes. E começa a especular sobre estas fontes. 

“Será que deveríamos procurar na infância os traços iniciais da atividade imaginativa?” – pergunta ele, comparando a atividade do poeta com o brincar e o jogar, ocupações favoritas da criança que ela leva muito a sério e nas quais despende muita emoção, levando-a a criar um mundo próprio e a modificar o seu da forma que mais lhe agradar. E distinguindo este mundo de brinquedo do mundo da realidade. Somente estes apoios fornecidos por brinquedos palpáveis é que diferenciam o jogo da criança do devaneio, ou sonhar acordado, ou fantasiar do adulto.

Diz Freud: 

Quem avança na idade deixa de brincar, renuncia aparentemente ao prazer que sentia no jogo (infantil). Mas não existe coisa mais difícil para o homem do que renunciar a um prazer já experimentado A bem dizer, não sabemos renunciar a nada, só sabemos trocar uma coisa pela outra; onde parece que há renúncia, de fato há apenas formação substitutiva... Em vez de jogar ele se compraz daí por diante em imaginar, fantasiar. Constrói castelos na Espanha, entrega-se ao que chamamos devaneios....daí a hipótese segundo a qual a obra literária, assim como o sonho diurno, seria uma continuação e um substituto do jogo  infantil de outrora”.

A fantasia evocada através do devaneio tem origem e significações eróticas, pois os sonhos, obras de ficção, jogos e fantasias constituem a realização disfarçada de um desejo recalcado e todo desejo inconsciente “tende a realizar-se restabelecendo, de acordo com as leis do processo primário, os signos ligados às primeiras experiências de satisfação”, o que nos remete às relações erotizadas do bebê com a mãe através do seu corpo. Jogar é re-jogar jogos esquecidos e proibidos, é repetir e disfarçar prazeres perdidos. E por ser em parte um jogo, a literatura nos proporciona intenso prazer.

O texto é forma mas também é carne. Ouçamos Rilke em Cartas a um jovem poeta: “A criação intelectual, com efeito, provém da criação carnal. É da mesma essência; é apenas uma repetição mais silenciosa, enlevada e eterna da volúpia do corpo”.

Aproprio-me das palavras de Clarice Lispector: “Mas estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto terno e nevrálgico da palavra. Meu corpo incógnito te diz: dinossauros, ictossauros e pleiossauros, com sentido apenas auditivo, sem que por isso se tornem palha seca, e sim úmida... Ouve-me então com teu corpo inteiro.”

Digo agora palavras de Barthes: “O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias – pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.” Para ele, o texto tem uma forma humana, é uma figura, um anagrama do corpo, mas de nosso corpo erótico, pulsional. O prazer do texto seria irredutível ao seu funcionamento gramatical assim como o prazer do corpo é irredutível à necessidade fisiológica. O objeto de prazer do escritor não é a linguagem, mas sim a língua, a língua materna. O escritor é alguém que brinca com o corpo da mãe, para o embelezar, o glorificar ou o despedaçar, levar ao limite daquilo que do corpo pode ser reconhecido.  

Nesta escuta de corpos, a voz que se insinua num sentido apenas auditivo, numa carícia sussurrante de mãe, essa voz se faz letra, se faz traço, se inscreve no corpo pulsional, a partir deste gesto materno inaugural do desejo. Talvez aí esteja o poder de fascinação da infância e que faz com que as lembranças da primeira idade permaneçam com um quê de fascínio e encantamento.
            É preciso se perder para escrever, mergulhar no inexprimível, destituir-se do saber aprendido, despojar-se e entregar-se a uma intimidade corporal com o texto, para num outro momento distanciar-se dele. Marguerite Duras revela, em seu livro Escrever: “A partir do momento em que se está perdido e que não se tem mais o que escrever, é aí que se escreve... Isso torna a escrita selvagem. Vai-se ao encontro de uma selvageria anterior à vida”. É a partir do nada, do silêncio de uma irrupção do impossível, que o poema se constrói, o texto diz o que não sabe, num jorro de palavras desconexas explodindo em sua corporeidade significante, implodindo sentidos, a palavra -coisa, palavra imagem, palavra ícone que se faz verbo.

Fazer arte é dar forma ao impossível de ser dito. Onde não existem palavras, o poema eclode do silêncio e da solidão essencial, apontando para o branco da folha que se exibe em sua nudez, em sua mudez, convidando a escrever. Escrever se faz uma necessidade. Capturar no texto, no espaço formal da palavra, o inapreensível que mobiliza a escritura, como um escriba que risca no papel a sua pena, letra por letra, como o poeta que sulca com a palavra a casca da arvore, a solidão das coisas, a pedra da gruta, o traço no barro, a argila que contorna o oco do vaso, o estilete que fere e imprime nas coisas mesmas o estilo.
       Lacan confere à literatura a tarefa de acomodação dos restos, por mais que os signos busquem a plenitude da vida, eles apenas a capturam nos restos, no objeto de amor perdido para sempre. Recorro novamente a Rilke: “As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou”  (p.25) .
        Se a literatura é um jogo, é um jogo elaborado, sério, laborioso e complexo, onde o escritor usa de sua inteligência, sua cultura e seu talento para criar o seu texto. Mas ao mesmo tempo em que consegue grande domínio sobre as palavras, mantém contato com a passividade em que a palavra, não sendo mais que aparência e sombra da palavra, mantém-se inapreensível em seu fascínio. Escrever é entregar-se ao interminável, e o escritor, pela sua mediação silenciosa, capta o murmúrio gigante em que a linguagem, ao abri-se, torna-se imagem, torna-se plenitude vazia. E através deste silêncio que se origina no apagamento ao qual o autor é convidado, ele mesmo é capturado e torna-se instrumento de uma fala que é e não é mais sua.   
           Para ser reconhecido, o escritor precisa de um coeficiente de marginalidade proporcional àquele que a maioria dos leitores concede à sua própria infância, tempo em que construía sua realidade com desejos, tempo dos tapetes voadores e varinhas de condão, dos super-heróis, em suma, o tempo da magia, da onipotência dos pensamentos e do encantamento. Em sintonia com o princípio da realidade, o adulto civilizado conhece dois locais onde a liberdade do nonsense ainda sopra: o humor e a arte.

E falando em encantamento, lembrei-me de um poema de Manoel de Barros:

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um

    sabiá

    mas não pode medir os seus encantos

    A ciência não pode calcular quantos cavalos de força

    existem

    nos encantos de um sabiá.

    Quem acumula muita informação perde o condão de

    adivinhar: divinare.

    Os sabiás divinam. 

Retomando O Poeta e o fantasiar, recito Freud:

“A relação entre a fantasia e o tempo... é como se ela flutuasse em três

tempos... O trabalho psíquico vincula-se a uma impressão atual, a alguma ocasião motivadora no presente que foi capaz de despertar um desejo. Dali retrocede a lembrança de uma experiência anterior, geralmente da infância, na qual este desejo foi realizado criando uma situação referente ao futuro que apresenta a realização do desejo... Dessa forma, o passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une... (ou)... Uma poderosa experiência no presente desperta no poeta uma lembrança de uma experiência anterior, da qual se origina um desejo que encontra realização na obra criativa”.

O tempo só pode ser resgatado, só pode ser apreendido nos seus traços de memória. Resgatar estes traços num instante fugidio de um presente que sempre se esvai a caminho do futuro. Ali, onde o passado se quer presente e o presente é sempre passado, onde o futuro se determina como algo que será lembrado, ali, neste absurdo lugar de um tempo sempre presente e que se esvai, de instantes infinitesimais que se sucedem, somos. Mynemósine, a deusa da poesia e da memória, entrega Eros aos braços de Thanatos. Ela é aquela que canta tudo o que foi, é, e será, aquilo que se constrói em direção ao futuro, esta íntima relação entre memória e futuro, que permite aos poetas a capacidade da vidência.. Ali, no absurdo lugar de um tempo sem tempo do desejo inconsciente, tempo que se esvai e desemboca nesta “perda de tempo” onde, na escrita, o presente sempre escapa e só ressurge como passado representado. Esta tentativa impossível de captura do tempo na narrativa observamos em Água Viva, de Clarice Lispector:

“Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem seu instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa”.

Retomo o texto de Freud: 

“Mas quando é um poeta... que nos conta o que julgamos ser os seus próprios devaneios, sentimos um grande prazer provavelmente originário da confluência de muitas fontes... Como ele chega a este resultado? A verdadeira ars poetica... atenua o que o sonho diurno tem de egocêntrico, transformando-o e dissimulando-o, e nos seduz por um benefício de prazer puramente formal, estético... com o qual nos gratifica pela maneira como apresenta suas fantasias... chamamos prêmio de estímulo ou prazer preliminar, semelhante benefício de prazer que nos é oferecido a fim de permitir a liberação de um prazer superior que emana de camadas psíquicas muito mais profundas...Todo prazer estético que o poeta nos proporciona é da mesma natureza desse prazer preliminar e o verdadeiro prazer diante da obra literária resulta de nossa psique. Através dela, acha-se aliviada de certas tensões. Talvez o próprio fato de que o poeta nos permita fruir, daqui por diante de nossas próprias fantasias,sem escrúpulos nem vergonha, contribua em grande parte para este resultado”.

             É como se adivinhando no outro o reconhecimento de uma fantasia vergonhosa, nos autorizasse a fruir dela por nossa própria conta, sem remorso. Apresentada mais bela aqui, este é o papel da forma, da bela forma, do estético, com a qual estabelecemos uma conivência secreta entre o olhar e o quadro, com as cores e os objetos, num jogo de sombra e de luz. Quanto ao texto, são os ritmos, a respiração, o fôlego, o uso inabitual de um vocábulo, a surpresa, a imagem imprevista, a retomada de sons, um símbolo, a palavra- coisa, a palavra icônica. O essencial é que a corrente passe: o afeto, sermos afetados.

Para Antonin Artaud, o poema só terá existência se passar para o registro da voz, ditando um ritmo e inflexões. Trabalhar a escuta, escrever falando, colocar o poema em ato, brincar com os sons, perturbar a orelha.  Ao lado do sentido ordinário das palavras, é preciso despertar o seu sentido encantatório, fazer agir o seu charme, fugindo do lugar comum.

Em relação ao prazer do texto, o fato de o escritor escrever com prazer uma história, ou uma frase, não assegura o prazer do leitor. É necessário que o autor procure o leitor sem saber onde ele está, criando-se um espaço de fruição: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do gozo, que os dados não estejam lançados, que haja um jogo. Não há ribalta na cena do texto: autor e leitor se encontram nesta fenda da fruição. Como escreveu Ângelus Silésius: “O olho por onde eu vejo Deus é o mesmo olho por onde ele me vê[1]. 

A obra de arte tem como efeito provocar a suspensão do sentido habitual dos objetos e fenômenos, a uma singularização das diferenças onde o sempre-visto é transformado em olhado pela primeira vez, gerando um efeito de estranhamento, aquilo que Freud chamou de Unheimliche, um estranhamento familiar, ou estranheza inquietante que mostra que nada parece mais estranho em nós do que aquilo que nos é mais íntimo. Todo anjo é terrível, diz Rilke em Elegias do Duíno. Este desconserto ante o Belo que encobre o Horrível é o umbral angustiante de uma conjunção Eros-Thanatos, remetendo o sujeito a uma ambivalência pulsional originária, ao desamparo, a algo da ordem de uma indizível angústia, ao ponto em que o Belo, segundo Lacan, nos indica a relação da morte com sua resplandecência. O Belo, que sustenta o imaginário e ao mesmo tempo o faz falhar. O Belo enquanto efeito produtor de olhares- surpresa, operadores da possibilidade do sujeito vir a criar. O Belo enquanto esplendor da colisão Eros-Thanatos, como um brilho que reflete a evidência de uma fronteira estranha: a morte invadindo a vida e a vida invadindo a morte.

Ouçamos algo do prefácio escrito por Nei Duclós em Cartas a um jovem poeta: “A criação literária para Rilke é uma experiência assustadora: algo terrível permanece sempre oculto e o escritor precisa saber que há um núcleo impermeável às palavras. Transformado, pela vocação, em aprendiz de feiticeiro, o autor submete-se à escassez da revelação – como o relâmpago cruzando o céu de um anjo. Este pequeno vislumbre – o Belo, a arte verdadeira – só pode ser percebido na coragem da solidão..

    Penetrar nesse território sagrado é buscar o humano desprovido de disfarces. Rilke escreve o roteiro desta dolorosa passagem em direção à essência. O ato de arrancar a fantasia cotidiana grudada à carne não significa apenas recolher-se à solidão seminal da criação. Mas, especialmente, desistir da moeda mais cobiçada, o reconhecimento, cruzar o pior dos umbrais – a indiferença – e encontrar o mais amedrontador dos mundos, povoado pela necessidade absoluta”.

Tendo sido colocadas estas considerações sobre O Poeta e o fantasiar, partimos para pesquisar outras respostas à pergunta inicial de Freud: “De que fontes, este estranho ser, o poeta, retira o seu material e como consegue impressionar-nos e despertar-nos emoções das quais sequer nos julgávamos capazes?”

Perguntemos a Rilke em suas reflexões ao jovem aprendiz de literatura, senhor Kappus:

“Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o leva a escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: Sou forçado a escrever? Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar aquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa sua vida de acordo com essa necessidade”.

“Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade”.


“Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre a sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações?”.

“Tudo está em levar a termo e, depois, dar à luz. Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento, e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto, de uma nova claridade: só isso é viver artisticamente na compreensão e na criação”.

“Aí o tempo não serve de medida: um ano nada vale, dez anos não são nada. Ser artista não significa calcular e contar, mas amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranquila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. O verão há de vir”.

Perguntemos agora Drummond em sua Procura da poesia:


Não faça versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro

são indiferentes.

Não me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.//

Não cantes tua cidade, deixe-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.

Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.//

O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.//

Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família

Desapareceram na curva do tempo, é algo imprestável.//

Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.//

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intacta.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espere que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada

no espaço.//

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma


tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,                                                          

pobre ou terrível que lhe deres:

Trouxeste a chave?//

Repara:

ermas de melodia e conceito

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

 

  Termino agora, a ti perguntando: “– Trouxeste a chave?”




[1] Citado por Roland Barthes em O prazer do texto, 2002.


BIBLIOGRAFIA


 Andrade, Carlos Drummond. Procura da poesia. In  A rosa do povo. Reunião (10 livros de poesia). Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1973. Barros, Manoel. Livro sobre nada.2a  ed. Rio de janeiro: Record, 1996.
Barthes, Roland. O prazer do texto.3a  ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002.

Bellemin-Noël, Jean. Psicanálise e literatura. São Paulo: Editora Cultrix Ltda.1978.

Blanchot, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

Brandão, R. Silviano. Literatura e Psicanálise. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFGS. 1996.
Castello Branco, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.

Duras, Marguerite. Escrever. Rio de Janeiro: Rocco, 1994

França, Maria Inês. Psicanálise, estética e ética do desejo. São Paulo: Perspectiva, 1977
Freud, S. O Estranho. Edição Standard Brasileira.  Rio de Janeiro : Imago, v. XVII.

Freud, S. Escritores criativos e seus devaneios. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, v.IX.

Lacan,J. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro : Jorge Zahar.1988.
Lispector, Clarice. Água  viva. 2a. ed.. Rio de Janeiro: Artenova.1973.

Morais , Marilia Brandão Lemos .Psicanálise, arte e literatura.in Reverso n.o 46, publicação do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. Belo Horizonte, Setembro,1999.
 Rey, Jean Michel. O nascimento da poesia :  Antonin Artaud. Belo Horizonte: Autêntica Editora. 2002.

Rilke, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta.São Paulo: Globo, 2001.
Rilke, Rainer Maria. Elegias do Duíno.Rio de Janeiro: Globo.

 

 

 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

ESTRESSE: ENTREVISTA

Alto nível de ansiedade pode ser sinal de estresse patológico

A todo instante estamos tentando nos adaptar às exigências do dia a dia, sejam pressões provenientes do meio ambiente, do nosso mundo interno ou psíquico (nossos sonhos, desejos, nossas frustrações e decepções).

Escrito por Manuela Marques em Saúde e Vida - 04/10/2013

Marília Brandão afirma que é preciso observar com atenção o aumento de irritabilidade e a fadiga excessiva
(Foto: Arquivo Pessoal)
São essas diversas exigências que desencadeiam as situações geradoras de estresse. De acordo com a especialista e membro da Associação Mineira de Psiquiatria, Marília Brandão de Morais, o estresse se define nas reações que o organismo tem frente a situações adversas, um mecanismo natural que prepara nosso corpo e nossa mente para enfrentarmos condições de perigo e nos ajuda a sobreviver. “A reação de estresse é normal, fisiológica e esperada”, afirma a psiquiatra.
O problema começa quando os estímulos estressores se tornam constantes e a capacidade do indivíduo de reagir aos mesmos diminui, surgindo assim os primeiros sinais e sintomas do estresse patológico. A médica explica que a ansiedade é a mola propulsora desse mal, este é um sinal de alerta que nos mobiliza e nos faz menos acomodados e mais ativos. “Quando o nível de ansiedade aumenta muito nos paralisa. Esse descontrole serve como um primeiro parâmetro para indicar se os fatores estressores podem estar caminhando para o desencadeamento de um estado de estresse patológico. Também é preciso observar com atenção o aumento de irritabilidade e a fadiga excessiva”.
A especialista relata que a partir do momento que os estímulos estressores passam a ser constantes e crônicos podem afetar o equilíbrio do indivíduo, seja ele imunológico, endócrino ou mental. “Na realidade, uma reação de estresse patológico pode desencadear, dependendo da vulnerabilidade do indivíduo, diversos transtornos de ansiedade, tais como: pânico, fobias sociais e depressão. Além de doenças cardiovasculares, diminuição da imunidade com predisposição aos estados infecciosos, afecções de pele e doenças do aparelho digestivo”, alerta Marília.
Os sintomas mais comuns do estresse patológico podem ser divididos em três grupos. Os sintomas de ansiedade, como: irritabilidade, impaciência, inquietação, dificuldade de concentração e esquecimento. Os do transtorno de somatização: vômitos, náuseas, dores generalizadas, musculares, lombares, articulares, cefaléias, diarréia, flatulência, alteração do apetite e diminuição da libido. E também os de depressão: desânimo, desinteresse, apatia, fadiga fácil, dores sem causa física, sonolência excessiva ou insônia, baixo desempenho, perda de prazer com atividades que antes lhe eram prazerosas e isolamento social.
Os dados epidemiológicos mostram que as mulheres são duas vezes mais propensas ao estresse do que os homens. “As características biológicas como um ciclo hormonal, a gravidez e os cuidados com a família, a torna mais susceptível. Além das características culturais que as levam a desempenhar uma dupla jornada de trabalho”.
Segundo a psiquiatra, o diagnóstico do estresse patológico é clínico e deve envolver uma investigação minuciosa, para que se excluam outras doenças que poderiam estar causando tais sintomas. “O estresse é uma condição que afeta o indivíduo como um todo e os aspectos emocionais são geralmente os primeiros sintomas a se apresentarem”.
Quanto mais precoce for o diagnóstico e o tratamento, mais chance de se reverter os efeitos patológicos do estresse. “Acreditar que estes sintomas podem ser transitórios, que melhoram com o tratamento e que servem como sinal de alerta para mudar o que não vai bem. Aderir ao tratamento e procurar uma psicoterapia são as formas de se curar o estresse patológico”, enfatiza.
Profissões mais estressantes
Viver é estressante. A ausência de estresse significa a morte. Pensando nesse contexto, todas as profissões possuem sua carga de estresse. Aquelas atividades que mais gostamos de desempenhar e melhor lidamos, provavelmente serão as que nos gerarão menos incômodos. “Aqueles profissionais que trabalham mais proximamente com o ser humano, tais como os da área da saúde, professores, policiais, bombeiros e os executivos, estão mais submetidos a pressões. Mas, uma dona de casa também vive pressionada, pois muitas vezes tem que lidar com um orçamento apertado, cuidar dos filhos, da casa, do marido e conviver com as enormes dificuldades do cotidiano na sociedade atual”, finaliza Marília.


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domingo, 6 de outubro de 2013

SOBRE O RISO E O BOM HUMOR


SOBRE O RISO E O BOM HUMOR

Com as unhas cravadas no mal-estar  Entrevista à Marcia Junges

Fazer humor é transgredir, é despir as ideologias de suas roupagens, e as teorias de sua pompa, frisa a psicanalista Marília Brandão Lemos Morais. Os humoristas são aqueles que enterram as unhas no “mal-estar” do qual padece a contemporaneidade, fazendo ressurgir a transgressão

“O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita”. A afirmação é da psicanalista Marília Brandão Lemos Morais em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Ela recupera o conceito de humor em Sigmund Freud, dizendo que este não é resignado, mas rebelde. Os humoristas são aqueles que “cravam as unhas no mal-estar”, apontam a “finitude humana, sua dor e sofrimento”. E complementa: “Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!”. Marília constata que nossa sociedade “parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor”.

Psiquiatra e psicanalista, Marília Brandão LemosMorais  é formada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. Filiada ao Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ao Círculo Brasileiro de Psicanálise e à International Federation of Psychoanalisis. Título de Especialista em Psiquiatria e Psicoterapia pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Médica Brasileira

 COM AS UNHAS CRAVADAS NO  MALESTAR

Fazer humor é transgredir, é despir as ideologias de suas roupagens, e as teorias de sua pompa, frisa a psicanalista Marília Brandão Lemos Morais . Os humoristas são aqueles que enterram as unhas no “mal-estar” do qual padece a contemporaneidade, fazendo ressurgir a transgressão

Por: Márcia Junges

“O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita”. A afirmação é da psicanalista Marília Lemos em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Ela recupera o conceito de humor em Sigmund Freud, dizendo que este não é resignado, mas rebelde. Os humoristas são aqueles que “cravam as unhas no mal-estar”, apontam a “finitude humana, sua dor e sofrimento”. E complementa: “Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!”. Marília constata que nossa sociedade “parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor”.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Psicanaliticamente, o que explica a necessidade e o prazer que sentimos de rir e fazer rir?
Marília Lemos – O riso é uma descarga de afeto que gera prazer e contagia. O mecanismo do riso é explicado como consequência da suspensão da inibição: um quantum de energia psíquica torna-se livre e encontra uma via de descarga motora na risada.O chiste e o humor convidam ao prazer e ao gozo em função do riso que provocam, contagiando o espaço social. Se o chiste está estruturado como uma formação do inconsciente, é por isto mesmo um trânsito para que alguma coisa da ordem do recalcado abra passagem e se mostre sem passar pelo desconforto da angústia e do padecimento de sintomas.
No capítulo V do livro Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), de Freud, são analisados os motivos dos chistes e o impulso que temos de passá-los para frente, através de um contágio entusiasmado, colocando-os como um processo social. Na estrutura dos chistes, são determinadas três pessoas: a primeira, quem conta a piada; a segunda, aquela de quem se fala e que não está presente e é o alvo das pressões sexuais e agressivas; e a terceira, que é para quem se conta a piada, a plateia ou a paróquia (termo retirado de Bergson que Freud colocou como todo chiste requer seu próprio público). A função desta terceira pessoa é fundamental: é aquela que ri da piada e a que a referenda, pois, sem seu riso, a piada não é piada, portanto, um efeito a posteriori, que só então faz o piadista rir. Esta terceira pessoa é importante para o piadista reexperimentar, através dela, o efeito surpresa da piada ouvida pela primeira vez, e para autorizar a transgressão da repressão social efetuada pelo piadista.
Os chistes provêm dos jogos de palavras e pensamentos usados pelas crianças e que produzem prazer. Com o passar dos anos são abandonados em função da faculdade crítica e da racionalidade. Entretanto, o sujeito não quer renunciar a um prazer que lhe é familiar. Daí o ulterior desenvolvimento destes jogos infantis até a sua transformação em chistes, impulsionados pelo desejo de burlar a crítica e reencontrar o antigo prazer. O propósito, a função dos chistes consiste em suspender as inibições internas e tornar acessíveis as fontes de prazer. Os chistes são tendenciosos, satisfazem a uma tendens, uma intenção. A sua forma engenhosa satisfaz a intenções agressivas e sexuais, a sua forma alusiva e indireta permite que pensamentos sejam expressos, burlando a crítica. O fato de negarem a censura e de liberarem a inibição que pesava sobre estas fantasias coloca à mostra o inconsciente e o prazer é derivado da economia de um dispêndio psíquico, aquele que mantinha a inibição. Entre os vários tipos de inibição, o texto freudiano se refere ao recalque, reconhecido por impedir que impulsos a ele sujeitos e seus derivativos tornem-se conscientes. E diz que os chistes são capazes de liberar prazer de fontes já submetidas ao recalque.

IHU On-Line – Qual é a função do riso? Catarse, mecanismo de defesa?

Marília Lemos – O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita. Numa brincadeira pode-se até dizer a verdade, enuncia Freud em seu livro Os chistes e sua relação com o inconsciente. O recurso ao falei de brincadeira ou é de mentirinha pode ser a maneira de uma verdade ser anunciada, através do faz de conta: Foi sem querer querendo, como diz o Chavez do programa humorístico da TV. Esta verdade se diz através de um sentido insólito brotado no nonsense, do paradoxo, do absurdo, ao qual se segue uma revelação de sentido que é sempre surpreendente e fugaz, seguido da descarga de riso.

IHU On-Line – Em que medida rir pode ser também uma transgressão e uma rebeldia?

Marília Lemos – O humor não é resignado, mas rebelde, diz Freud em seu ensaio O humor (1926). São os humoristas, aqueles que captam a fragilidade do homem, seus conflitos, sua finitude, sua dor e sofrimento, “cravam as unhas no mal-estar”, desviam do interdito e dali saem com um dito espirituoso que os fazem rir de si mesmos, ou do outro e fazem o outro rir. São eles que revelam nossas contradições, nossas falhas, nossas imperfeições. Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!

IHU On-Line – Como podemos compreender as conexões entre angústia, ironia e riso?

Marília Lemos Se o humor consiste numa forma inteligente de lidar com a dor e o sofrimento e ainda tirar proveito disso, podemos observar esta conexão na própria vida de Freud em duas situações descritas por Peter Gay (e citadas por Kupermann). Em 1938, na época de deixar a Áustria dominada, então, pelo nazismo, após a prisão e interrogatório de sua filha Anna, Freud foi obrigado a assinar um documento para a Gestapo dizendo que não havia sofrido maus-tratos. Após assiná-lo, ele acrescentou de próprio punho: “Posso recomendar altamente a Gestapo a todos”. Esta tirada de humor foi, de início, interpretada por Gay como uma tentativa inconsciente de suicídio, uma vez que a ousadia de Freud punha em risco a sua própria vida, caso as autoridades nazistas reconhecessem ali uma fina ironia. Mas, num segundo tempo, o mesmo Gay reconhece que esta atitude demonstrava uma grande coragem e vitalidade do criador da psicanálise e “seu senso de humor irreprimível”. Esta ambiguidade, que aponta tanto para a vida quanto para a morte, revela a ambivalência e o paradoxo próprios do registro tragicômico e do humor negro, nesta estranha proximidade da angústia, da ironia e do riso.

IHU On-Line – Por que o humor pode ser o último véu a encobrir o horror?

Marília Lemos – Podemos observar como o humor pode ser o último véu a encobrir o horror, citando o famoso chiste de humor negro escrito por Freud, o do condenado à morte que, numa segunda-feira de manhã, ao ser levado para a execução, comenta: “É, a semana está começando otimamente.” Humor enquanto afirmação do desejo diante da adversidade e da morte. Humor lúcido e trágico, ao mesmo tempo triunfal, alegre, ou seja, o humor freudiano, em sua associação íntima com a morte é tragicômico.

IHU On-Line – Em que medida o humor freudiano é um humor trágico?

Marília Lemos – Em alguns episódios da vida de Freud, especialmente em sua velhice, quando acometido por um câncer de mandíbula que lhe causava muito sofrimento, ou quando assistia ao advento do nazismo na Europa – todos estes momentos demonstram fino humor. Em maio de 1933, ao saber que seus livros estavam incluídos nos que seriam queimados em praças públicas das cidades alemãs e nos campi universitários, fez o seguinte comentário: “Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje se contentam em queimar os meus livros”. Mal sabia ele o quanto estava sendo profético!
Numa conversa com o jornalista americano George Sylvester Viereck em 1926, Freud teria dito: Setenta anos de existência ensinaram-me a aceitar a vida com alegre humildade... Não gosto de meu palato artificial, porque a luta para mantê-lo em função consome minha energia. Prefiro, entretanto, um palato postiço a nenhum; ainda prefiro a existência à extinção... Não sou pessimista, não permito que nenhuma reflexão filosófica me faça perder o gozo das coisas simples da vida. Sábias palavras de alguém que, apesar dos sofrimentos pelos quais passou, ainda amava a vida e pode expressar, aos 71 anos, a sua criatividade e escrever sobre o valioso dom do humor para aliviar as dores da existência, pois só através dele, é possível divertir-se no infortúnio. O humor permite a inscrição da intensidade pulsional no universo das representações, ainda que em situações-limite. Permite que o sujeito afirme seu desejo contra a pulsão de morte que o habita.

IHU On-Line – Por que o humor é ético, estético e político? Poderia aprofundar essa relação?

Marília Lemos – Esta relação é bem aprofundada por Kupermann (Ousar rir) e Birman , em Frente e verso: o trágico e o cômico na desconstrução do poder, em Seria trágico... se não fosse cômico (Slavustzky e Kupermann). O humor é ético porque é a afirmação do desejo frente à pulsão de morte. O humor permite a inscrição da intensidade pulsional no universo das representações, ainda que em situações-limite. A essência do humor seria poupar afetos penosos. O humor possui, segundo Freud, qualquer coisa de grandeza e elevação, que faltam ao chiste e ao cômico: o eu se recusa a sofrer as provocações impostas pela realidade. Significa a vitória do eu sobre o mundo externo e a vitória do princípio do prazer, do modo de funcionamento do processo primário característico do inconsciente. O desejo se afirma frente à pulsão de morte e a pulsão traça novos caminhos simbólicos, encontra outros objetos de satisfação. A despeito do triunfo do narcisismo enfatizado por Freud, o humor denuncia o fracasso e a impossibilidade de realização das ilusões narcísicas do eu, leva a uma desidealização e desmontagem de certezas, permitindo que o desejo abra caminhos. Estamos lidando, na questão do humor, não apenas com o triunfo do eu, mas com a afirmação teimosa e rebelde do erotismo e do desejo do sujeito frente às adversidades impostas pelo destino, pelo acaso e pela morte. O caráter rebelde do humor se opõe à resignação masoquista do sujeito ante o real e os imperativos sociais.
A obra Os chistes e sua relação com o inconsciente é, segundo Jones, a principal contribuição freudiana para a estética, entendendo-se por estética as condições nas quais a fruição de prazer torna-se possível diante das produções artísticas e culturais. O humor é estético, pois, criativo, contorna os interditos e causa prazer da ordem sublimatória. Na segunda tópica freudiana, com a formulação do conceito de pulsão de morte, o processo sublimatório é concebido como uma mudança do objeto de satisfação num circuito pulsional, como uma saída criativa do aparato psíquico, pela criação de novos objetos para a satisfação erótica do sujeito, que também possam ser culturalmente compartilhados, sem que isto implique em renúncia à satisfação pulsional, mas sim, um processo que é movido pelo erotismo e pelo desejo.
O humor como desconstrução de poder está exemplificado por Birman com o famoso humor judaico. O judaísmo utilizou-se do humor para a sua sobrevivência, enquanto cultura minoritária e enquanto ethos, como forma de reação criativa ao antissemitismo. Os judeus não se colocaram numa posição de vítimas, nem de mortificação masoquista, passiva, mas opuseram-se ativamente a isto, através de uma desmontagem social promovida pelo chiste, propiciadora da circulação do desejo e abertura de novas vias de discurso. Birman diz que Transformar a agressão mortífera em chiste e ainda gozar com o que se realiza, pelo riso que provoca, implica, para a tradição judaica, não se identificar com o agressor e esvaziar em ato, em cena social, o aniquilamento presente no gesto antissemita. Na virada do século XIX para o século XX, quando foi escrito o livro Os chistes e sua relação com o inconsciente, uma Áustria antissemita foi o palco para a criação da psicanálise. Não é por acaso que a singularidade da criatividade judaica, a qual permeia este livro recheado de piadas sobre judeus, contribuiu para a sua constituição. O humor é político, pois que é uma forma de desconstrução, pelas beiradas, do poder instituído, para que o sujeito reafirme o seu desejo e restaure o seu direito de existir numa comunidade social. Sem perder a graça!

IHU On-Line – Como compreender a contribuição de Lacan, quando refere que o chiste é da ordem do simbólico, o cômico, da ordem do imaginário e o humor, da ordem do real?

Marília Lemos – O chiste é da ordem do simbólico, porque se dá apenas no contexto da linguagem. Com a necessidade da primeira pessoa, a que conta a piada, a segunda pessoa, de quem se fala, e a terceira pessoa, aquela que ri da piada e que a referenda e autoriza a transgressão da repressão social, o chiste é considerado um modelo para o inconsciente. A referência de Freud à terceira pessoa coloca em cena um Outro como um lugar do simbólico, do código da linguagem com toda sua polissemia e ambiguidade, além da pessoa que a encarna. Uma diferença com o cômico está justamente aí, porque o cômico não necessita desta terceira pessoa, apenas de duas: a que ri e a de quem se ri. O cômico se realiza na dimensão especular da relação narcisista do eu com a imagem do outro, seu semelhante. Há, no cômico, uma tendência ao afastamento da palavra da sua propriedade significante e a aproximação ao puro significado: por exemplo, o pastelão na cara. O cômico pode prescindir da linguagem, uma vez que se desenvolve no registro da imagem, valendo-se do inesperado e do contraste repentino, como o que ocorre numa galeria de espelhos. Se encontramos algo cômico, poderemos rir sozinhos, embora muitas vezes o passemos para frente. Mas um chiste não nos permite rir sozinhos; é imperioso passarmos para a alguém que dê uma gostosa gargalhada.
O humor seria uma criação simbólica repentina, quando, através da surpresa e do inesperado, eclode um sentido novo. Seria, como diz Kuppermam, o marco zero da criatividade. É articulado e depende totalmente da linguagem e do deslizamento de sentido da palavra. Completa seu curso dentro de uma única pessoa; não é necessário uma outra para a fruição do prazer humorístico. Mas quando o humor é comunicado ou compartilhado pelo humorista, sentimos o mesmo prazer que o seu. A essência do humor é poupar afetos. No humor, a pessoa que é vítima da dor, consegue suprimir este afeto penoso in status nascendi e obter um prazer humorístico, o humorista consegue rir de si mesmo. De um encontro faltoso com o real, o humorista escamoteia o mal-estar e cria um dito espirituoso.

IHU On-Line – O risível muda de acordo com as culturas e com a época? Nesse sentido, qual é a peculiaridade do humor de nossos dias?

Marília Lemos – Apesar de o riso humorístico ser festivo e universal, sem idade ou pátria, o risível muda de acordo com a cultura e a época. Na Antiguidade e no Renascimento, havia a tradição das festas populares, na qual o sagrado era ritualmente profanado no paganismo. Uma estética do grotesco se disseminou no realismo alemão, que conjugava o horror e o disforme com a mordacidade. O conceito de Unheimlich (o estranho-familiar em Freud, ou o Sinistro) remete historicamente para esta estética do grotesco. Na Modernidade, o homem já não mais sabia rir (Nietzsche), a não ser por uma gargalhada estridente que funcionava mais como um instrumento de crítica que de prazer e descontração.
Vale dizer que os temas do riso e do cômico estavam na moda, na segunda metade do século XIX e vários autores escreveram sobre ele, antes e depois de Freud. No campo da filosofia, o livro O riso, de Henri Bergson, publicado originalmente em 1899 na Révue de Paris, obra de grande bojo teórico, era conhecido por Freud e foi incorporado e criticado por ele no seu livro de 1905. Outra foi Komic und Humor, do filósofo Theodor Lipps. Mas a originalidade do livro de Freud e sua contribuição maior foi inscrevê-lo como uma formação psíquica do inconsciente, destacando as dimensões do sentido e do desejo presentes na produção do chiste pelo sujeito e inseri-lo no corpo teórico da psicanálise, que estava, naquele momento, sendo constituído. O que o discurso freudiano vai enfatizar na técnica do chiste e do seu efeito humorístico são os mesmos mecanismos de condensação e deslocamento pelos quais o inconsciente se apresenta, como nos sonhos, atos falhos e sintomas.
Nos nossos dias, o tempo da modernidade líquida, segundo Zygmund Bauman , ou da hipermodernidade descrita por Gilles Lipovetsky em A era do vazio, no qual ele demonstra que vivemos numa “sociedade humorística” em que um código e um estilo humorístico dominam desde a publicidade até a política, da moda às produções acadêmicas, da arte aos meios de comunicação em massa, em que também as relações interpessoais são caracterizadas por um clima irreverente, nada deve ser pesado ou sério ou sólido, cuja orientação é que a vida deve ser vivida de modo cool [legal] ou light [leve] ou fun [divertido], descontraidamente, sem conflitos, sem litígios, em nome de uma do bem estar definido por uma cultura, na qual os alvos almejados são a adaptação e o sucesso pessoal. Paradoxalmente, vivemos numa cultura marcada pela depressão, um dos efeitos da descrença e da falência dos ideais universais modernos que tinham possibilitado, até meados do século XX, o engajamento dos sujeitos em projetos para o bem comum. Uma sociedade contemporânea que parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor