Marília Brandão Lemos
Gostaria de iniciar este assunto onde me proponho a possíveis
articulações entre psicanálise e arte, em especial com a literatura e a poesia, citando uma fala do escritor argentino Ricardo Piglia na Folha de S. Paulo, caderno Mais, de 21 de junho passado.
“A relação entre psicanálise e literatura é, sem dúvida, tensa e conflituosa. Em primeiro lugar, os escritores sempre sentiram que a psicanálise falava de algo que eles já conheciam e sobre o que era melhor guardar silêncio. Faulkner, Nobokov, Borges, entre outros, observaram que o psicanalista quer intervir naquilo que os escritores, desde Homero, têm convocado com essa rotina cerimoniosa com que se convocam as musas, em relações muito frágeis e sempre tocadas pela graça. Nesta relação impossível de se estabelecer deliberadamente, nessa situação de espera sutil, os escritores sentiam que a psicanálise avançava como um louco furioso”.
Justiça seja feita, Freud não se incluiria nesse grupo de psicanalistas furiosos, já que mantinha uma relação muito particular com a arte e os artistas, em especial com os escritores e poetas, numa admiração explícita e delicada pelos mesmos terem acesso intuitivo aos processos psíquicos, ao saber do inconsciente. E é desse lugar da delicadeza, das frágeis graças das musas, que pretendo abordar este tema.
Fazer arte é dar forma ao impossível de ser dito. Onde não existem palavras o texto poético se faz, a pintura cria no universo das cores e das formas, a fruição do olhar, a música se insinua em acordes, numa harmonia infinita, apontando para um além, além da imaginação, além das palavras, apontando para a eloqüência da pausa, para o branco da folha que se exibe em sua nudez, em sua mudez, ao convite de escrever.
É preciso se perder para escrever, mergulhar no inexprimível, destituir-se do saber aprendido, despojar-se e entregar-se a uma intimidade corporal com o texto, para num outro momento, distanciar-se dele. Marguerite Duras diz disso, em Escrever. “A partir do momento em que se está perdido e que não se tem mais o que escrever, mais o que perder, é aí que se escreve... Isso torna a escrita selvagem. Vai-se ao encontro de uma selvageria anterior à vida”. É a partir do nada, do silêncio de uma irrupção do real, que a ficção se constrói e se faz texto. Não sei o que digo, diz o texto, mas as palavras jorram desconexas, explodem em sua corporiedade significante, implodindo sentidos, em fragmentos, resíduos de impressões que precariamente se fazem verbo.
O texto é forma, mas também é carne. Me aproprio das palavras de Clarice Lispector: “Mas estou tentando descrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto terno e nevrálgico da palavra. Meu corpo incógnito te diz: dinossauros, ictossauros e pleiossauros, com sentido apenas auditivo, sem que por isso se tornem palha seca, e sim úmida... Ouve-me então com teu corpo inteiro”. Nesta escuta de corpos, a voz que se insinua num sentido apenas auditivo, numa carícia sussurrante de mãe, esta voz se faz letra, se faz traço enquanto se inscreve no corpo do bebê, neste gesto materno inaugural do desejo. O corpo pulsional é história, história que se inscreve em traços no corpo, escrita aquém e além da fala, desenhada como marca no corpo, corpo texto do sujeito.
Escrever sem palavras, pintar sem imagens, o atrás do pensamento é o além ou aquém da linguagem, que ela evidencia sem atingir. Retorno a Clarice Lispector:
“Atrás do pensamento não há palavras-é-se. Minha palavra não tem palavras: fica atrás do pensamento. Neste terreno do é-se sou puro êxtase cristalino... Será que passei sem sentir para o outro lado? O outro lado é uma vida latejantemente infernal... o que escrevo é um só clímax? Meus dias são um só clímax: viver à beira”. À beira do símbolo que prenuncia o eu não é, constrói-se o texto a partir de fendas e brechas. Lacan confere à literatura a tarefa de acomodação dos restos, por mais que os signos busquem a plenitude da vida, eles apenas a capturam nos restos, no objeto amoroso perdido para sempre.
Freud denomina de umbigo do sonho a existência de um ponto intraduzível do texto onírico que é para sempre perdido. Este ponto cego, um estranho lugar por onde escoa o sentido do sonho e não pode jamais ser recuperado, esta confluência de pensamentos oníricos emaranhados, este ponto em que o sonho mergulha no desconhecido. É do centro de um “umbigo da memória”, do lugar da coisa perdida, onde não existem palavras, onde toda significação se estanca, que o sujeito escreve. Desse lugar nada mais se tem a dizer a não ser reinventando-o ficcionalizando-o . Mais uma vez retomo Clarice: “Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem as entrelinhas... O melhor está nas entrelinhas”. A fala poética provém do silêncio e ao silêncio retorna. O poema está entre as linhas do verso, entre as letras de sua composição.
Assim como o sonho, o texto literário se faz numa tecelagem onde se apreende o desejo em marcas que permitirão ao autor e ao leitor reencontrarem afetos perdidos e quando reescrito pelo leitor, o remete a um estado de desejo em suspenso, a um desdobramento em incontáveis produções de sentido.
Ingressar na poética de desaprender, escrever como escriba que não sabe ler mas que se abandona às artes e ofícios de um estilete que toca, sulca, fere o traço que o poeta inscreve nas coisas mesmas, na rocha, no tronco, na água, o traço que a pulsão inscreve no psiquismo como representante-representação, o traço investido pulsionalmente, o traço iluminado. Bordar ponto por ponto no imponderável, todo texto bordeja o indizível, revelando o que é próprio do exercício poético e psicanalítico: tentar captar o irrepresentável pelo movimento contínuo das representações inscritas no corpo do texto, pela criação de circuitos pulsionais, movimentos da pulsão de morte e pulsão sexual numa construção e desconstrução próprias do fazer psicanalítico e poético. “Não tem pessoas que cosem por fora? Eu coso por dentro”. Assim explicava Clarice Lispector o seu ato de escrever.
E o ato psicanalítico, a palavra que faz ato, pode ser considerada como o fazer poético enquanto um dizer que responde a um ponto onde a linguagem não alcança, roça neste ponto de real, de vazio, enquanto seus efeitos se assentam no simbólico, criando novos circuitos pulsionais. O trabalho psicanalítico é bordadura no real. Ancorado neste ponto, o analista cria uma palavra, uma interpretação que aponta para o nonsense, produzindo um corte, uma escansão, uma ruptura de sentido. Através da interpretação e da escrita, abrem-se sentidos novos, antes insuspeitados, criam-se novas ficções diferentes do repetitivo romance familiar do neurótico. Talvez daí uma das aproximações entre psicanálise e literatura, já que ambas florescem do mesmo solo do inconsciente e ambas têm como aspecto essencial serem equívocas, nunca dizerem tudo.
A arte inquieta e interroga as origens, nos defronta com um enigma insolúvel para o qual não existem respostas, apenas possibilidade do criar. O vazio inquiridor advém acompanhado do seu afeto fundamental: a angústia. Arte e angústia referem-se à busca de nome para aquilo que não o tem. Na fala de Guimarães Rosa: “Muita coisa importante falta nome”. A arte sempre perseguiu mitologias, tematizando-as, mitologias que remetem às origens. Ambas tentam falar do que afeta o homem nas entrelinhas do mundo, no invisível que paira, num inatingível cada vez mais além, um além psicanalítico, um além do princípio do prazer que remete inevitavelmente ao pulsional. O fazer artístico depende da energia pulsional, da força enquanto exigência de trabalho para o psíquico. Se recolocarmos a angústia como um revelador do inominável, ela sugere mais que um motor para o fazer artístico (assim como ela o é para o fazer psicanalítico). Ela entreteceria as lacunas do irrepresentado na matéria a ser transformada pelo artista . Na experiência psicanalítica, ela propiciaria a criação, numa relação de alteridade, de novos circuitos pulsionais, onde a energia livre da pulsão de morte pudesse ser capturada em novas representações, novas ficções, no universo simbólico. A pulsão de morte em si, pode ser considerada princípio criativo, enquanto potencial de força pulsional, de energia livre, enquanto disruptura da pulsão sexual (pulsão já submetida a uma ordem simbólica), enquanto criadora de novas ordens, propiciadora do novo, da repetição diferenciada.
A experiência psicanalítica e a experiência artística e poética, embora distintas, possuem enormes afinidades. Em Freud, a linguagem poética, literária, figurada, não é apenas para seduzir o leitor tornando a exposição mais bela e atraente, mas muitas vezes, é a única linguagem possível para descrever os processos psíquicos. O poético é um dos meios de tangenciar o sem palavras. A psicanálise pede e exige o literário e o poético, e a experiência psicanalítica carrega em si a dimensão poética. Apenas o elemento poético e artístico consegue se aproximar de certos aspectos essenciais do trabalho psicanalítico onde nos deparamos sempre com o inapreensível, o impossível de representar. Clarice Lispector, mais uma vez se aproxima de algo familiar: “Eu tenho à medida que designo – e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou busca-la e não do achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela conseguiu”.
A obra de arte presta-se a pensar a experiência psicanalítica enquanto um enigma, um signo vazio de sentido, e diante dela somos lançados ao desconcerto, à surpresa, ao suspense. A obra de arte tem como efeito provocar a suspensão do sentido habitual dos objetos e fenômenos, a uma singularização das diferenças onde o “sempre-visto” é transformação em olhado pela primeira vez, gerando um efeito de estranhamento, aquilo que Freud chamou de Unheimliche, um estranhamento familiar, ou uma estranheza inquieta que mostra que nada se parece mais estranho em nós do que aquilo que é mais íntimo. Este desconcerto ante o belo que encobre o horrível, é o umbral angustiante de uma conjunção Eros-Thanatos, remetendo o sujeito a uma ambivalência pulsional originária, ao desamparo, a algo da ordem da indizível angústia, ao ponto em que o Belo, segundo Lacan, nos indica a relação ao homem com a morte na sua resplandecência. Linguagem pulsional, leito comum de Eros e Thanatos, “umbigo da escrita”, onde as palavras nada dizem além de sua vacuidade.
Mnemosyne, a deusa da memória, entrega Eros aos braços de Thanatos. Ela é aquela que canta tudo o que foi, é, e será, aquilo que se constrói em direção ao futuro, esta mais íntima relação entre memória e futuro que permite aos poetas a capacidade de vidência. Ali onde o pássaro se faz presente, e o presente é sempre passado, onde o futuro se determina como algo que será lembrado, no absurdo lugar de um tempo sem tempo do desejo inconsciente, tempo que se esvai e desemboca nesta “perda de tempo”, onde, na escrita, o presente sempre escapa e só ressurge como passado representado. Atemporalidade dos processos inconscientes, atemporalidade da escrita.
O trabalho com o inconsciente tem a dimensão de abertura e exclusão, atração e impenetrabilidade, e nesta dimensão o psicanalista vive a experiência de ser tragado e repelido, convidado a entrar e deparar-se com a porta fechada, pois o inconsciente se revela fugazmente e se retrai. Esta vivência singular da experiência psicanalítica, este entregar-se e ser afetado por ela e as mudanças psíquicas que ela promove, nos permite algumas analogias com a vivência que a obra de arte produz no seu encontro com quem a ela se entrega: desconcerto, ruptura com o habitual, permitindo que o insólito apareça. Neste sentido a interpretação tem efeito disruptor, efeito surpresa, rompendo com o conjunto de pressupostos do analisando, propiciando o surgimento de novas significações que funcionam como abertura, formas diferentes de pensar. O final de análise apresenta-se como possibilidade de o analisando reinventar a própria vida. Fedida desenvolveu a idéia da interpretação como uma atividade poético-metafórica do analista, uma fala que nomeia, trazendo à luz uma imagem singular que “condensa em um tom a atmosfera de todas as sensações particulares deste encontro com as coisas que o fenômeno não é”. Não uma cópia que representa a coisa, mas uma mimese, uma imitação que a torna presente em seu potencial energético, em sua aparição singular.
Disrupção, estranhamento, desancoragem, abertura, multiplicação de sentidos, fluidez, surpresa, encontro com o indizível, angústia, efeitos que são poéticos, da experiência psicanalítica. Se a arte implica numa techné, numa poiesis, num fazer, num fabricar, num agir, na capacidade de trabalhar um material para produzir algo novo e com efeito estético, poderíamos falar numa techné psicanalítica?
O termo techné tal como relatado pela metafísica clássica implica em organização, algo que se impõe à natureza (physis), para imprimir-lhe forma, para domina-la, para controla-la. Heidegger, por outro lado, a partir dos pré-socráticos, retoma a noção de physis como o “princípio de engendramento dos entes, aquilo que por si mesmo brota, brilha e se mostra”. Nesta perspectiva, a techné seria o “deixar vir à presença”, o propiciador, o catalisador da eclosão de uma physis, um “fazer desvelador”. Physis e techné são pois, neste ponto de vista, formas de poiesis, ambas engendram a revelação da verdade: “a obra de arte é o por-em-obra da verdade” (Heidegger). Se aceitarmos a dimensão criativa e propiciadora de uma techné psicanalítica, neste sentido podemos falar, sem o perigo de incorrermos em reducionismos, em dimensão poética e artística da psicanálise. Assim, o final reservo para Clarice Lispector: “O que estou fazendo ao te escrever? Estou tentando fotografar o perfume”.
BIBLIOGRAFIA
CAMARGOS, S. M. B. Arte e Interpretação in Anais do 2º Fórum Mineiro de Psicanálise.
Junho, 1998, Uberaba, MG.
CARVALHO, A. C. Escrita: remédio ou veneno? In Percurso, n. 18, ano IX, 1997,
São Paulo
CASTELLO BRANCO, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.
DURAS, Marguerite. Escrever. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
FEDIDA, P. A ressonância atonal. Sobre a condição de linguagem do analista in Nome,
Figura e Memória. São Paulo: Escuta, 1991.
FIGUEIREDO, L. C. Escutar, recordar, dizer – Encontros heideggerianos com a clínica
psicanalítica. São Paulo: Escuta/Educ, 1994.
FRANÇA, Maria Inês. Psicanálise, estética e ética do desejo, São Paulo: Perspectiva, 1997.
FREUD, S. O Estranho. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, v. XVII.
HEIDEGGER, M. Tempo e ser. 1962.
_____________. A origem da obra de arte. Lisboa: Edições 70, 1992.
LACAN. J. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G. H.. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.
_______________. Água viva. 2. ed. Rio de Janeiro: Artenova.
_______________. Um sopro de vida (Pulsações). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
MEICHES, M. e ALPEROWITCH, E. Arte: onde havia sublimação, que advenha angústia.
In percurso, ano VIII, n. 15, 1995, São Paulo.
MENDES, E. R. P. Psicanálise e Literatura. In Saúde e Loucura, n. 5. São Paulo: Hucitec.
MORAIS, M. B. L. Através do ato, do caos surge o verbo. In estudos de Psicanálise, n.17,
Publicação do Círculo Brasileiro de Psicanálise, Belo Horizonte, set./ 1994.
_______________. Psicanálise e Literatura. In anais do 1º Fórum Mineiro de Psicanálise,
jun./ 1996, Belo Horizonte, MG.
PIGLIA, Ricardo. Psicanálise e Literatura. Cadernos Mais do jornal Folha de S. Paulo,
21/jun./1998.
ROSENFELD, H. K. Há poesia na psicanálise? In Percurso, ano VIII, n.15, 1995, São
Paulo.
Gostaria de iniciar este assunto onde me proponho a possíveis
articulações entre psicanálise e arte, em especial com a literatura e a poesia, citando uma fala do escritor argentino Ricardo Piglia na Folha de S. Paulo, caderno Mais, de 21 de junho passado.
“A relação entre psicanálise e literatura é, sem dúvida, tensa e conflituosa. Em primeiro lugar, os escritores sempre sentiram que a psicanálise falava de algo que eles já conheciam e sobre o que era melhor guardar silêncio. Faulkner, Nobokov, Borges, entre outros, observaram que o psicanalista quer intervir naquilo que os escritores, desde Homero, têm convocado com essa rotina cerimoniosa com que se convocam as musas, em relações muito frágeis e sempre tocadas pela graça. Nesta relação impossível de se estabelecer deliberadamente, nessa situação de espera sutil, os escritores sentiam que a psicanálise avançava como um louco furioso”.
Justiça seja feita, Freud não se incluiria nesse grupo de psicanalistas furiosos, já que mantinha uma relação muito particular com a arte e os artistas, em especial com os escritores e poetas, numa admiração explícita e delicada pelos mesmos terem acesso intuitivo aos processos psíquicos, ao saber do inconsciente. E é desse lugar da delicadeza, das frágeis graças das musas, que pretendo abordar este tema.
Fazer arte é dar forma ao impossível de ser dito. Onde não existem palavras o texto poético se faz, a pintura cria no universo das cores e das formas, a fruição do olhar, a música se insinua em acordes, numa harmonia infinita, apontando para um além, além da imaginação, além das palavras, apontando para a eloqüência da pausa, para o branco da folha que se exibe em sua nudez, em sua mudez, ao convite de escrever.
É preciso se perder para escrever, mergulhar no inexprimível, destituir-se do saber aprendido, despojar-se e entregar-se a uma intimidade corporal com o texto, para num outro momento, distanciar-se dele. Marguerite Duras diz disso, em Escrever. “A partir do momento em que se está perdido e que não se tem mais o que escrever, mais o que perder, é aí que se escreve... Isso torna a escrita selvagem. Vai-se ao encontro de uma selvageria anterior à vida”. É a partir do nada, do silêncio de uma irrupção do real, que a ficção se constrói e se faz texto. Não sei o que digo, diz o texto, mas as palavras jorram desconexas, explodem em sua corporiedade significante, implodindo sentidos, em fragmentos, resíduos de impressões que precariamente se fazem verbo.
O texto é forma, mas também é carne. Me aproprio das palavras de Clarice Lispector: “Mas estou tentando descrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto terno e nevrálgico da palavra. Meu corpo incógnito te diz: dinossauros, ictossauros e pleiossauros, com sentido apenas auditivo, sem que por isso se tornem palha seca, e sim úmida... Ouve-me então com teu corpo inteiro”. Nesta escuta de corpos, a voz que se insinua num sentido apenas auditivo, numa carícia sussurrante de mãe, esta voz se faz letra, se faz traço enquanto se inscreve no corpo do bebê, neste gesto materno inaugural do desejo. O corpo pulsional é história, história que se inscreve em traços no corpo, escrita aquém e além da fala, desenhada como marca no corpo, corpo texto do sujeito.
Escrever sem palavras, pintar sem imagens, o atrás do pensamento é o além ou aquém da linguagem, que ela evidencia sem atingir. Retorno a Clarice Lispector:
“Atrás do pensamento não há palavras-é-se. Minha palavra não tem palavras: fica atrás do pensamento. Neste terreno do é-se sou puro êxtase cristalino... Será que passei sem sentir para o outro lado? O outro lado é uma vida latejantemente infernal... o que escrevo é um só clímax? Meus dias são um só clímax: viver à beira”. À beira do símbolo que prenuncia o eu não é, constrói-se o texto a partir de fendas e brechas. Lacan confere à literatura a tarefa de acomodação dos restos, por mais que os signos busquem a plenitude da vida, eles apenas a capturam nos restos, no objeto amoroso perdido para sempre.
Freud denomina de umbigo do sonho a existência de um ponto intraduzível do texto onírico que é para sempre perdido. Este ponto cego, um estranho lugar por onde escoa o sentido do sonho e não pode jamais ser recuperado, esta confluência de pensamentos oníricos emaranhados, este ponto em que o sonho mergulha no desconhecido. É do centro de um “umbigo da memória”, do lugar da coisa perdida, onde não existem palavras, onde toda significação se estanca, que o sujeito escreve. Desse lugar nada mais se tem a dizer a não ser reinventando-o ficcionalizando-o . Mais uma vez retomo Clarice: “Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem as entrelinhas... O melhor está nas entrelinhas”. A fala poética provém do silêncio e ao silêncio retorna. O poema está entre as linhas do verso, entre as letras de sua composição.
Assim como o sonho, o texto literário se faz numa tecelagem onde se apreende o desejo em marcas que permitirão ao autor e ao leitor reencontrarem afetos perdidos e quando reescrito pelo leitor, o remete a um estado de desejo em suspenso, a um desdobramento em incontáveis produções de sentido.
Ingressar na poética de desaprender, escrever como escriba que não sabe ler mas que se abandona às artes e ofícios de um estilete que toca, sulca, fere o traço que o poeta inscreve nas coisas mesmas, na rocha, no tronco, na água, o traço que a pulsão inscreve no psiquismo como representante-representação, o traço investido pulsionalmente, o traço iluminado. Bordar ponto por ponto no imponderável, todo texto bordeja o indizível, revelando o que é próprio do exercício poético e psicanalítico: tentar captar o irrepresentável pelo movimento contínuo das representações inscritas no corpo do texto, pela criação de circuitos pulsionais, movimentos da pulsão de morte e pulsão sexual numa construção e desconstrução próprias do fazer psicanalítico e poético. “Não tem pessoas que cosem por fora? Eu coso por dentro”. Assim explicava Clarice Lispector o seu ato de escrever.
E o ato psicanalítico, a palavra que faz ato, pode ser considerada como o fazer poético enquanto um dizer que responde a um ponto onde a linguagem não alcança, roça neste ponto de real, de vazio, enquanto seus efeitos se assentam no simbólico, criando novos circuitos pulsionais. O trabalho psicanalítico é bordadura no real. Ancorado neste ponto, o analista cria uma palavra, uma interpretação que aponta para o nonsense, produzindo um corte, uma escansão, uma ruptura de sentido. Através da interpretação e da escrita, abrem-se sentidos novos, antes insuspeitados, criam-se novas ficções diferentes do repetitivo romance familiar do neurótico. Talvez daí uma das aproximações entre psicanálise e literatura, já que ambas florescem do mesmo solo do inconsciente e ambas têm como aspecto essencial serem equívocas, nunca dizerem tudo.
A arte inquieta e interroga as origens, nos defronta com um enigma insolúvel para o qual não existem respostas, apenas possibilidade do criar. O vazio inquiridor advém acompanhado do seu afeto fundamental: a angústia. Arte e angústia referem-se à busca de nome para aquilo que não o tem. Na fala de Guimarães Rosa: “Muita coisa importante falta nome”. A arte sempre perseguiu mitologias, tematizando-as, mitologias que remetem às origens. Ambas tentam falar do que afeta o homem nas entrelinhas do mundo, no invisível que paira, num inatingível cada vez mais além, um além psicanalítico, um além do princípio do prazer que remete inevitavelmente ao pulsional. O fazer artístico depende da energia pulsional, da força enquanto exigência de trabalho para o psíquico. Se recolocarmos a angústia como um revelador do inominável, ela sugere mais que um motor para o fazer artístico (assim como ela o é para o fazer psicanalítico). Ela entreteceria as lacunas do irrepresentado na matéria a ser transformada pelo artista . Na experiência psicanalítica, ela propiciaria a criação, numa relação de alteridade, de novos circuitos pulsionais, onde a energia livre da pulsão de morte pudesse ser capturada em novas representações, novas ficções, no universo simbólico. A pulsão de morte em si, pode ser considerada princípio criativo, enquanto potencial de força pulsional, de energia livre, enquanto disruptura da pulsão sexual (pulsão já submetida a uma ordem simbólica), enquanto criadora de novas ordens, propiciadora do novo, da repetição diferenciada.
A experiência psicanalítica e a experiência artística e poética, embora distintas, possuem enormes afinidades. Em Freud, a linguagem poética, literária, figurada, não é apenas para seduzir o leitor tornando a exposição mais bela e atraente, mas muitas vezes, é a única linguagem possível para descrever os processos psíquicos. O poético é um dos meios de tangenciar o sem palavras. A psicanálise pede e exige o literário e o poético, e a experiência psicanalítica carrega em si a dimensão poética. Apenas o elemento poético e artístico consegue se aproximar de certos aspectos essenciais do trabalho psicanalítico onde nos deparamos sempre com o inapreensível, o impossível de representar. Clarice Lispector, mais uma vez se aproxima de algo familiar: “Eu tenho à medida que designo – e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou busca-la e não do achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção é que obtenho o que ela conseguiu”.
A obra de arte presta-se a pensar a experiência psicanalítica enquanto um enigma, um signo vazio de sentido, e diante dela somos lançados ao desconcerto, à surpresa, ao suspense. A obra de arte tem como efeito provocar a suspensão do sentido habitual dos objetos e fenômenos, a uma singularização das diferenças onde o “sempre-visto” é transformação em olhado pela primeira vez, gerando um efeito de estranhamento, aquilo que Freud chamou de Unheimliche, um estranhamento familiar, ou uma estranheza inquieta que mostra que nada se parece mais estranho em nós do que aquilo que é mais íntimo. Este desconcerto ante o belo que encobre o horrível, é o umbral angustiante de uma conjunção Eros-Thanatos, remetendo o sujeito a uma ambivalência pulsional originária, ao desamparo, a algo da ordem da indizível angústia, ao ponto em que o Belo, segundo Lacan, nos indica a relação ao homem com a morte na sua resplandecência. Linguagem pulsional, leito comum de Eros e Thanatos, “umbigo da escrita”, onde as palavras nada dizem além de sua vacuidade.
Mnemosyne, a deusa da memória, entrega Eros aos braços de Thanatos. Ela é aquela que canta tudo o que foi, é, e será, aquilo que se constrói em direção ao futuro, esta mais íntima relação entre memória e futuro que permite aos poetas a capacidade de vidência. Ali onde o pássaro se faz presente, e o presente é sempre passado, onde o futuro se determina como algo que será lembrado, no absurdo lugar de um tempo sem tempo do desejo inconsciente, tempo que se esvai e desemboca nesta “perda de tempo”, onde, na escrita, o presente sempre escapa e só ressurge como passado representado. Atemporalidade dos processos inconscientes, atemporalidade da escrita.
O trabalho com o inconsciente tem a dimensão de abertura e exclusão, atração e impenetrabilidade, e nesta dimensão o psicanalista vive a experiência de ser tragado e repelido, convidado a entrar e deparar-se com a porta fechada, pois o inconsciente se revela fugazmente e se retrai. Esta vivência singular da experiência psicanalítica, este entregar-se e ser afetado por ela e as mudanças psíquicas que ela promove, nos permite algumas analogias com a vivência que a obra de arte produz no seu encontro com quem a ela se entrega: desconcerto, ruptura com o habitual, permitindo que o insólito apareça. Neste sentido a interpretação tem efeito disruptor, efeito surpresa, rompendo com o conjunto de pressupostos do analisando, propiciando o surgimento de novas significações que funcionam como abertura, formas diferentes de pensar. O final de análise apresenta-se como possibilidade de o analisando reinventar a própria vida. Fedida desenvolveu a idéia da interpretação como uma atividade poético-metafórica do analista, uma fala que nomeia, trazendo à luz uma imagem singular que “condensa em um tom a atmosfera de todas as sensações particulares deste encontro com as coisas que o fenômeno não é”. Não uma cópia que representa a coisa, mas uma mimese, uma imitação que a torna presente em seu potencial energético, em sua aparição singular.
Disrupção, estranhamento, desancoragem, abertura, multiplicação de sentidos, fluidez, surpresa, encontro com o indizível, angústia, efeitos que são poéticos, da experiência psicanalítica. Se a arte implica numa techné, numa poiesis, num fazer, num fabricar, num agir, na capacidade de trabalhar um material para produzir algo novo e com efeito estético, poderíamos falar numa techné psicanalítica?
O termo techné tal como relatado pela metafísica clássica implica em organização, algo que se impõe à natureza (physis), para imprimir-lhe forma, para domina-la, para controla-la. Heidegger, por outro lado, a partir dos pré-socráticos, retoma a noção de physis como o “princípio de engendramento dos entes, aquilo que por si mesmo brota, brilha e se mostra”. Nesta perspectiva, a techné seria o “deixar vir à presença”, o propiciador, o catalisador da eclosão de uma physis, um “fazer desvelador”. Physis e techné são pois, neste ponto de vista, formas de poiesis, ambas engendram a revelação da verdade: “a obra de arte é o por-em-obra da verdade” (Heidegger). Se aceitarmos a dimensão criativa e propiciadora de uma techné psicanalítica, neste sentido podemos falar, sem o perigo de incorrermos em reducionismos, em dimensão poética e artística da psicanálise. Assim, o final reservo para Clarice Lispector: “O que estou fazendo ao te escrever? Estou tentando fotografar o perfume”.
BIBLIOGRAFIA
CAMARGOS, S. M. B. Arte e Interpretação in Anais do 2º Fórum Mineiro de Psicanálise.
Junho, 1998, Uberaba, MG.
CARVALHO, A. C. Escrita: remédio ou veneno? In Percurso, n. 18, ano IX, 1997,
São Paulo
CASTELLO BRANCO, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.
DURAS, Marguerite. Escrever. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
FEDIDA, P. A ressonância atonal. Sobre a condição de linguagem do analista in Nome,
Figura e Memória. São Paulo: Escuta, 1991.
FIGUEIREDO, L. C. Escutar, recordar, dizer – Encontros heideggerianos com a clínica
psicanalítica. São Paulo: Escuta/Educ, 1994.
FRANÇA, Maria Inês. Psicanálise, estética e ética do desejo, São Paulo: Perspectiva, 1997.
FREUD, S. O Estranho. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, v. XVII.
HEIDEGGER, M. Tempo e ser. 1962.
_____________. A origem da obra de arte. Lisboa: Edições 70, 1992.
LACAN. J. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G. H.. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.
_______________. Água viva. 2. ed. Rio de Janeiro: Artenova.
_______________. Um sopro de vida (Pulsações). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
MEICHES, M. e ALPEROWITCH, E. Arte: onde havia sublimação, que advenha angústia.
In percurso, ano VIII, n. 15, 1995, São Paulo.
MENDES, E. R. P. Psicanálise e Literatura. In Saúde e Loucura, n. 5. São Paulo: Hucitec.
MORAIS, M. B. L. Através do ato, do caos surge o verbo. In estudos de Psicanálise, n.17,
Publicação do Círculo Brasileiro de Psicanálise, Belo Horizonte, set./ 1994.
_______________. Psicanálise e Literatura. In anais do 1º Fórum Mineiro de Psicanálise,
jun./ 1996, Belo Horizonte, MG.
PIGLIA, Ricardo. Psicanálise e Literatura. Cadernos Mais do jornal Folha de S. Paulo,
21/jun./1998.
ROSENFELD, H. K. Há poesia na psicanálise? In Percurso, ano VIII, n.15, 1995, São
Paulo.