quinta-feira, 29 de março de 2012

SOBRE O HUMOR E O RISO

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3960&secao=367

http://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao367.pdf

Com as unhas cravadas no mal-estar

Fazer humor é transgredir, é despir as ideologias de suas roupagens, e as teorias de sua pompa, frisa a psicanalista Marília Lemos. Os humoristas são aqueles que enterram as unhas no “mal-estar” do qual padece a contemporaneidade, fazendo ressurgir a transgressão

Por: Márcia Junges

“O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita”. A afirmação é da psicanalista Marília Lemos em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Ela recupera o conceito de humor em Sigmund Freud, dizendo que este não é resignado, mas rebelde. Os humoristas são aqueles que “cravam as unhas no mal-estar”, apontam a “finitude humana, sua dor e sofrimento”. E complementa: “Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!”. Marília constata que nossa sociedade “parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor”.

Psiquiatra e psicanalista, Marília Brandão LemosMorais  é formada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. Filiada ao Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ao Círculo Brasileiro de Psicanálise e à International Federation of Psychoanalisis. Título de Especialista em Psiquiatria e Psicoterapia pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Médica Brasileira

 COM AS UNHAS CRAVADAS NO  MALESTAR

Fazer humor é transgredir, é despir as ideologias de suas roupagens, e as teorias de sua pompa, frisa a psicanalista Marília Lemos. Os humoristas são aqueles que enterram as unhas no “mal-estar” do qual padece a contemporaneidade, fazendo ressurgir a transgressão

Por: Márcia Junges

“O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita”. A afirmação é da psicanalista Marília Lemos em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Ela recupera o conceito de humor em Sigmund Freud, dizendo que este não é resignado, mas rebelde. Os humoristas são aqueles que “cravam as unhas no mal-estar”, apontam a “finitude humana, sua dor e sofrimento”. E complementa: “Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!”. Marília constata que nossa sociedade “parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor”.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Psicanaliticamente, o que explica a necessidade e o prazer que sentimos de rir e fazer rir?
Marília Lemos – O riso é uma descarga de afeto que gera prazer e contagia. O mecanismo do riso é explicado como consequência da suspensão da inibição: um quantum de energia psíquica torna-se livre e encontra uma via de descarga motora na risada.O chiste e o humor convidam ao prazer e ao gozo em função do riso que provocam, contagiando o espaço social. Se o chiste está estruturado como uma formação do inconsciente, é por isto mesmo um trânsito para que alguma coisa da ordem do recalcado abra passagem e se mostre sem passar pelo desconforto da angústia e do padecimento de sintomas.
No capítulo V do livro Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), de Freud, são analisados os motivos dos chistes e o impulso que temos de passá-los para frente, através de um contágio entusiasmado, colocando-os como um processo social. Na estrutura dos chistes, são determinadas três pessoas: a primeira, quem conta a piada; a segunda, aquela de quem se fala e que não está presente e é o alvo das pressões sexuais e agressivas; e a terceira, que é para quem se conta a piada, a plateia ou a paróquia (termo retirado de Bergson que Freud colocou como todo chiste requer seu próprio público). A função desta terceira pessoa é fundamental: é aquela que ri da piada e a que a referenda, pois, sem seu riso, a piada não é piada, portanto, um efeito a posteriori, que só então faz o piadista rir. Esta terceira pessoa é importante para o piadista reexperimentar, através dela, o efeito surpresa da piada ouvida pela primeira vez, e para autorizar a transgressão da repressão social efetuada pelo piadista.
Os chistes provêm dos jogos de palavras e pensamentos usados pelas crianças e que produzem prazer. Com o passar dos anos são abandonados em função da faculdade crítica e da racionalidade. Entretanto, o sujeito não quer renunciar a um prazer que lhe é familiar. Daí o ulterior desenvolvimento destes jogos infantis até a sua transformação em chistes, impulsionados pelo desejo de burlar a crítica e reencontrar o antigo prazer. O propósito, a função dos chistes consiste em suspender as inibições internas e tornar acessíveis as fontes de prazer. Os chistes são tendenciosos, satisfazem a uma tendens, uma intenção. A sua forma engenhosa satisfaz a intenções agressivas e sexuais, a sua forma alusiva e indireta permite que pensamentos sejam expressos, burlando a crítica. O fato de negarem a censura e de liberarem a inibição que pesava sobre estas fantasias coloca à mostra o inconsciente e o prazer é derivado da economia de um dispêndio psíquico, aquele que mantinha a inibição. Entre os vários tipos de inibição, o texto freudiano se refere ao recalque, reconhecido por impedir que impulsos a ele sujeitos e seus derivativos tornem-se conscientes. E diz que os chistes são capazes de liberar prazer de fontes já submetidas ao recalque.

IHU On-Line – Qual é a função do riso? Catarse, mecanismo de defesa?

Marília Lemos – O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita. Numa brincadeira pode-se até dizer a verdade, enuncia Freud em seu livro Os chistes e sua relação com o inconsciente. O recurso ao falei de brincadeira ou é de mentirinha pode ser a maneira de uma verdade ser anunciada, através do faz de conta: Foi sem querer querendo, como diz o Chavez do programa humorístico da TV. Esta verdade se diz através de um sentido insólito brotado no nonsense, do paradoxo, do absurdo, ao qual se segue uma revelação de sentido que é sempre surpreendente e fugaz, seguido da descarga de riso.

IHU On-Line – Em que medida rir pode ser também uma transgressão e uma rebeldia?

Marília Lemos – O humor não é resignado, mas rebelde, diz Freud em seu ensaio O humor (1926). São os humoristas, aqueles que captam a fragilidade do homem, seus conflitos, sua finitude, sua dor e sofrimento, “cravam as unhas no mal-estar”, desviam do interdito e dali saem com um dito espirituoso que os fazem rir de si mesmos, ou do outro e fazem o outro rir. São eles que revelam nossas contradições, nossas falhas, nossas imperfeições. Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!

IHU On-Line – Como podemos compreender as conexões entre angústia, ironia e riso?

Marília Lemos Se o humor consiste numa forma inteligente de lidar com a dor e o sofrimento e ainda tirar proveito disso, podemos observar esta conexão na própria vida de Freud em duas situações descritas por Peter Gay (e citadas por Kupermann). Em 1938, na época de deixar a Áustria dominada, então, pelo nazismo, após a prisão e interrogatório de sua filha Anna, Freud foi obrigado a assinar um documento para a Gestapo dizendo que não havia sofrido maus-tratos. Após assiná-lo, ele acrescentou de próprio punho: “Posso recomendar altamente a Gestapo a todos”. Esta tirada de humor foi, de início, interpretada por Gay como uma tentativa inconsciente de suicídio, uma vez que a ousadia de Freud punha em risco a sua própria vida, caso as autoridades nazistas reconhecessem ali uma fina ironia. Mas, num segundo tempo, o mesmo Gay reconhece que esta atitude demonstrava uma grande coragem e vitalidade do criador da psicanálise e “seu senso de humor irreprimível”. Esta ambiguidade, que aponta tanto para a vida quanto para a morte, revela a ambivalência e o paradoxo próprios do registro tragicômico e do humor negro, nesta estranha proximidade da angústia, da ironia e do riso.

IHU On-Line – Por que o humor pode ser o último véu a encobrir o horror?

Marília Lemos – Podemos observar como o humor pode ser o último véu a encobrir o horror, citando o famoso chiste de humor negro escrito por Freud, o do condenado à morte que, numa segunda-feira de manhã, ao ser levado para a execução, comenta: “É, a semana está começando otimamente.” Humor enquanto afirmação do desejo diante da adversidade e da morte. Humor lúcido e trágico, ao mesmo tempo triunfal, alegre, ou seja, o humor freudiano, em sua associação íntima com a morte é tragicômico.

IHU On-Line – Em que medida o humor freudiano é um humor trágico?

Marília Lemos – Em alguns episódios da vida de Freud, especialmente em sua velhice, quando acometido por um câncer de mandíbula que lhe causava muito sofrimento, ou quando assistia ao advento do nazismo na Europa – todos estes momentos demonstram fino humor. Em maio de 1933, ao saber que seus livros estavam incluídos nos que seriam queimados em praças públicas das cidades alemãs e nos campi universitários, fez o seguinte comentário: “Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje se contentam em queimar os meus livros”. Mal sabia ele o quanto estava sendo profético!
Numa conversa com o jornalista americano George Sylvester Viereck em 1926, Freud teria dito: Setenta anos de existência ensinaram-me a aceitar a vida com alegre humildade... Não gosto de meu palato artificial, porque a luta para mantê-lo em função consome minha energia. Prefiro, entretanto, um palato postiço a nenhum; ainda prefiro a existência à extinção... Não sou pessimista, não permito que nenhuma reflexão filosófica me faça perder o gozo das coisas simples da vida. Sábias palavras de alguém que, apesar dos sofrimentos pelos quais passou, ainda amava a vida e pode expressar, aos 71 anos, a sua criatividade e escrever sobre o valioso dom do humor para aliviar as dores da existência, pois só através dele, é possível divertir-se no infortúnio. O humor permite a inscrição da intensidade pulsional no universo das representações, ainda que em situações-limite. Permite que o sujeito afirme seu desejo contra a pulsão de morte que o habita.

IHU On-Line – Por que o humor é ético, estético e político? Poderia aprofundar essa relação?

Marília Lemos – Esta relação é bem aprofundada por Kupermann (Ousar rir) e Birman , em Frente e verso: o trágico e o cômico na desconstrução do poder, em Seria trágico... se não fosse cômico (Slavustzky e Kupermann). O humor é ético porque é a afirmação do desejo frente à pulsão de morte. O humor permite a inscrição da intensidade pulsional no universo das representações, ainda que em situações-limite. A essência do humor seria poupar afetos penosos. O humor possui, segundo Freud, qualquer coisa de grandeza e elevação, que faltam ao chiste e ao cômico: o eu se recusa a sofrer as provocações impostas pela realidade. Significa a vitória do eu sobre o mundo externo e a vitória do princípio do prazer, do modo de funcionamento do processo primário característico do inconsciente. O desejo se afirma frente à pulsão de morte e a pulsão traça novos caminhos simbólicos, encontra outros objetos de satisfação. A despeito do triunfo do narcisismo enfatizado por Freud, o humor denuncia o fracasso e a impossibilidade de realização das ilusões narcísicas do eu, leva a uma desidealização e desmontagem de certezas, permitindo que o desejo abra caminhos. Estamos lidando, na questão do humor, não apenas com o triunfo do eu, mas com a afirmação teimosa e rebelde do erotismo e do desejo do sujeito frente às adversidades impostas pelo destino, pelo acaso e pela morte. O caráter rebelde do humor se opõe à resignação masoquista do sujeito ante o real e os imperativos sociais.
A obra Os chistes e sua relação com o inconsciente é, segundo Jones, a principal contribuição freudiana para a estética, entendendo-se por estética as condições nas quais a fruição de prazer torna-se possível diante das produções artísticas e culturais. O humor é estético, pois, criativo, contorna os interditos e causa prazer da ordem sublimatória. Na segunda tópica freudiana, com a formulação do conceito de pulsão de morte, o processo sublimatório é concebido como uma mudança do objeto de satisfação num circuito pulsional, como uma saída criativa do aparato psíquico, pela criação de novos objetos para a satisfação erótica do sujeito, que também possam ser culturalmente compartilhados, sem que isto implique em renúncia à satisfação pulsional, mas sim, um processo que é movido pelo erotismo e pelo desejo.
O humor como desconstrução de poder está exemplificado por Birman com o famoso humor judaico. O judaísmo utilizou-se do humor para a sua sobrevivência, enquanto cultura minoritária e enquanto ethos, como forma de reação criativa ao antissemitismo. Os judeus não se colocaram numa posição de vítimas, nem de mortificação masoquista, passiva, mas opuseram-se ativamente a isto, através de uma desmontagem social promovida pelo chiste, propiciadora da circulação do desejo e abertura de novas vias de discurso. Birman diz que Transformar a agressão mortífera em chiste e ainda gozar com o que se realiza, pelo riso que provoca, implica, para a tradição judaica, não se identificar com o agressor e esvaziar em ato, em cena social, o aniquilamento presente no gesto antissemita. Na virada do século XIX para o século XX, quando foi escrito o livro Os chistes e sua relação com o inconsciente, uma Áustria antissemita foi o palco para a criação da psicanálise. Não é por acaso que a singularidade da criatividade judaica, a qual permeia este livro recheado de piadas sobre judeus, contribuiu para a sua constituição. O humor é político, pois que é uma forma de desconstrução, pelas beiradas, do poder instituído, para que o sujeito reafirme o seu desejo e restaure o seu direito de existir numa comunidade social. Sem perder a graça!

IHU On-Line – Como compreender a contribuição de Lacan, quando refere que o chiste é da ordem do simbólico, o cômico, da ordem do imaginário e o humor, da ordem do real?

Marília Lemos – O chiste é da ordem do simbólico, porque se dá apenas no contexto da linguagem. Com a necessidade da primeira pessoa, a que conta a piada, a segunda pessoa, de quem se fala, e a terceira pessoa, aquela que ri da piada e que a referenda e autoriza a transgressão da repressão social, o chiste é considerado um modelo para o inconsciente. A referência de Freud à terceira pessoa coloca em cena um Outro como um lugar do simbólico, do código da linguagem com toda sua polissemia e ambiguidade, além da pessoa que a encarna. Uma diferença com o cômico está justamente aí, porque o cômico não necessita desta terceira pessoa, apenas de duas: a que ri e a de quem se ri. O cômico se realiza na dimensão especular da relação narcisista do eu com a imagem do outro, seu semelhante. Há, no cômico, uma tendência ao afastamento da palavra da sua propriedade significante e a aproximação ao puro significado: por exemplo, o pastelão na cara. O cômico pode prescindir da linguagem, uma vez que se desenvolve no registro da imagem, valendo-se do inesperado e do contraste repentino, como o que ocorre numa galeria de espelhos. Se encontramos algo cômico, poderemos rir sozinhos, embora muitas vezes o passemos para frente. Mas um chiste não nos permite rir sozinhos; é imperioso passarmos para a alguém que dê uma gostosa gargalhada.
O humor seria uma criação simbólica repentina, quando, através da surpresa e do inesperado, eclode um sentido novo. Seria, como diz Kuppermam, o marco zero da criatividade. É articulado e depende totalmente da linguagem e do deslizamento de sentido da palavra. Completa seu curso dentro de uma única pessoa; não é necessário uma outra para a fruição do prazer humorístico. Mas quando o humor é comunicado ou compartilhado pelo humorista, sentimos o mesmo prazer que o seu. A essência do humor é poupar afetos. No humor, a pessoa que é vítima da dor, consegue suprimir este afeto penoso in status nascendi e obter um prazer humorístico, o humorista consegue rir de si mesmo. De um encontro faltoso com o real, o humorista escamoteia o mal-estar e cria um dito espirituoso.

IHU On-Line – O risível muda de acordo com as culturas e com a época? Nesse sentido, qual é a peculiaridade do humor de nossos dias?

Marília Lemos – Apesar de o riso humorístico ser festivo e universal, sem idade ou pátria, o risível muda de acordo com a cultura e a época. Na Antiguidade e no Renascimento, havia a tradição das festas populares, na qual o sagrado era ritualmente profanado no paganismo. Uma estética do grotesco se disseminou no realismo alemão, que conjugava o horror e o disforme com a mordacidade. O conceito de Unheimlich (o estranho-familiar em Freud, ou o Sinistro) remete historicamente para esta estética do grotesco. Na Modernidade, o homem já não mais sabia rir (Nietzsche), a não ser por uma gargalhada estridente que funcionava mais como um instrumento de crítica que de prazer e descontração.
Vale dizer que os temas do riso e do cômico estavam na moda, na segunda metade do século XIX e vários autores escreveram sobre ele, antes e depois de Freud. No campo da filosofia, o livro O riso, de Henri Bergson, publicado originalmente em 1899 na Révue de Paris, obra de grande bojo teórico, era conhecido por Freud e foi incorporado e criticado por ele no seu livro de 1905. Outra foi Komic und Humor, do filósofo Theodor Lipps. Mas a originalidade do livro de Freud e sua contribuição maior foi inscrevê-lo como uma formação psíquica do inconsciente, destacando as dimensões do sentido e do desejo presentes na produção do chiste pelo sujeito e inseri-lo no corpo teórico da psicanálise, que estava, naquele momento, sendo constituído. O que o discurso freudiano vai enfatizar na técnica do chiste e do seu efeito humorístico são os mesmos mecanismos de condensação e deslocamento pelos quais o inconsciente se apresenta, como nos sonhos, atos falhos e sintomas.
Nos nossos dias, o tempo da modernidade líquida, segundo Zygmund Bauman , ou da hipermodernidade descrita por Gilles Lipovetsky em A era do vazio, no qual ele demonstra que vivemos numa “sociedade humorística” em que um código e um estilo humorístico dominam desde a publicidade até a política, da moda às produções acadêmicas, da arte aos meios de comunicação em massa, em que também as relações interpessoais são caracterizadas por um clima irreverente, nada deve ser pesado ou sério ou sólido, cuja orientação é que a vida deve ser vivida de modo cool [legal] ou light [leve] ou fun [divertido], descontraidamente, sem conflitos, sem litígios, em nome de uma do bem estar definido por uma cultura, na qual os alvos almejados são a adaptação e o sucesso pessoal. Paradoxalmente, vivemos numa cultura marcada pela depressão, um dos efeitos da descrença e da falência dos ideais universais modernos que tinham possibilitado, até meados do século XX, o engajamento dos sujeitos em projetos para o bem comum. Uma sociedade contemporânea que parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor



sábado, 24 de março de 2012

HUMORES

O humor de Chico Anysio
e do Millôr
será
para  sempre
Humor

VAPT VUPT

a luz do vagalume
pisca
vida
nenhuma luz de
vagalume
morre
morte é escuridão

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

REFLEXÕES SOBRE O TEMPO ( para os meus colegas de turma da Faculdade de Medicina da UFMG, BH, por ocasião dos 25 anos de formados)

      Que é, pois , o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? / E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”
          Com esta exclamação famosa, Santo Agostinho nos coloca uma interrogação filosófica sobre memória, tempo e história, da qual me aproprio para uma breve reflexão. O tempo só pode ser apreendido nos seus rastros passados, nos seus traços de memória. Resgatar estes traços, num instante fugidio de um presente que sempre se esvai, a caminho do futuro. Ali, onde o passado se quer presente e o presente é sempre passado, onde o futuro se determina como algo que será lembrado, ali, neste absurdo lugar de um tempo sempre presente que se esvai, de instantes infinitesimais que se sucedem, somos.
          E o que é o gesto da memória senão este olhar que se volta para o passado na tentativa de retomá-lo? Mas, também é admitir que este gesto implica em edificar o que ainda não é, o que virá a ser. Mnemósyne, a deusa da memória e da poesia, é aquela que canta tudo aquilo que foi, o que é, o que será, tudo aquilo que se constrói em direção ao futuro. E garante ao poeta o dom da vidência, o aproximando dos profetas, assinalando mais uma vez a íntima relação entre memória e futuro. Se o presente é este inapreensível, isso que escoa e que já era, este instante sucessivamente fugaz, como capturá-lo a não ser onde ele é passado?
          Era uma vez, nestas velhas histórias que a memória reinventa, um menino e uma menina, João e Maria. E havia o caminho de ida percorrido. E havia o caminho de volta perdido. Pegadas que se apagam pela chuva, pedaços de pão e gravetos que os pássaros fizeram desaparecer, rastros que se perdem, marcas que se colocam no lugar do que se perdeu. O que é este caminho para sempre perdido dos Joãos e Marias, senão os traços de memória, os fiapos de um passado, os nossos rastros, as marcas que se apagaram mas, no entanto, estão lá, firmes Talvez a busca que se efetue hoje, possa se resumir na pergunta:
 _ Afinal,o que fica das pegadas do chão da memória?
         Fica o que significa, podemos pensar. Ou talvez, o que significa passe a ficar. Não no lugar de uma nostalgia de origem, mas no lugar de uma novidade antiga, de uma procura do novo, de novos sentidos, o que assinala antes o futuro, a criação, a esperança, os novos rumos, o caminho redescoberto, mais que o caminho perdido. E se o novo depende muito mais da intensidade do nosso olhar, do que da pretensa novidade das coisas observadas, isto significa que o observador deve mobilizar-se e transformar-se para poder ver. Nos olhemos pois,  como se fosse a primeira vez, o primeiro olhar, um olhar de sedução.
          Não somos mais os mesmos. Carregamos as marcas do tempo no corpo e na alma. Dos sucessos e dos insucessos. Dos sonhos perdidos e dos novos sonhos. Dos ganhos e das perdas. Estamos mais vividos. Mais amadurecidos,  talvez.
          E o que ficou? Ficou a nossa adolescência cheia de ideais, que procuramos passar para nossos filhos. Ideais políticos, humanistas, científicos, ideais de uma sociedade mais justa, já que o objeto de nosso trabalho é o homem em sua dor e em seu desamparo frente a doença e a morte.
          Ficou a nossa amizade, a ser redescoberta ainda hoje, a saudade dos finais de tarde no  bar do Espanhol, a lembrança das atividades do DA, dos ensaios do Show Medicina, a angústia ante o anonimato e aos corpos dos nossos primeiros cadáveres dissecados nas aulas de anatomia, o mal-estar das primeiras necrópsias das aulas de anatomia patológica, a alegria do primeiro cliente atendido no ambulatório, o alívio após a primeira cirurgia assistida, o primeiro plantão, o primeiro parto, a esperança, a solidariedade ante a angústia de um futuro ainda por se fazer e que hoje já é passado.
          Ficou algo de nossa dor, por não termos tido coragem de ousar assumir alguns de nossos sonhos e desejos mais secretos. Ficou a nossa alegria descompromissada, o nosso de bem com a vida, a vontade de mudar o mundo, a coragem rebelde de nós, meninas e meninos cheios de medos e preconceitos, de nós, Marias e Joãos alegres, corajosos e combativos. Ficou o nosso caminho profissional percorrido, ficaram as vidas salvas, as dores amainadas, a luta pela vida mais digna. Ficaram os nossos afetos.
          De tudo fica um pouco. Ficou um pouco de você, um pouco de nós, um pouco da cadeira, do tijolo, do violão, das flores, pra não dizer que não falei das flores, do cheiro de éter, do gosto de hortelã da bala, do baile, da festa, do sonho, de Paris, da virada do milênio.
          Se, como diz o poeta, a vida é a arte do encontro e se todo encontro é um reencontro com alguma coisa para sempre perdida e a tentativa de resgate desta coisa mesma, pergunto:
 _ Será que hoje nos reconheceremos?
          Penso que, se chegarmos bem perto, olhos nos olhos, arriscaria a dizer que continuamos os mesmos, adolescentes adentrados anos atrás nesta escola de Medicina. Bastaria um olhar e um sorriso franco para nosso reconhecimento mútuo. O tempo tem também destas mágicas e anos e anos  esvaem-se num piscar de olhos. Vejo-te João, no fundo do meu olhar. Reconheço-te Maria, de tantas lidas de então.
          Ao ousarmos afirmar, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, a força e a fragilidade da lembrança, o desejo de volta ao passado e a impossibilidade do retorno, o vigor do presente e seu fim próximo, a saudade que nos assalta, a nostalgia que nos atropela e o movimento rumo ao futuro, nos resta apelar, para finalizar, ao poeta Eliot, com o canto do pássaro em seu poema:
           Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano
           Não pode suportar a realidade
           O tempo passado e o tempo futuro,
           O que poderia ter sido e o que foi,   
           Convergem para um só fim, que é sempre presente.

            (Texto apresentado na  comemoração de aniversário de 25 anos de formatura de turma de médicos da Faculdade de Medicina da UFMG, BH, no anfiteatro da faculdade)

BIBLIOGRAFIA
Castello-Branco, Lucia, A traição de Penélope. Annablume editora comunicação. São Paulo, 1994.
Gagnebin, Jeanne Marie, Sete aulas sobre Linguagem, Memória e História. Imago Editora LTDA. Rio de Janeiro, 1997.
Santo Agostinho, Confissões, Livro XI, 14(17). Tradução de J. O. Santos e A. Pina. São Paulo: Abril, Coleção Os pensadores, 1973.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

TEMPO

Uma flecha cravada no peito
o ponteiro aprofunda devagar
a cada tic-tac do relógio
e sempre
em direção ao alvo
vórtice
alma
angor
momento derredeiro.
O arqueiro nunca erra
o coração

Tempo que me leva
cada vez mais distante e próximo
danço ao ritmo dos teus ventos
vejo no meu rosto as tuas marcas
ao espelho
olho para trás os rastros que ficaram
os meninos já moços
os moços quase velhos
os velhos já se foram
Acho que morrer é como antes de ter nascido
fecha-se o círculo
reinaugura-se o estado anterior

Arqueiro do tempo
por favor
arrefeça a velocidade de sua flecha
a estrela cadente
quer riscar alguns segundos a mais
a negritude do teu céu