terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Menino-Deus ( poema publicado no meu livro Resíduos)

Onde está o menino
procuro o menino
que renasce a cada ano
há quase dois mil anos

Numa estrebaria
aconchegado em feno
veio à luz
sob a luz de uma estrela.

Menininho dos olhos azuis
(será que eram azuis?)
nasces e desapareces
quem sabe fugindo à ira de Herodes
dos Herodes atuais

Te procuro disfarçado em cada menino
de rua
olhinhos escuros
soltos na vida

busco você nos hospitais
de crianças desnutridas
corpinhos esquálidos
olhar de grandes olhos de carneiro
moribundo

Quando leio jornais, investigo
as páginas policiais:
crianças assassinadas!
quem sabe fizeram com você
o que Herodes não conseguiu

Te reconheço entre os corpos dos meninos mortos
na praça da Candelária
te ouço nas vozes das mães de crianças
desaparecidas
te contemplo no olhar do pedinte
esfomeado
ou talvez, cidadão do mundo, sucumbistes
na Sérvio-Croácia
no Iraque
sob o reboar de uma bomba
sob a bala de um fuzil
sob as esteiras de um tanque?

Ou na Somália,desterrado
de tua mãe sugando o seio
sem leite
sem carne
sem teto

Ah! quem sabe és uma das vítimas
das hecatombes nucleares
e, se não estás morto
estás cativo
com tantas outras crianças
vítimas
radioativo

Vejo você em imagem
no altar das igrejas
em presépios nos shoppings
sob árvores de bolas coloridas iluminadas
ao som de Jingle bells
em Noite-Feliz da vida.

Penso em você na mangedoura da favela
nos morros, sem casa
na madrugada
nos abrigos de menores
nas prisões... podem tê-lo tomado por marginal
revolucionário
comunista
mendigo
louco... são tantos os caminhos
os perigos
os esconderijos! Por favor meu menino,
meu menininho-Deus de olhos azuis
... ou castanhos, me diga
Onde estás?

Arrumo teu berço no quarto
te encontro no coração

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

STYLOS, poema de minha autoria que conquistou o prêmio Asabeça 2010

S
T
Y
L
O
S
Estilo , de stylos
um estilete risca o corpo
                 da linguagem
               risco corporal
navalha na carne
escarifica a pele
desenha tatuagens de bichos
                      os olhos dos bichos
                      os olhos das coisas
garatujas de crianças
letras jorram linfa e fel.
Como Sade
escrever o próprio sangue e dejetos
fazer da escrita das ruínas
                          dos restos
                          dos resíduos.

domingo, 5 de dezembro de 2010

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O MELHOR DO RISCO- Livro editado sobre o jornal da Associação Mineira de Psiquiatria

A Ãssociação Mineira de Psiquiatria comemora os seus 40 anos com uma edição dos melhores artigos do jornal "O Risco", lançada no dia 03/12/2010 no Hospital Raul Soares, de Belo Horizonte. Muitos artigos relevantes na história da psiquiatria mineira, da qual me orgulho pertencer. No livro, participo com o artigo "Psicanálise, Arte e Literatura", que pretendo editar aqui.

"Sobre o destino dos restos". Resenha do psicanalista Carlos Mello sobre o meu livro de poemas "Resíduos"

RESENHA

"PSICANÁLISE E LITERATURA: sobre o destino dos restos"


Carlos Antônio Andrade Mello
Círculo Psicanalítico de Minas Gerais

Apenas um momento do passado? Muito mais, talvez: alguma coisa que, comum ao passado e ao presente, é mais essencial do que ambos1.

A propósito da memória involuntária em Proust, Walter Benjamim menciona que o importante, para o autor que rememora, não é o que ele viveu, mas o tecido de sua rememoração, o trabalho de Penélope da reminiscência. (...) Ou do esquecimento?2

Contrariamente à concepção berg-soniana que denuncia e rejeita a metamorfose do tempo em espaço, Proust faz dessa condição a nervura central de sua mais vasta obra, buscando não somente o tempo, mas, também, o espaço perdido. Também no sonho, formação fidelíssima do inconsciente, espaço cênico e temporalidade se entrecruzam, se confundem, numa operação pouco ou nada atenta ao sentido e, talvez, por isso mesmo, produtora de tantos restos.

Sobre a escritura de Maria Gabriela Llansol, bem marca Lúcia Castello Branco3: Sulco, rasura, litura, littera, essa Lituraterra de Llansol, se é “acomodação dos restos”4, certamente não é acomodação daquele que escreve e daquele que lê. Felizmente, para nós, há o véu da beleza, último anteparo ante o horror do Real, como diria Lacan, a recobrir a cicatriz dessa escritura e a repetir, no momento em que a tememos mais, que “a escrita e o medo são incompatíveis.”5
O texto psicanalítico muitas vezes aproxima-se do texto literário – por um lado no que se refere à ordem do inevitável para seu autor, por outro, pela divisão em que também coloca o leitor, irremediavelmente atravessado pelo escrito.

Também assim é o trabalho do psicanalista, escritor de seu próprio texto e leitor de tantos outros em sua escuta.

A psicanálise se ocupa dos restos... Quem ignora?

Em versos, Marília Brandão, uma vez mais, se pôs a escrever: Resíduos. Também como resíduos, Freud denominou os afetos e os estados de desejo originados das experiências de dor e de satisfação em seu Projeto6. Restos que resistem e tudo impregnam, demandando trabalho de poeta e psicanalista. Instantâneos de vida, sonho, fantasia? Não importa.

Impossível não recorrer a Proust quando nos traz: “... para escrever esse livro essencial, o único verdadeiro, um grande escritor não precisa, no sentido corrente da palavra, inventá-lo, pois já existe em cada um de nós, e sim traduzi-lo. O dever e a tarefa do escritor são as do tradutor.”7

Em sua textualidade, a evocação do passado é urdida, sobretudo, com os fios das sensações que bordam as cenas: a sonoridade da pequena frase de Vinteuil, o sabor da madeleine impregnada do chá de tília, o perfume dos pilriteiros em flor, a conjunção e a disjunção no espaço dos campanários de Martinville e todo aquele ar que envolve o caminho, às margens do Vivonne, lá pelos lados de Guermantes.

Em Marília, além das imagens que são, também, muito caras, faz corte profundo a marcação das lembranças pela via dos afetos: o agridoce mistério da maternidade, a fantasia de transmutação, aquele bicho carpinteiro que trabalha na noite insone, a insistência que resulta inútil da palavra saudade – e porque inútil, não cessa de se escrever – o aconchego na cadeira de balanço.

Em sua escrita, espaço e tempo se entretecem, produzindo letra marcada, transmutada, como o cristal da jarra, outrora transparente de água, vinho ou flor e, agora, com a trinca côncava, vasos como este (...) não há consertá-los mais.8

E, ao leitor, impregnando as cenas e os momentos, chegam os afetos, pulsá-teis, refratários ao recalque, sobreviventes, como a rolinha fogo-apagou, rubra, ainda tisnada do incêndio, insistente, que voa, que canta, incisiva. E aponta:

as rugas
a vertigem
a imagem aponta
o ponto nevrálgico
o relógio marca infinitamente
o tempo
de murchar as rosas do jardim.9
a solidão
vazia
transmutada
em poesia.10

É permitido falar de uma especifici-dade da escrita feminina? Ponto polêmico capaz de gerar controvérsias não só entre leigos e ingênuos leitores como entre pensadores da literatura. Considera Lúcia Castello Branco: “...penso que é necessário situar a escrita feminina em seu devido lugar, com toda a paixão que ela me provoca, mas talvez sem a compaixão que ela é capaz de provocar em outras apaixonadas.”11
Na poética de Marília Brandão, a mulher, desde menina, percorre os labirintos da feminilidade e, trilhando-os, desafia enigmas, invoca mistério, vive sobressaltos, muitas vezes angústia, tantas outras esplendor. Se a irrupção de tristeza invade, amarga, desampara e pranteia, tudo em vão ... Não consegue aniquilar seu objeto, que deixa, em seu rastro, uma cálida réstia de esperança... ainda.


I Médico. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG
1 PROUST, M. Em busca do tempo perdido: o tempo redescoberto, 1985.
2 BENJAMIN, W. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política, 1996.
3 CASTELLO BRANCO, L. Os absolutamente sós Llansol-A Letra-Lacan, 2000.
4 LACAN, J. Le Séminaire – Livre 18: D’un discours qui ne serait pas du semblant, Leçon 7, 12 mai 1971.
5 LLANSOL, M. G. Um falcão no punho: diário 1, 1985.
6 FREUD, S. Projeto para uma psicologia científica. Edição Standard Brasileira, 1976, v. 1.
7 PROUST, M. Em busca do tempo perdido: o tempo redescoberto, 1985.
8 LEMOS, M. B. Não há consertá-los mais, p.67, in Resíduos, 2004.
9 LEMOS, M. B. Tea Rose, p.58, in Resíduos, 2004.
10 LEMOS, M. B.. Só se mente, p.59, in Resíduos, 2004.
11 CASTELLO BRANCO, L. SILVIANO BRANDÃO, R. Literaterras: as bordas do corpo literário, 1995.
12 LEMOS, M. B. Senhora Tristeza, p.66, in Resíduos, 2004.


© 2010 Círculo Psicanalítico de Minas Gerais

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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CONGRESSO BRASILEIRO DE PSIQUIATRIA em Fortaleza, de 27/10 a 30/10/2010

NOTÍCIAS DO CBP http://www.cbpabp.org.br/noticias/exibNoticia/?not_id=175
28/10/2010
Congresso traz lançamentos de livros

Hoje cinco livros serão lançados no estande da Associação Brasileira de Psiquiatria. Às 10h30, o título “As Quatro Heranças do Homem”, do autor Gerardo Frota Pinto, lançado pela editora EDUFC; às 13 horas, é a vez de dois lançamentos da editora ABP, o “Entendendo os Transtornos Mentais: Projeto Psiquiatria para uma vida melhor”, dos autores Marco Antonio Brasil, João Alberto Carvalho, Luiz Alberto Hetem, João Carlos Dias e Antonio Leandro Nascimento, e o “PEC ABP – Programa de Educação Continuada”, dos autores Marco Antonio Alves Brasil, Neury José Botega, Luiz Alberto Hetem; já às 16 horas, ocorrerão os últimos lançamentos do dia, “Leme Lopes – Psiquiatria Moderna”, pela editora ABP, e “A História da Psiquiatria em Pernambuco e Outras Histórias”, do autor Othon Bastos, lançado pela editora EDUPE.

Na sexta-feira, serão mais seis títulos. “Psiquiatria e Psicanálise: Confluências e condutas clínicas – volume 2”, de João Alberto Carvalho, Claudio Rossi, Pedro Gomes, João Carlos Dias e Antônio Leandro Nascimento, às 10h30; no mesmo horário a “Avaliação dos centros de atenção psicossociais (CAPS) do Estado de São Paulo”, de Mauro Aranha; A partir das 13h, mais dois lançamentos simultâneos: “O Diagnóstico psiquiátrico ontem e hoje. E amanhã?”, de Luiz Salvador Miranda Sá Jr., e “Psicanálise e Contemporaneidade”, de Marília Brandão Lemos de Morais Kallas; às 16 h acontecerá o lançamento de “Psiquiatria por meio de casos clínicos”, de Jair Mari; e, por fim, às 18h30, será o título “Telefonemas na Crise – Percursos e desafios na prevenção do suicídio”, de Neury Botega, Isabel Ugarte da Silveira e Marisa Lucia Fabrício Mauro.

sábado, 6 de novembro de 2010

Poesia, Psicanálise e Ato Criativo: uma travessia poética

Marília Brandão Lemos Morais, Psicanalista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.Médica Psiquiatra.Autora do livro de poemas Resíduos, publicado em 2004 pela Editora B.Livro O sussurro das coisas, Biblioteca 24x7, 2010, Livro Psicanálise e Contemporaneidade, Biblioteca 24x7, 2010


Palavras-Chave: Arte - Poesia - Fantasia - Ato criativo - Ato psicanalítico - Objeto perdido - Representação de palavra - Representação de coisa - Pulsão sexual - Pulsão de morte - O Estranho - Sublimação - Poiesisanalista

Resumo:A autora aborda o tema da criação literária e poética fazendo um cotejamento entre os textos psicanalítico e poético, inspirada no dito freudiano de que o poeta fala, sem saber, aquilo que ele, Freud, chegará a concluir após muito estudo e reflexão. Cria algumas aproximações entre o trabalho do poeta e do psicanalista utilizando-se de poemas e escritos de vários escritores, e segue a premissa de que tanto a psicanálise quanto a poesia buscam vestígios e dão contornos para o objeto perdido (das Ding). Diz que uma travessia do autor pela escrita poética guarda semelhanças com a travessia do fantasma do final de análise pelo analisando e que o ato do psicanalista na sua arte de psicanalisar assemelha-se ao fazer criativo do poeta. Haveria um lugar para um poiesisanalista? (poiesis, de criar, fabricar)




Propus-me a abordar o tema Arte, Psicanálise e Ato Criativo pela via da poesia, dando voz aos poetas e escritores, criadores por excelência, e aos psicanalistas, artesãos no seu ofício, numa intertextualidade de onde pretendo emergir como uma Ariadne no labirinto da língua a seguir o fio condutor, como aquela que recorta, aproxima e se distancia do texto, emenda, forja atalhos, se oferece como textura, tecido ao texto a se fazer. Uma voz que se torna própria na medida em que, ao me apropriar de um patrimônio cultural, milenar da ars poética, e centenário da psicanálise, ofereço as mãos ao labor, e submeto-o a uma subjetividade. Um texto, retalho de várias vozes, polifonia, retábulo de lavores que se inscrevem por gerações, pentimentos de cores variadas a serem descobertas ao buril da linguagem, sob o gesto do autor. Policromia. Trata-se de lançar alguma luz às sombras, através de conceitos oriundos da psicanálise e da fala de alguns poetas, aos mistérios da criação poética e literária. Faço um cotejamento entre o texto poético e o texto psicanalítico, inspirada no dito freudiano de que o poeta fala, sem saber, aquilo que ele, Freud, chegará a concluir após muito estudo e reflexão. Crio algumas aproximações entre o trabalho do poeta e do psicanalista e realço a premissa de que tanto a psicanálise como a poesia procuram vestígios, buscam dar contornos ao indizível, ao objeto perdido desde sempre. É de um distanciamento com a linguagem, de um exílio que se escreve. De uma ignorância, no sentido de uma desaprendizagem, de uma quebra com o ver cotidiano, olhar como a primeira vez, com o deslumbramento de um des-saber, compromisso com nada.Deixar-se abraçar pelas coisas, que elas lhe atravessem, lhe sussurrem ruídos do arrastar das lesmas em seu trilho brilhante, do movimento das pernas das centopéias, pás dos remos dos barcos de Ulisses e viajar no murmúrio das ondas, no arfar cansado dos amantes, no zum das guilhotinas a cortar metáforas, todas já escritas, na simplicidade da verdade das formigas, no radar silencioso dos morcegos, no aprendizado da primeira letra, na quebra dos ouvidos viciados, na linguagem desacostumada, na coragem de calar, na inutilidade da arte, na escrita virgem da primeira viagem.A psicanálise necessita da palavra poética para falar do inefável. Ao contrário, a arte é, em si, capaz de comover o humano desde os primórdios da civilização.“E eis que, tendo Deus descansado no sétimo dia, os poetas continuaram a obra da Criação”, disse Mário Quintana no Caderno H.Criar como Deus cria, do Nada, do Caos primordial. Por muitos e muitos anos o artista se estancou na marginalidade, na única possibilidade um só Criador: Deus. Mas, o artista para criar, cria do despoder, da fraqueza humana, da impotência, e não da Onipotência Divina. Cria do desamparo, e não da Providência Divina. Cria da finitude, e não da Eternidade Divina. Cria do conflito, e não da Paz Celestial Divina. Cria da pobreza, e não dos Recursos Divinos. Como homens, nascemos do barro, sob o sopro divino. Como artistas, esculpimos o barro à nossa imagem e dessemelhança. Imagem que toca o fundo ser do olhar do outro que nos reconhece como espécie, indivíduo, semelhante. Semeiante, o artista semeador de grãos de liberdade para o homem que, constrito sob os signos da linguagem e aos limites de uma realidade externa, viabilizam um espaço onde ainda seja possível se mexer, quiçá voar.O poeta, um artesão de palavras que forja o verbo com martelo e bigorna. Forjar a coisicidade da mesma. Como disse Lacan, elevar a língua “à dignidade do indizível”(2) , do objeto perdido, do pulsional em seu efeito sublimatório que se sustenta sobre nada.Se aproximarmos o fazer psicanalítico e o poético, poderemos dizer que em ambos existe uma capacidade criadora capaz de instaurar novas realidades. A arte, diz o pintor suíço expressionista Paul Klee, “não reproduz o visível, ela faz visível” (3) , assim como o poema não reproduz o dizível, ele cria o dizível. A psicanálise, no seu fazer, cria para o analisando a possibilidade de realidades diferentes, de novas invenções de si mesmo. Na escuta do texto do seu cliente, o psicanalista cria palavras (e silêncios) com poder de gerar outras palavras, palavras-coisa, que tocam o Real, quebram sentidos e produzem efeitos simbólicos outros, que a repetição do mesmo.A arte e a literatura encontram-se nos pilares da construção psicanalítica, desde as primeiras formulações freudianas do Inconsciente e do complexo de Édipo, inspiradas em Sófocles e nas tragédias de Shakespeare. A referência à arte oferece certa universalidade e ancoradouro às incipientes teorizações de Freud, embasadas na sua auto-análise e na sua clínica. Grande leitor de poetas e escritores, em especial Goethe, o mais querido, ele lhes manifesta admiração e respeito, e coloca-os no lugar daqueles profundos conhecedores da alma humana. A arte e a literatura, na concepção do criador da psicanálise, seriam redutos do processo primário e o artista teria acesso privilegiado aos elementos do Inconsciente, pelo seu talento natural, numa perspicácia de vanguarda que lhe iluminaria caminhos ao porvir.Se Freud sempre singrou mares em busca de um estatuto científico para a psicanálise, há de se convir que nunca tenha deixado de embebedar-se no porto seguro de suas fontes primárias, a arte. Em seu ensaio de 1909 “O poeta e o fantasiar” (4) ,ele pergunta-se em que fontes o poeta se embriaga para criar suas obras.O poeta (Dichter na língua alemã) carrega consigo a fórmula de Ezra Pound: Dichter = condensare (5), e marca a poesia como a forma mais condensada de expressão verbal. A condensação do sonho é semelhante à metáfora poética, e a metonímia, deslizamento dos significantes, ao deslocamento das imagens oníricas ao vagar do desejo, numa outra aproximação entre o texto poético e o texto onírico. Neste ensaio (“O poeta e o fantasiar”), Freud compara o trabalho criativo do escritor ao da criança que brinca e encena criativamente, ação que lhe proporciona, através de um prazer prévio, de uma fruição, um jogo com o imponderável. Compara o poeta também ao adulto em devaneios, com seu fantasiar propiciador de cenas que encobrem, dentro de certos limites, o abismo de Real que ali subjaz. Todavia o escritor cria e expõe pela Bela Forma a sua fantasia, compondo uma cumplicidade com o leitor, que a toma para si, dela usufrui, e com ela realiza seus próprios anseios.Ninguém melhor para falar sobre poesia e ato criativo que o próprio poeta. João Cabral de Melo Neto, em uma entrevista ao “Caderno Mais” da Folha de São Paulo (6), diz, a respeito de seu processo de trabalho: “Estou com a visão muito ruim, dos dois olhos - acho difícil (escrever poemas sem o olhar). Eu, para escrever, preciso ver muito o que estou escrevendo... O poema, para mim, é como se eu pintasse um quadro. Preciso ver como é que está ficando a forma dele.” O olhar sustenta a palavra poética. A imagem sustenta a palavra poética. Imagem que recobre e descobre o nada no qual ela flutua. As palavras se abrem e se debruçam sobre o seu silêncio interior de imagem. A palavra à procura de suas fontes, de suas raízes, plantadas no nada. Escoamentos. A poesia é o desenho das palavras, não para se pintar ou descrever, mas para se descobrir.Freud fala que a imagem se encontra na raiz do verbal (7). A representação consciente (o pensamento) é integrada pela “representação das coisas” (Sachvorstellung), sistema Inconsciente, diferenciada em um processo originário, da “representação das palavras” (Wortvorstellung), sistema Pré-consciente-Consciente. As representações inconscientes encadeiam-se de acordo com as leis da linguagem e têm um caráter de imagens, quando investidas pelo desejo que, ao percorrê-las como uma descarga elétrica, as acende e produz uma corrente de visibilidade.Por onde desliza o desejo, a representação de coisas fixa-se na palavra, tornando-se visível para o sujeito, ou seja, consciente. As palavras remetem à materialidade sensorial, visual, sonora e corporal da representação, além ou aquém do significado proferido. Uma rede elétrica pulsional com luzes-representações, a acender e apagar ao sabor do desejo que a percorre e a faz cintilar estrelas.Antes da palavra existe alguma coisa que não é palavra. O pensamento pensa o que já era e é esse era que captura a palavra. Daremos voz a Clarice Lispector: “Minha nascente é obscura... Meu pensamento com a enunciação de palavras mentalmente brotando, este meu pensamento de palavras é precedido por uma instantânea visão sem palavras do pensamento, palavra que se seguirá quase imediatamente, diferença espacial de menos de um milímetro... Eu escrevo por meio de palavras que ocultam outras – as verdadeiras. É que as verdadeiras não podem ser denominadas. Mesmo que eu não saiba quais são as verdadeiras palavras, eu estou sempre me aludindo a elas... Às vezes a sensação de pré-pensar é agônica: é a tortuosa criação que se debate nas trevas e que só se liberta depois de pensar com palavras. (8)”Flaubert, ao falar de si como escritor, diz que, de belo, gostaria de fazer um livro sobre o nada, sem ligações externas, sustentado por si mesmo, pela forma interna de seu estilo, tal como a terra se mantém no espaço (9). Representações suspensas no vazio. No vazio do sujeito que se desfaz no intervalo fugidio entre dois significantes. Palavras suspensas no limbo da linguagem. Sustentadas pelo estilo. É no embate com o indizível, aludido por Clarice, nesta luta de palavras em torno de um sol que não desponta a madrugada, de uma eterna meia-noite, hora dos fantasmas e lobisomens, que o estilo, a singularidade irredutível, se faz no encontro-limite com a impossibilidade de dizer.O poeta Manoel de Barros escreveu um Livro sobre Nada.. Mas não como o nada de Flaubert, que se sustenta só no estilo. Nem sobre o nada metafísico. Mas o nada, nada mesmo, coisa nenhuma, sem utilidade, “um abridor de amanhecer”, “um alarme para o silêncio” (10) , numa poética de desaprender, de regredir a palavra ao seu começo, à sua face sem nome, que desemboca nesse “umbigo da escrita” (11) em que toda a significação se estanca e de onde se avança apenas pela ficção.Uma poética de escutar pedras, de ser árvore, de ler avencas, tornar-se xamã da língua e encarnar bichos, des-ser vegetal, chegar ao reino mineral, des-substanciar-se. Fugir da palavra costumeira, milagrar violetas, retratar o perfume e fazer do estilo um estigma que arranha ao léu, arrisca o traço, garatuja o verbo para falar do que não tem, e escrever um livro de nuvens, um “livro de areia”, um livro sobre nada.Estilo, de stylos, um estilete que risca o corpo da linguagem e produz um risco corporal, navalha na carne, que escarifica a pele e desenha desenho de bichos, os olhos dos bichos, garatujas de crianças, letras por onde jorram linfa e fel. Como Sade, escrever com seu próprio sangue e dejetos, fazer escrita das ruínas, dos restos, dos resíduos.Brincar com o corpo da mãe língua, riscar as coisas mesmas, a pedra da caverna, a casca de árvore, o barro, a argila a contornar o oco do vaso e cunhar a escrita primeira, escrita cuneiforme, riscos de bichos e ouvir mugidos de dinossauros, piados de fênix, o grito de Munch, tsunamis, inundações, o barulho do mar aprisionado na concha, o risco de uma estrela cadente, o canto de um sabiá...A poesia não é para ser interpretada, mas sim ouvida. Essa é a opinião de Antonin Artaud (12), para quem a voz, o registro do dizer e ouvir, torna-se imprescindível na leitura da mesma. Trazer a sensorialidade do poema, não só no registro do ver, mas do falar em voz alta, escandir as palavras, o sopro da respiração dando-lhe vida, convidá-lo a sair do papel e encantar nossos ouvidos, fazer emergir o charme da palavra, a entonação da voz, o ritmo, a melodia da poesia, jogar com as sonoridades, colocar o poema em ato, surpreender a orelha, fugir do sentido ordinário das palavras, acordar a língua.Na sua Poética como fazer versos, Mayakovsky fala do murmúrio do ritmo no poema e se pergunta: “De onde vem este ritmo-rumor de fundo? Impossível dizê-lo... pode ser produzido tanto pelo barulho repetido do mar, como pela criada que, quase todas as manhãs, faz bater à porta e este barulho repete-se, arrasta-se, penetrando na minha consciência e até o movimento da terra à volta do Sol, que para mim, como num armazém de material para lições de coisas, alterna e se liga de modo caricatural e inevitável com o vento que se levanta e assobia” (13).Ouçamos Lacan: “Mas basta escutar a poesia... para que se faça ouvir uma polifonia e se veja que todo o discurso se alinha nas várias pautas de uma partitura” (14).Em suas cartas ao jovem aprendiz (15), o poeta Rilke diz da sua necessidade imperiosa de escrever, acometendo-o na calada da noite, forçando-o ao gesto da escrita, e confessa, sinceramente, que morreria caso lhe fosse vedado escrever. Uma obra de arte só é boa quando nasce desta necessidade. Compara a criação intelectual à mesma essência, enlevada e eterna, da volúpia do corpo que revive, numa idéia criadora, as mil e uma noites de amor esquecidas, partes desse patrimônio humano que passa por gerações e gerações, evoca o futuro e eclode na solidão essencial de algum poeta vindouro.Desta necessidade visceral da escrita, nos explicita Marguerite Duras: “Não se pode escrever sem a força do corpo. É preciso ser mais forte do que si mesmo para abordar a escrita... o escrito é o grito das feras noturnas, de todos, de você e eu, o grito dos cães ... Ela ainda se acha como no primeiro dia. Selvagem... É a selvageria anterior à vida”... 916). Isto nos remete à criação freudiana do conceito de pulsão como território-limite, limite de continentes, terra e mar, corpo e linguagem, volúpia da carne e volúpia da alma, e mais ainda, ao conceito de pulsão na sua vertente quantitativa, como força, (Drang)“uma medida de exigência de trabalho que é imposta ao psíquico em conseqüência de sua ligação ao corporal” (17) e, mais além, aos conceitos de pulsão de vida e pulsão de morte, pulsão ligada ao pólo representacional e pulsão desligada, energia livre, a eterna antinomia de Eros e Thanatos.Desse dualismo do pólo pulsional e representacional da linguagem, desse intervalo constitutivo do psiquismo, dessa cisão radical entre as exigências da pulsão e os instrumentos de simbolização insuficientes para o sujeito, intervalo este denominado desamparo pelo discurso freudiano, é desse estado abissal e trágico de desamparo que o homem cria. A experiência artística e literária, assim como a psicanálise, possibilita um lugar em que o excesso e a intensidade pulsional, erótica, estruturem a realidade de forma estilizada e singular, organizem e constituam novos caminhos e inscrevam a pulsão no registro da simbolização. E o poeta a inscreve sob o dom poético, sob o talento bíblico de, a quem mais se dá, mais lhe será cobrado.A palavra estanca parcialmente o jorro de gozo que invade o psíquico, dá forma ao que não tem nome, enxuga os excessos. Permite ao autor colocar-se mais próximo ao pólo representacional da palavra ou ao pólo pulsional, num maior ou menor distanciamento e proximidade com o texto. O texto próximo ao pólo pulsional, aquele que se coloca na face-coisa da palavra, com a enunciação praticamente sobreposta ao enunciado, é um texto vivo, pulsátil, sem fôlego que conduz o leitor a vivências e identificações muito sensoriais, semelhantes àquelas que ele supõe que o autor tenha vivenciado e transforma a linguagem num palco onde o escritor encena seu drama (18). Se, como diz Fernando Pessoa, “o poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.”(19) Outros autores se colocam estrategicamente mais perto do pólo representacional da pulsão, marcando seus escritos com uma presença maior do deslocamento e da metonímia que de metáforas.Pode-se ainda pensar numa escrita rica de significantes que proliferam e deslizam infinitamente, até que advenha, sempre, a última noite das Mil e Uma e coloque um basta a este sem fim de palavras. Ou constata-se, ao contrário, uma escrita esvaziada de significantes, próxima ao sem sentido da letra. Se um poema é escrito na primeira pessoa, o Eu do poema não é necessariamente o do autor de carne e osso. O Eu que aí se apresenta é o de um personagem, de textura diversa do Eu que o poeta parece sustentar. Um descentramento do sujeito, não mais senhor de sua casa, mas submetido à linguagem, um exilado que não se reconhece em seu próprio texto (20). Um apagamento do Eu, descobrindo-se o estranho e desconhecido que o sujeito pode ser para ele mesmo. O autor emerge do intervalo vazio entre dois significantes, no clarão que acende o desejo. Lugar do sujeito do inconsciente, um dos destinos sublimatórios da pulsão (21).O melhor de mim são os personagens que me tomam, diz o Eu; direi a voz deles, nas suas próprias e na minha. Esta condição de exilado do texto, este estranhamento que pode nos causar a leitura de nosso próprio escrito, nos leva à surpreendente pergunta: Será que fui Eu quem escreveu Isso?Duas mãos escrevem o texto. Uma, da qual a caneta não desgruda, numa psicografia inconsciente e outra que recorta, sublinha, corta, refaz, pontua, coloca o um a mais das mil noites, o ponto final das infinitas pontuações. O escritor pontua sua presença. Duas inconsciências escrevem ao mesmo tempo. Duas inconsistências. Uma que não sabe de si e outra que quer se dar conta de si e se quer autor do seu próprio texto.Um autor se faz, quando seu texto transgride, se torna um risco, e indica um novo lugar, uma responsabilidade a mais deste autor (22). A arte é transgressora porque criada da amálgama da pulsão de vida e de morte, de Thanatos, potência criativa que subverte e transforma a ordem estabelecida.Colocar-se nesta posição de estrangeiro, de exilado da própria língua e manter vivo este intervalo, esta alteridade, é necessário, pois o que é o ato de escritura senão o que insurge neste espaço de desconhecimento do autor em relação à linguagem? O irlandês Samuel Beckett, que possuía um domínio extraordinário do inglês, sua língua-mãe, escolheu escrever seus livros em francês, língua na qual ele não tinha tanta fluência, de modo a ter que procurar com muito cuidado as palavras, encontrá-las com dificuldade e só depois de todo este esforço, vertê-las novamente para o inglês, um inglês novo que continha toda a dificuldade do francês, do pensamento forjado de uma segunda língua. E ser capaz de mudar o inglês para sempre. Ele dizia se sentir como a coisa que divide o mundo em dois, de um lado, o externo, de outro, o interno, e que podia ser tão fina como uma folha de papel, coisa dividida, coisa que fala. (Caderno Mais da Folha de S. Paulo de 09/04/2006)Ouçamos agora uma das lições de Rilke ao jovem aprendiz de poeta: “A arte também é uma maneira de viver. A gente pode preparar-se para ela sem o saber, vivendo de qualquer forma. Em tudo o que é verdadeiro está-se mais perto ...”(23)O poeta Manoel de Barros escreve:Quem acumula muita informação, perde o condão deadvinhar: divinare.Os sabiás divinam. (24)E passando dos divinos encantos de sabiás a anjos divinos, ouçamos novamente Rilke na sua primeira “Elegias do Duino”) onde ele canta: Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasseinesperadamente em seu coração, aniquilar-me-iasua existência demasiado forte. Pois que é o Belosenão o grau do Terrível, que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenhadestruir-nos? Todo Anjo é terrível. (25)Isto nos envia ao texto de Freud “O Estranho” (26), a esta surpreendente estranheza com tudo que é mais íntimo e familiar em nós, irrupção do que deveria permanecer oculto, mas veio à luz, e nos coloca diante da função do Belo em psicanálise, sustentação e falha do imaginário, lugar do equívoco, a ocultar e desvelar o horrível, e num repente, arremessar o homem frente a frente com sua transitoriedade e finitude. Um relâmpago, um lapso de imagem, efeito surpresa, impacto, faíscas de Eros e Thanatos, acompanhado de intensa angústia, se refere ao ponto em que o Belo, segundo Lacan, indica a sua relação com a morte em todo o seu resplendor de luz e sombras, de indefinição de fronteiras, quando a vida se mistura à morte e a morte invade a vida, região de desamparo (27). E a linguagem poética abre esta fenda à duplicidade do Belo/Horrível. A palavra revela e oculta ao mesmo tempo, a palavra bela, que carrega consigo “um sopro de morte”(Lacan), a palavra alada terrivelmente bela, reveladora do desamparo e incompletude do ser diante da ameaça de destruição, aparição do Anjo aniquilador rilkeano.Freud relata em seu belo texto “Sobre a transitoriedade” (28), estar passeando numa tarde de agosto de 1913 com seu amigo Rilke, por maravilhosos campos nas Dolomitas, quando o poeta, tomado de uma profunda nostalgia perante a beleza do cenário, lamenta a transitoriedade e a fugacidade do belo na Natureza, fadado a morrer no inverno, assim como toda a beleza humana, criada e a ser criada pelo homem, através da arte. Freud, ao contrário, valoriza a beleza justamente pela sua efemeridade. A melancolia do poeta o impede de usufruir das maravilhas da tarde, diante da possibilidade da dor da perda, e revela o efeito inquietador e comovente do Belo.A fugacidade do tempo, capturada no escrito. O tempo da escrita é um tempo sempre presente, infinitos segundos se sucedem rumo ao futuro e só se recuperam num passado representado, num continuum de um tempo sem tempo, onde o passado anseia o presente e o futuro se determina como aquilo que será lembrado, num lugar absurdo de um presente que sempre se esvai (29). E neste intervalo vazio, somos, nesta ausência de tempo e neste fascínio com o eterno presente sem presença. Um vazio do passado e um vazio do futuro se fazem presente nesta “solidão profética” (30) de um tempo que é para sempre agora, início sem fim, tempo de escrita.A deusa-mãe da Poesia e da Memória entrega Eros nos braços de Thanatos, entrega a vida nos braços da morte, berço-tumba pulsional, morte essa que na escrita faz presente e se torna uma promessa de imortalidade. “Escrevo, diz o poeta Lucio Cardoso - e meu coração pulsa... Escrevo apenas porque em mim alguma coisa não quer morrer e grita por sobrevivência.” (31)Escrever para não morrer. Como Scheerazade adiava a sua morte contando estórias para o sultão Schariyar. Uma voz que fala, uma voz de mulher fala, conta estórias de vida e de morte, encanta e é capaz de gerar vida. E se imortaliza nas Mil e uma Noites de estórias dentro de outras estórias, numa espiral do tempo, tempo presente, neste passado presentificado, rumo a um futuro que se quer presença. Freud diz em seu texto “O poeta e o fantasiar” sobre esta relação entre passado, presente e futuro interligados pelo fio do desejo. O escritor, no presente, busca em suas vivências passadas, material para o seu escrito e o lança no futuro, a dizer o que não sabe e mais do que quis dizer. O poema sabe mais que quem o escreve.Se a nossa infância nos fascina, é talvez por ser ela em si o tempo de fascinação, de estarmos fascinados com a fascinação materna, idade dourada, tábula rasa das primeiras impressões, fadadas a reluzirem vida afora, claro brilho de uma época, fonte de todos os poderes de encantamento. Mesmo se um poeta estivesse encerrado numa prisão minúscula, tendo à sua frente apenas muros embolorados, ainda assim tiraria o seu material poético de recordações de sua infância. Ou dos desenhos do bolor esverdeado impregnando os muros, ou dos odores que impregnam o espaço. Tudo a ser escrito já se encontra dentro de nós, basta achá-lo. O fascínio é o olhar da solidão, a solidão essencial à criação poética. Desfazer-se da fantasia grudada à carne e embrenhar-se neste fascinante e doloroso mundo da linguagem, como tartaruga arrancada do casco, frágil massa sem contornos, a procurar formas nas letras, para seu próprio ser. Água viva. Gelatina. Perder-se neste mundo de palavras em estado de dicionário, adormecidas na solidão seminal de seu repouso mortífero, encantar-lhes, dar-lhes vida e escapar desta agonia muda, desta selvageria pré-verbal, desta ancestral natureza animalesca anterior à aquisição da linguagem. E dali emergir com a palavra plena, fôlego para a angústia do inefável. Casco de tartaruga. Cascas de palavras.Se o poeta existe é necessário um leitor que o faça existir e a quem o poema se dirija. O leitor anônimo lerá o poema e nele falarão outras vozes além das que o poeta foi porta-voz, falarão vozes de antepassados, de avós, de mães, de babás, de tradições culturais, de suas fantasias inconscientes e, a cada leitor, o poema tocará de uma forma singular, nesta singularidade semelhante ao cavar de um poço, cada vez a embrenhar-se mais terra adentro, até que num determinado instante jorre água – sinal de haver-se encontrado o lençol universal comum a todos os outros poços individuais. Uma singularidade, um estilo a enlaçar o corpo social, e formar nos sujeitos um vínculo sublimatório em comum com o objeto que se perdeu. É necessário procurar esse leitor “sem saber onde ele está” (32), criar um espaço de outridade, possibilitador de uma dialética do desejo, de uma imprevisão, de uma surpresa, que os dados ainda não estejam lançados, que haja jogo. E esse leitor formará o seu próprio texto a partir de sua leitura. E esse leitor fará o poeta e o dirá.Texto significa tecido, teia, uma teia tecida com letras entrelaçadas pelo desejo travestido em aranha, uma aranha ilógica da escrita, arranha a pena ao papel e sem nenhuma pena, captura o leitor e o devora. E destas entranhas, desta estranha aranha-teia-texto, iniciar uma travessia. Uma travessia pela escrita (33), semelhante à travessia do fantasma do final de análise, onde o escritor atravessa e deixa-se atravessar pela linguagem, viagem na qual, através do próprio trilhamento, um autor se constitua, nos percalços desta teia-aranha, ao se arranhar na castração e ao procurar a sublime-ação de tecer e destecer a própria escrita, a própria história, de enxugar inundações, cortar por atalhos, encurtar caminhos, desinvestir ideais, desvestir fantasias, criando uma nova relação com a linguagem, uma nova rearticulação simbólica do sujeito diante do Real. E nas errâncias dessa travessia, literária e analítica, emergir como um sujeito-autor. Assim como o analisando no final de análise faz de seu complicado romance familiar um conto esteticamente mais elegante e moderno, através das pontuações do analista que interroga, exclama, corta, coloca um ponto e vírgula, às vezes dois pontos, ou entre parênteses, ou aspas, ou acento grave, agudos, asteriscos, reticências, até chegar ao ponto final, talvez possa algum analisando descobrir, ou reencontrar, através da análise, o seu dom poético e realizar uma travessia poética, criar das sobras, dos resíduos, restos de desejos, um poema, ou, quem sabe, um livro de poemas.E se esse analisando se tornar algum dia psicanalista, certamente se tornará um poiesisanalista: poiesis, de criar, fabricar, de confeccionar um terceiro personagem para além do analista e do poeta. E este não seria o lugar já, ou a ser ocupado pelo psicanalista na sua arte de psicanalisar, se pensarmos nas suas interpretações e silêncios, nas suas pontuações telegráficas como atos criativos similares à palavra nua do poeta, palavra-meia, e que, através escuta e das intervenções ao texto do analisando, permite ao mesmo desvincular-se de suas fixações, repetições e propicia-lhe inventar para si um novo script?A arte (assim como a psicanálise) reluzirá sempre o esplendor do objeto perdido e ocultará o seu mistério indevassável, mítico, e resistirá num casulo, num núcleo inacessível a quaisquer interpretações de sentido e, espero, a qualquer tentativa de devastação por parte do próprio homem, seu criador. Ela impulsionará, silenciosa, o arco e flecha de Eros, a fisgar e enlaçar humanos, erótica e afetivamente, criando vínculos sociais, civilizatórios e éticos. Se exibe, despida sob véus, para ser usufruída, fruída em seu charme e fascínio encantatórios, sem nunca se tornar totalmente compreendida, explicada ou devassada. E quanto à chave da criação poética, segredo revelado a alguns mortais ungidos pela Graça Divina, esta foi achada por Drummond durante sua “Procura da poesia” (34) , no exato momento em que o poeta nos pergunta:
Chega mais perto e contempla as palavras.Cada umatem mil faces secretas sob a face neutrae te pergunta, sem interesse pela resposta,pobre ou terrível, que lhe deres:Trouxeste a chave?”


Notas1- Trabalho apresentado na Jornada Centro-Sul do Círculo Brasileiro de Psicanálise.2- LACAN, J. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 19883- KLEE, Paul. Tagebücher Von Paul Klee 1898 - 1918. Publicado e prefaciado por Klee, Félix. Cologne: s/ed., 1957, p.1081. Citado por KON, Noemi Moritz. De Poe a Freud - O gato preto. In Psicanálise, literatura e estética de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 20014- FREUD, S. Escritores criativos e seus devaneios. ESB. Rio de Janeiro : Imago, 1980, v. IX.5- POUND, Ezra. ABC da literatura. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 1997.6- Entrevista de João Cabral de Melo Neto a Geraldo Couto em 25/05/1994, publicada no "Caderno Mais" do jornal Folha de S. Paulo e editada no livro Memórias do Presente: 100 entrevistas do "Mais": 1992-2002: Conhecimento das Artes / Adriano Shwartz, (org.) - São Paulo: Publifolha, 2003, p. 155.7- FREUD, S. O Inconsciente. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980,v. XIV.8- LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida (pulsações). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.9- FLAUBERT, G. Correspondance. Ed. J. Bruneau, Bibl. Plêiade. Paris: Gallimard, 1973.10- BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 2. Rio de Janeiro: Record, 1996.11- CASTELO BRANCO, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.12- REY, Jean Michel. O nascimento da poesia: Antonin Artaud. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.13- MAYAKÓVSKY, Vladmir. Poética como fazer versos. 4. ed. São Paulo: Global, 1984, p. 31.14- LACAN, J., citado por BRASIL, Hórus Vital. Dois ensaios entre psicanálise e literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1992, p. 25.15- RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. São Paulo: Globo, 2001.16- DURAS, Marguerite. Escrever. Rio de janeiro: Rocco, 1994, p. 23.17- FREUD, S. As pulsões e seus destinos. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XIV.18- CARVALHO, Ana Cecília. Pulsão e simbolização: limites da escrita. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago, 2001.19- PESSOA, Fernando. Autopsicografia in: Obra poética. Biblioteca luso-brasileira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977, p. 164.20- SOUSA, Edson Luiz André. Totumcalmum. A condição de exílio da escrita. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago, 2001.21- Sobre o psiquismo e sujeito do inconsciente como destino das pulões, ver BIRMAN, Joesl. Estilo e modernidade em psicanálise. São Paulo: ed.34, 1997 e BARTUCCI, Giovanna. Entre o mesmo e o duplo no ato de escrever. In Psicanálise, literatura e estética de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2001.22- FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Lisboa: Vega, 1992.23- RILKE, Rainer Maria. Elegias do Duíno. 4. ed. Rio de Janeiro: Globo, p. 3.24- BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.25- RILKE, Rainer Maria. Elegias do Dúino. Idem26- FREUD, S. O estranho. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XVII.27- FRANÇA, Maria Inês. Psicanálise, estética e ética do desejo. São Paulo: Perspectiva, 1997.28- FREUD, S. Sobre a transitoriedade. ESB. Rio de Janeiro: Imago 1980, v. XIV.29- CASTELLO BRANCO, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.30- BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987, p. 249.31- CARDOSO, Lúcio. Diário completo. Rio de Janeiro: José Olímpio / Instituto Nacional do Livro, 1970. Citado no artigo de Ruth Silviano Brandão: A vida escrita: os impasses do escrever. In Psicanálise, literatura e estética de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 43.32- BARTHES, Roland. O prazer do texto. 3.ed. São Paulo: Perspectiva, 2002, p. 9.33- BRANDÃO, Ruth Silviano. A vida escrita: os impasses do escrever. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 15734- ANDRADE, Carlos Drummond. Procura da poesia. In A rosa do povo. Reunião (10 livros de poesia). 5.ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1973, p. 76.Bibliografia ANDRADE, Carlos Drummond. Procura da poesia. In A rosa do povo. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1973.BARROS, Manoel. Livro sobre nada. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.BARTHES, Roland. O prazer do texto. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.BARTUCCI, Giovanna. Entre o mesmo e o duplo inscreve-se a alteridade. Psicanálise freudiana e escritura borgiana. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2001.BARTUCCI, Giovanna. (org.). Psicanálise, arte e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2002.BIRMAN, Joel. Estilo e modernidade em psicanálise. São Paulo: Ed. 34, 1997.BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.BRANDÃO, Ruth Silviano. A vida escrita: os impasses do escrever. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago, 2001.BRASIL, Hórus Vital. Dois ensaios entre psicanálise e literatura. 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As pulsões e seus destinos, v. XIV.FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, v. VII.FREUD, S. Além do princípio do prazer, v.XVIII.JORGE, Marco A. Coutinho, FERREIRA, Nadiá P. Lacan, o grande freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.JUNIOR, Nelson da Silva. A ficcionalidade da psicanálise a partir do inquietante em Fernando Pessoa. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago, 2001.KATZ, Chaim S., KUPERMANN, Daniel, MOSÉ, Viviane. (org). Beleza, feiura e psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa / Formação Freudiana, 2004.KEHL, Maria Rita. “Minha vida daria um romance”. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago, 2001.KON, Noemi Moritz. De Poe a Freud – O gato preto. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago, 2001.LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. 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Rio de Janeiro: Imago, 2001.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

STYLOS é premiado no IX Prêmio Literário Livraria Asabeça 2010

Acabo de saber que fui uma das contempladas do Concurso Literário Livraria ASABEÇA 2010 com o poema "STYLOS", que transcrevo aqui.Este poema está publicado no livro "O SUSSURRO DAS COISAS". Confira:http://www.concursosliterarios.com.br/materias.php?cd_secao=326&codant=

S
T
Y
L
O
S

Estilo, de stylos
um estilete risca o corpo
da linguagem
risco corporal
navalha na carne
escarifica a pele
desenha tatuagem de bichos
os olhos dos bichos
garatujas de criança
letras jorram linfa e fel.
Como Sade
escrever o próprio sangue e dejetos
fazer escrita das ruinas
dos restos
dos resíduos.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Eleições

se somos os nós
desatados
Nós os ataremos
se somos os Vós sem voz
não nos calaremos
os avos a mais das frações
os menos das facções
os avós da Plaza de Mayo
não desistiremos
se somos Ele ou parte dele
nos incluiremos
se somos os deserdados da morte
seremos os premiados da sorte
se não somos Tu, a ti recorreremos
se não somos Você, te cobraremos
se não somos Eu, venceremos

domingo, 3 de outubro de 2010

PSICANÁLISE É TEMA DE LIVRO (retirado do Jornal da Associação Médica de Minas Gerais)


O livro Psicanálise e Contemporaneidade
(Ed. Biblioteca 24x7), da psiquiatra
Marília Brandão, diretora da Associação
Mineira de Psiquiatria, foi lançado no dia
17 de agosto, na sede da Associação Médica
de Minas Gerais. A obra é resultado
da reunião de diversos artigos publicados
pela médica em revistas nacionais e estrangeiras.
Brandão fala da psicanálise em
sua interface com a arte, literatura, poesia,
humor e tragédia, através de textos de escritores
brasileiros consagrados. Os textos
tratam de problemas como o transtorno
do pânico, anorexia, bulimia, dentre outras
doenças comportamentais. À venda na Associação
Mineira de Psiquiatria ou pelos site
www.biblioteca24x7.com.br. Mais informações:
(31) 3213 7457.
http://www.ammg.org.br/jornal/edicao_124/page07.pdf

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Jornada do Fórum de Psicanálise do CPMG

Em 24 e 25/09/2010 se dará a Jornada do Fórum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, cujo tema será: Sexualidade e Inconsciente, com a presença de psicanalistas de Belo Horizonte e outros estados. Estaremos coordenando a mesa redonda no dia 25/09 às 8:30 h. com os seguintes trabalhos:1.Sublimação-em relação à troca de objeto, de Maria Pompéia Gomes Pires(CPMG) e 2. A experiência da feminilidade e a produção do sublime: algumas implicações, de Luciano de Souza Dias.
Na véspera, às 17:15h., lançaremos o livro Psicanálise e Contemporaneidade: Arte, Literatura, Poesia, Humor, Corpo, Pânico, Anorexia, Bulimia. Outros autores estarão lançando seus livros na mesma hora.

Lançamento: Psicanálise e Contemporaneidade:Arte,Literatura,Poesia,Humor,Corpo,Pânico,Anorexia,Bulimia,na Jornada do CPMG em 24/09

domingo, 12 de setembro de 2010

HERANÇAS

Viver não se resolve com dinheiro, mas com vida, alegria, saude, amigos, família.Herança de carinho, de princípios, de fé, de boa vontade, compaixão, esta é a verdadeira herança, o legado a se deixar.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

TEMPO


A Vida é curta:Curta!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A Bienal Internacional do Livro de São Paulo

No dia 21 de agosto estive presente na Bienal Internacional do Livro, no stand da Editora Biblioteca 24x7, para lançamento dos livros de minha autoria: "Psicanálise e Contemporaneidade: Arte, Literatura, Poesia, Humor, Corpo, Pânico, Anorexia, Bulimia" e o de poemas "O Sussurro das Coisas". Fiquei impressionada com a efervecência da vida cultural em São Paulo e com a quantidade de público presente no evento.Centenas de stands de editoras e livrarias visitados por milhares de pessoas interessadas.Que coisa maravilhosa!!!!!!!!E tive o prazer de conhecer pessoalmente alguns autores e o editor da Biblioteca 24x7. Parabéns para a Biblioteca 24x7!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

PsICANÁLISE, POESIA E ATO CRIATIVO: Uma Travessia Poética

Marília Brandão Lemos Morais Kallas. Psicanalista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, Psiquiatra, Poeta com o livro de poemas “Resíduos” publicado em 2004 pela Editora B e “O sussurro das coisas” em 2010 pela Biblioteca 24x7

Resumo: A autora faz um cotejamento entre o texto psicanalítico e o texto poético utilizando-se de poemas e escritos de vários poetas, e segue a premissa de que tanto a psicanálise quanto a poesia buscam vestígios e contornos para o indizível e que uma travessia do autor pela poesia guarda semelhanças com a travessia da fantasia do final de análise pelo analisando e o ato do psicanalista na sua arte de psicanalisar assemelha-se ao fazer criativo do poeta. Haveria um lugar para um poiesisanalista? (poiesis, de criar, fabricar)
Palavras-chave: Arte – Poesia – Ato criativo – Ato psicanalítico – Das Ding – Objeto perdido – representação de palavra – representação de coisa – pulsão sexual – pulsão de morte – das unheimlich – fantasia fundamental -

Propus-me a abordar o tema “Arte, Psicanálise e Ato Criativo” pela via da poesia, dando voz aos poetas e escritores, criadores por excelência e aos psicanalistas, artesãos em seu ofício, numa intertextualidade onde pretendo emergir como uma Ariadne no labirinto da língua a seguir o fio condutor, como aquela que recorta, aproxima e se distancia do texto, emenda, forja atalhos, se oferece como textura, tecido ao texto a se fazer. Uma voz que se torna própria na medida em que, ao me apropriar de um patrimônio cultural, milenar da ars poética, e centenário da psicanálise, ofereço as mãos ao labor, e submeto-o a uma subjetividade. Um texto, retalho de várias vozes, polifonia, retábulo de lavores que se inscrevem por gerações, pentimentos de cores variadas a serem descobertas ao buril da linguagem, sob o gesto do autor, policromia.
Faço um cotejamento entre o texto poético e o texto psicanalítico, inspirada no dito freudiano de que o poeta fala sem saber, aquilo que ele, Freud, chegará a concluir após muito estudo e reflexão. Crio algumas aproximações entre o trabalho do poeta e do psicanalista e realço a premissa de que, tanto a psicanálise como a poesia, procura vestígios, busca dar contornos ao indizível, ao objeto perdido desde sempre.
É de um distanciamento com a linguagem, de um exílio que se escreve. De uma ignorância, no sentido de uma desaprendizagem, de uma quebra com o ver cotidiano, olhar como a primeira vez, com o deslumbramento de um des-saber, compromisso com nada.
Deixar-se abraçar pelas coisas, que elas lhe atravessem, lhe sussurrem ruídos do arrastar das lesmas em seu trilho brilhante, do movimento das pernas das centopéias, remos dos barcos de Ulisses, e viajar no murmúrio das ondas, no arfar cansado dos amantes, no zum das guilhotinas a cortar metáforas, todas já escritas, na simplicidade da verdade das formigas, no radar silencioso dos morcegos, no aprendizado da primeira letra, na quebra dos ouvidos viciados, na linguagem desacostumada, na coragem de calar, na inutilidade da arte, na escrita virgem da primeira viagem.
A psicanálise necessita da palavra poética para falar do inefável. Ao contrário, a arte é, em si, capaz de comover o humano desde os primórdios da civilização.
“E eis que, tendo Deus descansado no sétimo dia, os poetas continuaram a obra da Criação”, disse Mário Quintana em Caderno H.
Criar como Deus cria, do Nada, do Caos primordial. Por muitos e muitos anos, o artista se estancou na marginalidade, na única possibilidade um só Criador: Deus. Mas, o artista para criar, cria do despoder, da fragilidade humana, da impotência, e não da Onipotência Divina. Cria do desamparo, e não da Providência Divina. Cria da finitude, e não da Eternidade Divina. Cria do conflito, e não da Paz Celestial Divina. Cria da pobreza, e não dos Recursos Divinos. Como homens, nascemos do barro, sob o sopro divino. Como artistas, esculpimos o barro à nossa imagem e dessemelhança. Imagem que toca o fundo ser do olhar do outro que nos reconhece como espécie, indivíduo, semelhante. Semeiante, o artista semeador de sementes de liberdade para o homem que, constrito sob os signos da linguagem e aos limites de uma realidade externa, viabilizam um espaço onde ainda seja possível se mexer, quiçá voar.
O poeta, um artesão de palavras que forja o verbo com martelo e bigorna. Forjar a coisicidade da mesma. Como disse Lacan, elevar a língua “à dignidade do indizível”(1), do objeto perdido, do pulsional em seu efeito sublimatório que se sustenta sobre nada.
Se aproximarmos o fazer psicanalítico e o poético, poderemos dizer que, em ambos existe uma capacidade criadora capaz de instaurar novas realidades. A arte, diz o pintor suíço expressionista Paul Klee, “não reproduz o visível, ela faz visível” (2), assim como o poema não reproduz o dizível, ele cria o dizível. A psicanálise no seu fazer, cria para o analisando a possibilidade de realidades diferentes, de novas invenções de si mesmo. Na escuta do texto do seu cliente, o psicanalista cria palavras (e silêncios) com poder de gerar outras palavras, palavras-coisa, que tocam o Real, quebram sentidos, e produzem efeitos simbólicos outros, que a repetição do mesmo.
Ninguém melhor para falar sobre poesia e ato criativo que o próprio poeta. João Cabral de Melo Neto, em uma entrevista ao “Caderno Mais” da Folha de São Paulo(5), diz a respeito de seu processo de trabalho: “Estou com a visão muito ruim, dos dois olhos - acho difícil (escrever poemas sem o olhar). Eu, para escrever preciso ver muito o que estou escrevendo...O poema, para mim, é como se eu pintasse um quadro. Preciso ver como é que está ficando a forma dele.”
O olhar sustenta a palavra poética. A imagem sustenta a palavra poética. Imagem que recobre e descobre o nada no qual ela flutua. As palavras se abrem e se debruçam sobre o seu silêncio interior de imagem. A palavra à procura de suas fontes, de suas raízes, plantadas no nada. Escoamentos. A poesia é o desenho das palavras, não para se pintar ou descrever, mas para se descobrir.
Freud fala que a imagem encontra-se na raiz do verbal(6). A representação consciente (o pensamento) é integrada pela “representação das coisas”, sistema Inconsciente, diferenciada em um processo originário, da “representação das palavras” sistema Pré-consciente-Consciente. As representações inconscientes encadeiam-se de acordo com as leis da linguagem e tem um caráter de imagens, quando investidas pelo desejo que, ao percorrê-las como uma descarga elétrica, as acende e produz uma corrente de visibilidade. Por onde desliza o desejo, a representação de coisas fixa-se na palavra, tornando-se visível para o sujeito, ou seja, consciente. As palavras remetem à materialidade sensorial, visual, sonora e corporal da representação, além ou aquém do significado proferido. Uma rede elétrica pulsional com luzes-representações, a acender e apagar ao sabor do desejo que a percorre e a faz cintilar
Flaubert, ao falar de si como escritor, diz que, de belo, gostaria de fazer um livro sobre o nada, sem ligações externas, sustentado por si mesmo, pela forma interna de seu estilo, tal como a terra se mantém no espaço. (8) Representações suspensas no vazio. No vazio do sujeito que se desfaz no intervalo fugidio entre dois significantes. Palavras suspensas no limbo da linguagem. Sustentadas pelo estilo.
É no embate com o indizível, na luta de palavras em torno de um sol que não desponta a madrugada, de uma eterna meia-noite, hora dos fantasmas e lobisomens, que o estilo, a singularidade irredutível, se faz no encontro-limite com a impossibilidade de dizer.
O poeta Manoel de Barros escreveu um “Livro sobre Nada”(9). Mas não como o nada de Flaubert, que se sustenta só no estilo. Nem sobre o nada metafísico. Mas o nada, nada mesmo, coisa nenhuma, sem utilidade, “um abridor de amanhecer”, “um alarme para o silêncio”(9), numa poética de desaprender, de regredir a palavra ao seu começo, à sua face sem nome, que desemboca nesse “umbigo da escrita”(10) em que toda a significação se estanca e de onde se avança apenas pela ficção. Uma poética de escutar pedras, de ser árvore, de ler avencas, tornar-se xamã da língua e encarnar bichos, des-ser vegetal, chegar ao reino mineral, des-substanciar-se. Fugir da palavra costumeira, milagrar violetas, retratar o perfume e fazer do estilo um estigma que arranha ao léu, arrisca o traço, garatuja o verbo para falar do que não tem, e escrever um livro de nuvens, um livro de areia, um livro sobre nada.
Estilo, de stylos, um estilete que risca o corpo da linguagem e produz um risco corporal, navalha na carne, que escarifica a pele e desenha tatuagens de bichos, os olhos dos bichos, garatujas de crianças, letras por onde jorram linfa e fel. Como Sade, escrever com seu próprio sangue e dejetos, fazer escrita das ruínas, dos restos, dos resíduos.
Brincar com o corpo da mãe língua, riscar as coisas mesmas, a pedra da caverna, a casca de árvore, o barro, a argila a contornar o oco do vaso e cunhar a escrita primeira, escrita cuneiforme, riscos de bichos e ouvir mugidos de dinossauros, piados de fênix, o grito de Munch, tsunamis, inundações, o barulho do mar aprisionado na concha, o risco de uma estrela cadente, o canto de um sabiá...
A poesia não é para ser interpretada, mas sim ouvida. Essa é a opinião de Antonin Artaud,(11) para quem a voz, o registro do dizer e ouvir torna-se imprescindível na leitura da mesma. Trazer a sensorialidade do poema, não só no registro do ver, mas do falar em voz alta, escandir as palavras, o sopro da respiração dando-lhe vida, convidá-lo a sair do papel e encantar nossos ouvidos, fazer emergir o seu charme, a entonação da voz, o ritmo, a melodia da poesia, jogar com as sonoridades, colocar o poema em ato, surpreender a orelha, fugir do sentido ordinário das palavras, acordar a língua.
Em suas cartas ao jovem aprendiz,(14) o poeta Rilke diz da sua necessidade imperiosa, de escrever, acometendo-o na calada da noite, forçando-o ao gesto da escrita, e confessa sinceramente, que morreria caso lhe fosse vedado escrever. Uma obra de arte só é boa quando nasce desta necessidade. Compara a criação intelectual à mesma essência, enlevada e eterna, da volúpia do corpo, que revive, numa idéia criadora, as mil e uma noites de amor esquecidas, partes desse patrimônio humano que passa por gerações e gerações, evoca o futuro e eclode na solidão essencial de algum poeta vindouro.
Desta necessidade visceral da escrita, nos explicita Marguerite Duras: (15) “Não se pode escrever sem a força do corpo. É preciso ser mais forte do que si mesmo para abordar a escrita...o escrito é o grito das feras noturnas, de todos, de você e eu, o grito dos cães ...Ela ainda se acha como no primeiro dia. Selvagem... É a selvageria anterior à vida”...
Isto nos remete à criação freudiana do conceito de pulsão como território-limite, limite de continentes, terra e mar, corpo e linguagem, volúpia da carne e volúpia da alma, e mais ainda, ao conceito de pulsão na sua vertente quantitativa, como força “uma medida de exigência de trabalho que é imposta ao psíquico em conseqüência de sua ligação ao corporal,”(16)e, mais além, aos conceitos de pulsão de vida e pulsão de morte, pulsão ligada ao pólo representacional e pulsão desligada, energia livre, a eterna antinomia de Eros e Thanatos.
Desse dualismo do polo pulsional e representacional da linguagem, desse intervalo constitutivo do psiquismo, dessa cisão radical entre as exigências da pulsão e os instrumentos de simbolização insuficientes para o sujeito, intervalo este denominado desamparo pelo discurso freudiano, é desse estado abissal e trágico de desamparo que o homem cria. A experiência artística e literária, assim como a psicanálise, possibilita um lugar em que o excesso e a intensidade pulsional, erótica, estruturem a realidade de forma estilizada e singular, organizem e constituam novos caminhos e inscrevam a pulsão no registro da simbolização. E o poeta a inscreve sob o dom poético, sob o talento bíblico de, a quem mais se dá, mais lhe será cobrado.
Se um poema é escrito na primeira pessoa, o Eu do poema não é necessariamente o autor de carne e osso. O Eu que aí se apresenta poderá ser um personagem, de textura diversa do Eu que o poeta parece sustentar. Um descentramento do sujeito, não mais senhor de sua casa, mas submetido à linguagem, um exilado que não se reconhece em seu próprio texto. Um apagamento do Eu, descobrindo-se o estranho e desconhecido que o sujeito pode ser para ele mesmo. O autor emerge do intervalo vazio entre dois significantes, no clarão que acende o desejo. Lugar do sujeito do inconsciente, um dos destinos sublimatórios da pulsão.(17)
O melhor de mim são os personagens que me tomam, diz o Eu; direi a voz deles, nas suas próprias e na minha. Esta condição de exilado do texto,(18) este estranhamento que pode nos causar a leitura de nosso próprio escrito, nos leva à surpreendente pergunta – será que fui Eu quem escreveu Isso?
Duas mãos escrevem o texto. Uma, de quem a caneta não desgruda, numa psicografia inconsciente e outra que recorta, sublinha, corta, refaz, pontua, coloca o um a mais das mil noites, o ponto final das infinitas pontuações. O escritor pontua sua presença. Duas inconsciências escrevem ao mesmo tempo. Duas inconsistências. Uma que não sabe de si e outra que quer dar-se conta de si e se quer autor do seu próprio texto.
Um autor se faz, quando seu texto transgride, se torna um risco, e indica um novo lugar, uma responsabilidade a mais deste autor.(19)A arte é transgressora porque criada da amálgama da pulsão de vida e de morte, de Thanatos, potência criativa que subverte e transforma a ordem estabelecida.
Colocar-se nesta posição de estrangeiro, de exilado da própria língua e manter vivo este intervalo, esta alteridade, é necessário, pois o que é o ato de escritura senão aquilo que insurge neste espaço de desconhecimento do autor em relação à linguagem?
O poeta Manoel de Barros alude ao tema dizendo:
“Quem acumula muita informação, perde o condão de
advinhar: divinare.
Os sabiás divinam.”(20)
E passando dos divinos encantos de sabiás a anjos divinos, ouçamos Rilke na sua primeira “Elegia de Duino”,(21) onde ele canta:
Todo Anjo é terrível.”
Isto nos envia ao texto de Freud “O Estranho”,(22) a esta surpreendente estranheza com tudo que nos é mais íntimo e familiar, irrupção do que deveria permanecer oculto mas veio à luz, e nos coloca frente à função do Belo em psicanálise, sustentação e falha do imaginário, lugar do equívoco, a ocultar e desvelar o horrível, e num repente, arremessar o homem frente a frente à sua transitoriedade e finitude. Um relâmpago, um lapso de imagem, efeito surpresa, impacto, faíscas de Eros e Thanatos, acompanhado de intensa angústia, se refere ao ponto que o Belo, segundo Lacan, indica a sua relação com a morte em todo o seu resplendor de luz e sombras, de indefinição de fronteiras, quando a vida se mistura à morte e a morte invade a vida, região de desamparo. (23)
A linguagem poética abre esta fenda à duplicidade do Belo/Horrível. A palavra desvela e oculta ao mesmo tempo, a palavra bela carrega consigo “um sopro de morte”,(Lacan) a palavra alada terrivelmente bela, reveladora do desamparo e incompletude do ser frente à ameaça de destruição, aparição do Anjo aniquilador rilkeano.
Freud relata em seu belo texto “Sobre a transitoriedade”,(24) estar passeando numa tarde de agosto de 1913 com seu amigo Rilke, por maravilhosos campos nas Dolomitas, quando o poeta, tomado de uma profunda nostalgia frente à beleza do cenário, lamenta a transitoriedade e a fugacidade do belo na Natureza, fadado a morrer no inverno, assim como toda a beleza humana, criada, e a ser criada pelo homem, através da Arte. Freud, ao contrário, valoriza a beleza justamente pela sua efemeridade. A melancolia do poeta impede que ele usufrua das maravilhas da tarde, diante da possibilidade da dor da perda, e revela o efeito inquietador e comovente do Belo.
A fugacidade do tempo, capturada no escrito. O tempo da escrita é um tempo sempre presente, infinitos segundos se sucedem rumo ao futuro e só se recuperam num passado representado, num continuum de um tempo sem tempo, onde o passado anseia o presente e o futuro se determina como aquilo que será lembrado, num lugar absurdo de um presente que sempre se esvai.(25) E neste intervalo vazio, somos, nesta ausência de tempo e neste fascínio com o eterno presente sem presença.
A deusa-mãe da Poesia e da Memória entrega Eros nos braços de Thanatos, entrega a vida nos braços da morte, berço-tumba pulsional, morte essa que na escrita faz presente e se torna uma promessa de imortalidade.
“Escrevo, diz o poeta Lucio Cardoso - e meu coração pulsa... Escrevo apenas porque em mim alguma coisa não quer morrer e grita por sobrevivência.” (27)
Escrever para não morrer. Como Scheerazade adiava a sua morte contando estórias para o sultão Schariyar. Uma voz que fala, uma voz de mulher que fala e conta estórias de vida e de morte, encanta e é capaz de gerar vida. E se imortalizar nas Mil e uma Noites de estórias dentro de outras estórias, numa espiral do tempo, tempo presente, neste passado presentificado, rumo a um futuro que se quer presença.
Freud diz em seu texto “O Poeta e o fantasiar”(28)sobre esta relação entre passado, presente e futuro interligados pelo fio do desejo. O escritor, no presente, busca em suas vivências passadas, material para o seu escrito e o lança no futuro, a dizer o que não sabe e mais do que quis dizer. O poema sabe mais que quem o escreve.
Se a nossa infância nos fascina, talvez por ser ela em si o tempo de fascinação, de estarmos fascinados com a fascinação materna, esta idade dourada, tábula rasa das primeiras impressões fadadas a reluzirem vida a fora, claro brilho de uma época, fonte de todos os poderes de encantamento. Mesmo se um poeta estivesse encerrado numa prisão minúscula, tendo à sua frente apenas muros embolorados, ainda assim tiraria o seu material poético de recordações de sua infância. Ou dos desenhos do bolor esverdeado impregnando os muros, ou dos odores que impregnam o espaço. Tudo a ser escrito já se encontra dentro de nós, basta achá-lo.
O fascínio é o olhar da solidão, a solidão essencial à criação poética. Desfazer-se da fantasia grudada à carne e embrenhar-se neste fascinante e doloroso mundo da linguagem como tartaruga arrancada do casco, frágil massa sem contornos, a procurar formas nas letras para seu próprio ser. Água viva. Gelatina. Perder-se neste mundo de palavras em estado de dicionário, adormecidas na solidão seminal de seu repouso mortífero, encantar-lhes, dar-lhes vida e escapar desta agonia muda, desta selvageria pré-verbal, desta ancestral natureza animalesca anterior à aquisição da linguagem. E dali emergir com a palavra plena, fôlego para a angústia do inefável. Casco de tartaruga. Cascas de palavras.
Se o poeta existe é necessário um leitor que o faça existir e a quem o poema se dirija. O leitor anônimo lerá o poema e nele falarão outras vozes além daquelas que o poeta foi porta-voz, falarão vozes de antepassados, de avós, de mães, de babás, de tradições culturais, de fantasias inconscientes e, a cada leitor o poema tocará de uma forma singular, nesta singularidade semelhante ao cavar de um poço, cada vez mais a embrenhar-se terra adentro, até que num determinado instante jorre água – sinal de haver-se encontrado o lençol universal comum a todos os outros poços individuais. Uma singularidade, um estilo a enlaçar sujeitos e formar vínculos em comum com o objeto que se perdeu.
Texto significa tecido, teia, uma teia tecida com letras entrelaçadas pelo desejo travestido em aranha, uma aranha ilógica da escrita, arranha a pena ao papel e sem nenhuma pena, captura o leitor e o devora. E destas entranhas, desta estranha aranha-teia-texto, iniciar uma travessia. Uma travessia pela escrita,(30)semelhante à travessia da fantasia do final de análise, onde o escritor atravessa e deixa-se atravessar pela
linguagem, viagem na qual, através do próprio trilhamento, um sujeito, um autor se constitua, nos percalços desta teia-aranha, ao se arranhar na castração e ao procurar a sublime-ação de tecer e destecer a própria escrita, a própria história, de enxugar inundações, cortar por atalhos, encurtar caminhos, desinvestir ideais, desvestir fantasias, e criar uma nova relação com a linguagem, uma nova rearticulação simbólica diante do Real. E nas errâncias dessa travessia, emergir como um sujeito-autor.
Assim como o analisando no final de análise faz de seu complicado romance familiar um conto esteticamente mais elegante e moderno, através das pontuações do analista que interroga, exclama, corta, coloca um ponto e vírgula, às vezes dois pontos, ou entre parênteses, ou aspas, ou acento grave, agudos, asteriscos, reticências, até chegar ao ponto final, talvez possa algum analisando descobrir, ou reencontrar, através da análise, o seu dom poético e realizar uma travessia poética, criar das sobras, dos resíduos, restos de desejos, um poema, ou, quem sabe, um livro de poemas.
E se este analisando se tornar algum dia psicanalista, certamente se tornará um poiesisanalista: poieses, de criar, fabricar. E este não seria o lugar ocupado pelo psicanalista, na sua arte de psicanalisar, se pensarmos nas suas interpretações e silêncios, nas suas pontuações telegráficas, como atos criativos similares à palavra nua do poeta, não toda, enigmática, e que através escuta e das intervenções ao texto do analisando, permite ao mesmo desvincular-se de suas fixações, repetições e propicia-lhe inventar para si um novo script?
A arte reluzirá sempre o esplendor do objeto perdido e ocultará o seu mistério indevassável, mítico, e resistirá num casulo, num núcleo inacessível a quaisquer interpretações de sentido. Impulsionará, silenciosa, o arco e flecha de Eros, a fisgar e enlaçar humanos, erótica e afetivamente, criando vínculos sociais, civilizatórios e éticos. Se exibe, despida sob véus, para ser usufruída, fruída em seu charme e fascínio encantatórios, sem nunca tornar-se totalmente compreendida, explicada ou devassada.
E quanto à chave da criação poética, segredo revelado a alguns mortais ungidos pela Graça Divina, esta foi achada por Drummond durante sua “Procura da poesia”,(31) no exato momento em que o poeta nos pergunta:
“Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?”


NOTAS
(1) - LACAN, J. O seminário 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988
(2) KLEE, Paul. Tagebücher von Paul Klee 1898-1918. Publicado e prefaciado por Klee, Felix. Cologne:s/ed.,1957, p.1081. Citado por KON, Noemi Moritz. De Poe a Freud-O gato preto. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001.
(3) – FREUD, S. Escritores criativos e seus devaneios. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. IX.
(4) - POUND, Erza. ABC da literatura. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 1997.
(5) – Entrevista de João Cabral de Melo Neto a Geraldo Couto em 25/05/1994, publicada no “Caderno Mais” do jornal Folha de São Paulo e editada no livro Memórias do Presente: 100 entrevistas do “Mais”: 1992-2002: Conhecimento das Artes / Adriano Shwartz, (org.) – São Paulo: Publifolha, 2003. Pág. 155.
(6) – FREUD, S. O Inconsciente. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XIV.
(7) – LISPECTOR, Clarisse. Um sopro de vida (Pulsações). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
(8) – .FLAUBERT, G. Correspondance. Ed. J. Bruneau, Bibl. Plêiade, Paris: Gallimard,
(9) – BARROS, Manoel. Livro sobre nada. 2. Ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
(9) – Idem, pág. 7.
1973.
(10) - CASTELLO BRANCO, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.
(11) - REY, Jean Michel. O nascimento da poesia: Antonin Artaud. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
(12) - LACAN, J., citado por BRAZIL, Hórus Vital. Dois ensaios entre psicanálise e literatura. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992. Pag. 25.
(13) - MAYAKÓVSKY, Vladmir. Poética como fazer versos. 4. ed. São Paulo: Global Ed., 1984. Pág. 31.
(14) - RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. São Paulo: Globo, 2001.
(15) – DURAS, Marguerite. Escrever. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. Pag. 23.
(16) – FREUD, S . As pulsões e seus destinos. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XIV.
(17) – Sobre o psiquismo e sujeito do inconsciente como destino das pulsões, ver BIRMAN, Joel. Estilo e modernidade em psicanálise. Ed. 34. São Paulo: 1997 e BARTUCCI, Giovanna. Entre o mesmo e o duplo no ato de escrever. In Psicanálise, literatura e estéticas da subjetivação. Imago Ed., 2001.
(18) SOUZA, Edson Luiz André. Totumcalmum. A condição de exílio da escrita. In Psicanálise, literatura e estéticas da subjetivação. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001.
(19) – FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Lisboa: Vega Ed., 1992.
(20) – BARROS, Manoel. Livro sobre nada. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
(21) – RILKE, Rainer Maria. Elegias do Duíno. 4.ed.Rio de Janeiro: Ed. Globo. Pág. 3.
(22) - FREUD, S. O estranho. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XVII.
(23) - FRANÇA, Maria Inês. Psicanálise, estética e ética do desejo. São Paulo: Perspectiva, 1997.

(24) – FREUD, S. Sobre a transitoriedade. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XIV.
(25) - CASTELLO BRANCO, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.
(26) - BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. Pág. 249.
(27) CARDOSO, Lúcio. Diário completo. Rio de Janeiro: José Olímpio Ed. / Instituto nacional do livro, 1970. Citado no artigo de Ruth Silviano Brandão: A vida escrita: os impasses do escrever. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001. Pág. 43.
(28) – FREUD, S. Escritores criativos e seus devaneios. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. IX.
(29) – BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva Ed., 3. ed. 2002. Pag. 9.
(30) – BRANDÃO, Ruth Silviano. A vida escrita: os impasses do escrever. In Psicanálise, Literatura e estéticas da subjetivação. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001. Pág. 157.
(31) - ANDRADE, Carlos Drummond. Procura da poesia. In A rosa do povo. Reunião (10 livros de poesia). 5. ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1973. Pág. 76.

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MAYAKÓVSKY, Vladmir. Poética como fazer versos. 4. ed. São Paulo: Global Ed., 1984. Pág. 31.
MORAIS, Marilia Brandão Lemos K. Psicanálise, arte e literatura. In Reverso, n. 46, Belo Horizonte, 1999. Publicação do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.
_______________ . O poeta e o fantasiar. In Reverso, n. 50, Belo Horizonte, 2003.
Publicação do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG.
_______________ .A ética trágica da psicanálise via As Bacantes, de Eurípedes. In Reverso, n. 45, Belo Horizonte, 1998. Publicação do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG.
PASSERON, René. Por uma poïanálise. In Correio da APPOA. Psicanálise e ato criativo. Porto Alegre, ano IX, (78), abril de 2000.
POUND, Erza. ABC da literatura. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 1997.
QUINET, Antonio. Um olhar a mais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
REY, Jean Michel. O nascimento da poesia: Antonin Artaud. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. São Paulo: Globo, 2001.
_______________ . Elegias do Duíno. 4.ed.Rio de Janeiro: Ed. Globo. Pág. 3.
RIVERA, Tânia. Arte e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
SALIBA, Ana Maria Portugal. Não há decifração. Há o sorriso. In Griphus n. , 2000. Publicação do IEPSI. Belo Horizonte, MG.
SCHWARTZ, Adriano, (org.). Memórias do presente: 100 entrevistas do “Mais”: 1992-2002: Conhecimento das artes. São Paulo: Publifolha, 2003.
SOUSA, Edson Luiz André. Totumcalmum. A condição de exílio da escrita. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001.
SOUZA, Eneida Maria. Madame Bovary somos nós. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001.


quarta-feira, 14 de julho de 2010

PSICANÁLISE E CONTEMPORANEIDADE: Arte, Literatura, Poesia, Humor, Corpo, Pânico, Anorexia, Bulimia

Este livro é a reunião de diversos artigos da psiquiatra e psicanalista Marilia Brandão Lemos, publicados em congressos e editados em revistas de psicanálise nacionais e internacionais.

domingo, 11 de julho de 2010

O Estranho-Familiar( Das Unheimliche)


"O Estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar." S. Freud. Quadro"No chão da cozinha(Onça e azulejos)", de Fernando Velloso.

sábado, 3 de julho de 2010

Epígrafe de "O sussurro das coisas"


Tinha um menino que saía todo dia
E a primeira coisa que ele olhava e recebia como surpresa ou
pena ou amor, naquela coisa ele virava,
E aquela coisa virava parte dele o dia todo ou parte do dia...
ou por muitos anos ou longos ciclos de anos.

Walt Whitman (Folhas de Relva)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

LANÇAMENTO DE "O SUSSURRO DAS COISAS" em conjunto com a Revista REVERSO

O lançamento primeiro de "O sussurro das coisas", livro de poemas de Marília Brandão Lemos, se dará em 01 de julho de 2010, no auditório do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, à Rua Maranhão 734/andar 3, Bairro Santa Efigênia, Belo Horizonte, às 20:00 h. Será por ocasião do lançamento da Revista Reverso n. 59, publicação do CPMG. Contamos com a sua presença.

sábado, 19 de junho de 2010

POESIA, PSICANÁLISE E ATO CRIATIVO: Uma travessia poética

Marília Brandão Lemos Morais Kallas. Psicanalista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, Psiquiatra, Poeta com o livro de poemas “Resíduos” publicado em 2004 pela Editora B e “O sussurro das coisas” em 2010 pela Biblioteca 24x7

Resumo: A autora faz um cotejamento entre o texto psicanalítico e o texto poético utilizando-se de poemas e escritos de vários poetas, e segue a premissa de que tanto a psicanálise quanto a poesia buscam vestígios e contornos para o indizível e que uma travessia do autor pela poesia guarda semelhanças com a travessia da fantasia do final de análise pelo analisando e o ato do psicanalista na sua arte de psicanalisar assemelha-se ao fazer criativo do poeta. Haveria um lugar para um poiesisanalista? (poiesis, de criar, fabricar)
Palavras-chave: Arte – Poesia – Ato criativo – Ato psicanalítico – Das Ding – Objeto perdido – representação de palavra – representação de coisa – pulsão sexual – pulsão de morte – das unheimlich – fantasia fundamental -

Propus-me a abordar o tema “Arte, Psicanálise e Ato Criativo” pela via da poesia, dando voz aos poetas e escritores, criadores por excelência e aos psicanalistas, artesãos em seu ofício, numa intertextualidade onde pretendo emergir como uma Ariadne no labirinto da língua a seguir o fio condutor, como aquela que recorta, aproxima e se distancia do texto, emenda, forja atalhos, se oferece como textura, tecido ao texto a se fazer. Uma voz que se torna própria na medida em que, ao me apropriar de um patrimônio cultural, milenar da ars poética, e centenário da psicanálise, ofereço as mãos ao labor, e submeto-o a uma subjetividade. Um texto, retalho de várias vozes, polifonia, retábulo de lavores que se inscrevem por gerações, pentimentos de cores variadas a serem descobertas ao buril da linguagem, sob o gesto do autor, policromia.
Faço um cotejamento entre o texto poético e o texto psicanalítico, inspirada no dito freudiano de que o poeta fala sem saber, aquilo que ele, Freud, chegará a concluir após muito estudo e reflexão. Crio algumas aproximações entre o trabalho do poeta e do psicanalista e realço a premissa de que, tanto a psicanálise como a poesia, procura vestígios, busca dar contornos ao indizível, ao objeto perdido desde sempre.
É de um distanciamento com a linguagem, de um exílio que se escreve. De uma ignorância, no sentido de uma desaprendizagem, de uma quebra com o ver cotidiano, olhar como a primeira vez, com o deslumbramento de um des-saber, compromisso com nada.
Deixar-se abraçar pelas coisas, que elas lhe atravessem, lhe sussurrem ruídos do arrastar das lesmas em seu trilho brilhante, do movimento das pernas das centopéias, remos dos barcos de Ulisses, e viajar no murmúrio das ondas, no arfar cansado dos amantes, no zum das guilhotinas a cortar metáforas, todas já escritas, na simplicidade da verdade das formigas, no radar silencioso dos morcegos, no aprendizado da primeira letra, na quebra dos ouvidos viciados, na linguagem desacostumada, na coragem de calar, na inutilidade da arte, na escrita virgem da primeira viagem.
A psicanálise necessita da palavra poética para falar do inefável. Ao contrário, a arte é, em si, capaz de comover o humano desde os primórdios da civilização.
“E eis que, tendo Deus descansado no sétimo dia, os poetas continuaram a obra da Criação”, disse Mário Quintana em Caderno H.
Criar como Deus cria, do Nada, do Caos primordial. Por muitos e muitos anos, o artista se estancou na marginalidade, na única possibilidade um só Criador: Deus. Mas, o artista para criar, cria do despoder, da fragilidade humana, da impotência, e não da Onipotência Divina. Cria do desamparo, e não da Providência Divina. Cria da finitude, e não da Eternidade Divina. Cria do conflito, e não da Paz Celestial Divina. Cria da pobreza, e não dos Recursos Divinos. Como homens, nascemos do barro, sob o sopro divino. Como artistas, esculpimos o barro à nossa imagem e dessemelhança. Imagem que toca o fundo ser do olhar do outro que nos reconhece como espécie, indivíduo, semelhante. Semeiante, o artista semeador de sementes de liberdade para o homem que, constrito sob os signos da linguagem e aos limites de uma realidade externa, viabilizam um espaço onde ainda seja possível se mexer, quiçá voar.
O poeta, um artesão de palavras que forja o verbo com martelo e bigorna. Forjar a coisicidade da mesma. Como disse Lacan, elevar a língua “à dignidade do indizível”(1), do objeto perdido, do pulsional em seu efeito sublimatório que se sustenta sobre nada.
Se aproximarmos o fazer psicanalítico e o poético, poderemos dizer que, em ambos existe uma capacidade criadora capaz de instaurar novas realidades. A arte, diz o pintor suíço expressionista Paul Klee, “não reproduz o visível, ela faz visível” (2), assim como o poema não reproduz o dizível, ele cria o dizível. A psicanálise no seu fazer, cria para o analisando a possibilidade de realidades diferentes, de novas invenções de si mesmo. Na escuta do texto do seu cliente, o psicanalista cria palavras (e silêncios) com poder de gerar outras palavras, palavras-coisa, que tocam o Real, quebram sentidos, e produzem efeitos simbólicos outros, que a repetição do mesmo.
Ninguém melhor para falar sobre poesia e ato criativo que o próprio poeta. João Cabral de Melo Neto, em uma entrevista ao “Caderno Mais” da Folha de São Paulo(5), diz a respeito de seu processo de trabalho: “Estou com a visão muito ruim, dos dois olhos - acho difícil (escrever poemas sem o olhar). Eu, para escrever preciso ver muito o que estou escrevendo...O poema, para mim, é como se eu pintasse um quadro. Preciso ver como é que está ficando a forma dele.”
O olhar sustenta a palavra poética. A imagem sustenta a palavra poética. Imagem que recobre e descobre o nada no qual ela flutua. As palavras se abrem e se debruçam sobre o seu silêncio interior de imagem. A palavra à procura de suas fontes, de suas raízes, plantadas no nada. Escoamentos. A poesia é o desenho das palavras, não para se pintar ou descrever, mas para se descobrir.
Freud fala que a imagem encontra-se na raiz do verbal(6). A representação consciente (o pensamento) é integrada pela “representação das coisas”, sistema Inconsciente, diferenciada em um processo originário, da “representação das palavras” sistema Pré-consciente-Consciente. As representações inconscientes encadeiam-se de acordo com as leis da linguagem e tem um caráter de imagens, quando investidas pelo desejo que, ao percorrê-las como uma descarga elétrica, as acende e produz uma corrente de visibilidade. Por onde desliza o desejo, a representação de coisas fixa-se na palavra, tornando-se visível para o sujeito, ou seja, consciente. As palavras remetem à materialidade sensorial, visual, sonora e corporal da representação, além ou aquém do significado proferido. Uma rede elétrica pulsional com luzes-representações, a acender e apagar ao sabor do desejo que a percorre e a faz cintilar
Flaubert, ao falar de si como escritor, diz que, de belo, gostaria de fazer um livro sobre o nada, sem ligações externas, sustentado por si mesmo, pela forma interna de seu estilo, tal como a terra se mantém no espaço. (8) Representações suspensas no vazio. No vazio do sujeito que se desfaz no intervalo fugidio entre dois significantes. Palavras suspensas no limbo da linguagem. Sustentadas pelo estilo.
É no embate com o indizível, na luta de palavras em torno de um sol que não desponta a madrugada, de uma eterna meia-noite, hora dos fantasmas e lobisomens, que o estilo, a singularidade irredutível, se faz no encontro-limite com a impossibilidade de dizer.
O poeta Manoel de Barros escreveu um “Livro sobre Nada”(9). Mas não como o nada de Flaubert, que se sustenta só no estilo. Nem sobre o nada metafísico. Mas o nada, nada mesmo, coisa nenhuma, sem utilidade, “um abridor de amanhecer”, “um alarme para o silêncio”(9), numa poética de desaprender, de regredir a palavra ao seu começo, à sua face sem nome, que desemboca nesse “umbigo da escrita”(10) em que toda a significação se estanca e de onde se avança apenas pela ficção. Uma poética de escutar pedras, de ser árvore, de ler avencas, tornar-se xamã da língua e encarnar bichos, des-ser vegetal, chegar ao reino mineral, des-substanciar-se. Fugir da palavra costumeira, milagrar violetas, retratar o perfume e fazer do estilo um estigma que arranha ao léu, arrisca o traço, garatuja o verbo para falar do que não tem, e escrever um livro de nuvens, um livro de areia, um livro sobre nada.
Estilo, de stylos, um estilete que risca o corpo da linguagem e produz um risco corporal, navalha na carne, que escarifica a pele e desenha tatuagens de bichos, os olhos dos bichos, garatujas de crianças, letras por onde jorram linfa e fel. Como Sade, escrever com seu próprio sangue e dejetos, fazer escrita das ruínas, dos restos, dos resíduos.
Brincar com o corpo da mãe língua, riscar as coisas mesmas, a pedra da caverna, a casca de árvore, o barro, a argila a contornar o oco do vaso e cunhar a escrita primeira, escrita cuneiforme, riscos de bichos e ouvir mugidos de dinossauros, piados de fênix, o grito de Munch, tsunamis, inundações, o barulho do mar aprisionado na concha, o risco de uma estrela cadente, o canto de um sabiá...
A poesia não é para ser interpretada, mas sim ouvida. Essa é a opinião de Antonin Artaud,(11) para quem a voz, o registro do dizer e ouvir torna-se imprescindível na leitura da mesma. Trazer a sensorialidade do poema, não só no registro do ver, mas do falar em voz alta, escandir as palavras, o sopro da respiração dando-lhe vida, convidá-lo a sair do papel e encantar nossos ouvidos, fazer emergir o seu charme, a entonação da voz, o ritmo, a melodia da poesia, jogar com as sonoridades, colocar o poema em ato, surpreender a orelha, fugir do sentido ordinário das palavras, acordar a língua.
Em suas cartas ao jovem aprendiz,(14) o poeta Rilke diz da sua necessidade imperiosa, de escrever, acometendo-o na calada da noite, forçando-o ao gesto da escrita, e confessa sinceramente, que morreria caso lhe fosse vedado escrever. Uma obra de arte só é boa quando nasce desta necessidade. Compara a criação intelectual à mesma essência, enlevada e eterna, da volúpia do corpo, que revive, numa idéia criadora, as mil e uma noites de amor esquecidas, partes desse patrimônio humano que passa por gerações e gerações, evoca o futuro e eclode na solidão essencial de algum poeta vindouro.
Desta necessidade visceral da escrita, nos explicita Marguerite Duras: (15) “Não se pode escrever sem a força do corpo. É preciso ser mais forte do que si mesmo para abordar a escrita...o escrito é o grito das feras noturnas, de todos, de você e eu, o grito dos cães ...Ela ainda se acha como no primeiro dia. Selvagem... É a selvageria anterior à vida”...
Isto nos remete à criação freudiana do conceito de pulsão como território-limite, limite de continentes, terra e mar, corpo e linguagem, volúpia da carne e volúpia da alma, e mais ainda, ao conceito de pulsão na sua vertente quantitativa, como força “uma medida de exigência de trabalho que é imposta ao psíquico em conseqüência de sua ligação ao corporal,”(16)e, mais além, aos conceitos de pulsão de vida e pulsão de morte, pulsão ligada ao pólo representacional e pulsão desligada, energia livre, a eterna antinomia de Eros e Thanatos.
Desse dualismo do polo pulsional e representacional da linguagem, desse intervalo constitutivo do psiquismo, dessa cisão radical entre as exigências da pulsão e os instrumentos de simbolização insuficientes para o sujeito, intervalo este denominado desamparo pelo discurso freudiano, é desse estado abissal e trágico de desamparo que o homem cria. A experiência artística e literária, assim como a psicanálise, possibilita um lugar em que o excesso e a intensidade pulsional, erótica, estruturem a realidade de forma estilizada e singular, organizem e constituam novos caminhos e inscrevam a pulsão no registro da simbolização. E o poeta a inscreve sob o dom poético, sob o talento bíblico de, a quem mais se dá, mais lhe será cobrado.
Se um poema é escrito na primeira pessoa, o Eu do poema não é necessariamente o autor de carne e osso. O Eu que aí se apresenta poderá ser um personagem, de textura diversa do Eu que o poeta parece sustentar. Um descentramento do sujeito, não mais senhor de sua casa, mas submetido à linguagem, um exilado que não se reconhece em seu próprio texto. Um apagamento do Eu, descobrindo-se o estranho e desconhecido que o sujeito pode ser para ele mesmo. O autor emerge do intervalo vazio entre dois significantes, no clarão que acende o desejo. Lugar do sujeito do inconsciente, um dos destinos sublimatórios da pulsão.(17)
O melhor de mim são os personagens que me tomam, diz o Eu; direi a voz deles, nas suas próprias e na minha. Esta condição de exilado do texto,(18) este estranhamento que pode nos causar a leitura de nosso próprio escrito, nos leva à surpreendente pergunta – será que fui Eu quem escreveu Isso?
Duas mãos escrevem o texto. Uma, de quem a caneta não desgruda, numa psicografia inconsciente e outra que recorta, sublinha, corta, refaz, pontua, coloca o um a mais das mil noites, o ponto final das infinitas pontuações. O escritor pontua sua presença. Duas inconsciências escrevem ao mesmo tempo. Duas inconsistências. Uma que não sabe de si e outra que quer dar-se conta de si e se quer autor do seu próprio texto.
Um autor se faz, quando seu texto transgride, se torna um risco, e indica um novo lugar, uma responsabilidade a mais deste autor.(19)A arte é transgressora porque criada da amálgama da pulsão de vida e de morte, de Thanatos, potência criativa que subverte e transforma a ordem estabelecida.
Colocar-se nesta posição de estrangeiro, de exilado da própria língua e manter vivo este intervalo, esta alteridade, é necessário, pois o que é o ato de escritura senão aquilo que insurge neste espaço de desconhecimento do autor em relação à linguagem?
O poeta Manoel de Barros alude ao tema dizendo:
“Quem acumula muita informação, perde o condão de
advinhar: divinare.
Os sabiás divinam.”(20)
E passando dos divinos encantos de sabiás a anjos divinos, ouçamos Rilke na sua primeira “Elegia de Duino”,(21) onde ele canta:
Todo Anjo é terrível.”
Isto nos envia ao texto de Freud “O Estranho”,(22) a esta surpreendente estranheza com tudo que nos é mais íntimo e familiar, irrupção do que deveria permanecer oculto mas veio à luz, e nos coloca frente à função do Belo em psicanálise, sustentação e falha do imaginário, lugar do equívoco, a ocultar e desvelar o horrível, e num repente, arremessar o homem frente a frente à sua transitoriedade e finitude. Um relâmpago, um lapso de imagem, efeito surpresa, impacto, faíscas de Eros e Thanatos, acompanhado de intensa angústia, se refere ao ponto que o Belo, segundo Lacan, indica a sua relação com a morte em todo o seu resplendor de luz e sombras, de indefinição de fronteiras, quando a vida se mistura à morte e a morte invade a vida, região de desamparo. (23)
A linguagem poética abre esta fenda à duplicidade do Belo/Horrível. A palavra desvela e oculta ao mesmo tempo, a palavra bela carrega consigo “um sopro de morte”,(Lacan) a palavra alada terrivelmente bela, reveladora do desamparo e incompletude do ser frente à ameaça de destruição, aparição do Anjo aniquilador rilkeano.
Freud relata em seu belo texto “Sobre a transitoriedade”,(24) estar passeando numa tarde de agosto de 1913 com seu amigo Rilke, por maravilhosos campos nas Dolomitas, quando o poeta, tomado de uma profunda nostalgia frente à beleza do cenário, lamenta a transitoriedade e a fugacidade do belo na Natureza, fadado a morrer no inverno, assim como toda a beleza humana, criada, e a ser criada pelo homem, através da Arte. Freud, ao contrário, valoriza a beleza justamente pela sua efemeridade. A melancolia do poeta impede que ele usufrua das maravilhas da tarde, diante da possibilidade da dor da perda, e revela o efeito inquietador e comovente do Belo.
A fugacidade do tempo, capturada no escrito. O tempo da escrita é um tempo sempre presente, infinitos segundos se sucedem rumo ao futuro e só se recuperam num passado representado, num continuum de um tempo sem tempo, onde o passado anseia o presente e o futuro se determina como aquilo que será lembrado, num lugar absurdo de um presente que sempre se esvai.(25) E neste intervalo vazio, somos, nesta ausência de tempo e neste fascínio com o eterno presente sem presença.
A deusa-mãe da Poesia e da Memória entrega Eros nos braços de Thanatos, entrega a vida nos braços da morte, berço-tumba pulsional, morte essa que na escrita faz presente e se torna uma promessa de imortalidade.
“Escrevo, diz o poeta Lucio Cardoso - e meu coração pulsa... Escrevo apenas porque em mim alguma coisa não quer morrer e grita por sobrevivência.” (27)
Escrever para não morrer. Como Scheerazade adiava a sua morte contando estórias para o sultão Schariyar. Uma voz que fala, uma voz de mulher que fala e conta estórias de vida e de morte, encanta e é capaz de gerar vida. E se imortalizar nas Mil e uma Noites de estórias dentro de outras estórias, numa espiral do tempo, tempo presente, neste passado presentificado, rumo a um futuro que se quer presença.
Freud diz em seu texto “O Poeta e o fantasiar”(28)sobre esta relação entre passado, presente e futuro interligados pelo fio do desejo. O escritor, no presente, busca em suas vivências passadas, material para o seu escrito e o lança no futuro, a dizer o que não sabe e mais do que quis dizer. O poema sabe mais que quem o escreve.
Se a nossa infância nos fascina, talvez por ser ela em si o tempo de fascinação, de estarmos fascinados com a fascinação materna, esta idade dourada, tábula rasa das primeiras impressões fadadas a reluzirem vida a fora, claro brilho de uma época, fonte de todos os poderes de encantamento. Mesmo se um poeta estivesse encerrado numa prisão minúscula, tendo à sua frente apenas muros embolorados, ainda assim tiraria o seu material poético de recordações de sua infância. Ou dos desenhos do bolor esverdeado impregnando os muros, ou dos odores que impregnam o espaço. Tudo a ser escrito já se encontra dentro de nós, basta achá-lo.
O fascínio é o olhar da solidão, a solidão essencial à criação poética. Desfazer-se da fantasia grudada à carne e embrenhar-se neste fascinante e doloroso mundo da linguagem como tartaruga arrancada do casco, frágil massa sem contornos, a procurar formas nas letras para seu próprio ser. Água viva. Gelatina. Perder-se neste mundo de palavras em estado de dicionário, adormecidas na solidão seminal de seu repouso mortífero, encantar-lhes, dar-lhes vida e escapar desta agonia muda, desta selvageria pré-verbal, desta ancestral natureza animalesca anterior à aquisição da linguagem. E dali emergir com a palavra plena, fôlego para a angústia do inefável. Casco de tartaruga. Cascas de palavras.
Se o poeta existe é necessário um leitor que o faça existir e a quem o poema se dirija. O leitor anônimo lerá o poema e nele falarão outras vozes além daquelas que o poeta foi porta-voz, falarão vozes de antepassados, de avós, de mães, de babás, de tradições culturais, de fantasias inconscientes e, a cada leitor o poema tocará de uma forma singular, nesta singularidade semelhante ao cavar de um poço, cada vez mais a embrenhar-se terra adentro, até que num determinado instante jorre água – sinal de haver-se encontrado o lençol universal comum a todos os outros poços individuais. Uma singularidade, um estilo a enlaçar sujeitos e formar vínculos em comum com o objeto que se perdeu.
Texto significa tecido, teia, uma teia tecida com letras entrelaçadas pelo desejo travestido em aranha, uma aranha ilógica da escrita, arranha a pena ao papel e sem nenhuma pena, captura o leitor e o devora. E destas entranhas, desta estranha aranha-teia-texto, iniciar uma travessia. Uma travessia pela escrita,(30)semelhante à travessia da fantasia do final de análise, onde o escritor atravessa e deixa-se atravessar pela
linguagem, viagem na qual, através do próprio trilhamento, um sujeito, um autor se constitua, nos percalços desta teia-aranha, ao se arranhar na castração e ao procurar a sublime-ação de tecer e destecer a própria escrita, a própria história, de enxugar inundações, cortar por atalhos, encurtar caminhos, desinvestir ideais, desvestir fantasias, e criar uma nova relação com a linguagem, uma nova rearticulação simbólica diante do Real. E nas errâncias dessa travessia, emergir como um sujeito-autor.
Assim como o analisando no final de análise faz de seu complicado romance familiar um conto esteticamente mais elegante e moderno, através das pontuações do analista que interroga, exclama, corta, coloca um ponto e vírgula, às vezes dois pontos, ou entre parênteses, ou aspas, ou acento grave, agudos, asteriscos, reticências, até chegar ao ponto final, talvez possa algum analisando descobrir, ou reencontrar, através da análise, o seu dom poético e realizar uma travessia poética, criar das sobras, dos resíduos, restos de desejos, um poema, ou, quem sabe, um livro de poemas.
E se este analisando se tornar algum dia psicanalista, certamente se tornará um poiesisanalista: poieses, de criar, fabricar. E este não seria o lugar ocupado pelo psicanalista, na sua arte de psicanalisar, se pensarmos nas suas interpretações e silêncios, nas suas pontuações telegráficas, como atos criativos similares à palavra nua do poeta, não toda, enigmática, e que através escuta e das intervenções ao texto do analisando, permite ao mesmo desvincular-se de suas fixações, repetições e propicia-lhe inventar para si um novo script?
A arte reluzirá sempre o esplendor do objeto perdido e ocultará o seu mistério indevassável, mítico, e resistirá num casulo, num núcleo inacessível a quaisquer interpretações de sentido. Impulsionará, silenciosa, o arco e flecha de Eros, a fisgar e enlaçar humanos, erótica e afetivamente, criando vínculos sociais, civilizatórios e éticos. Se exibe, despida sob véus, para ser usufruída, fruída em seu charme e fascínio encantatórios, sem nunca tornar-se totalmente compreendida, explicada ou devassada.
E quanto à chave da criação poética, segredo revelado a alguns mortais ungidos pela Graça Divina, esta foi achada por Drummond durante sua “Procura da poesia”,(31) no exato momento em que o poeta nos pergunta:
“Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?”


NOTAS
(1) - LACAN, J. O seminário 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988
(2) KLEE, Paul. Tagebücher von Paul Klee 1898-1918. Publicado e prefaciado por Klee, Felix. Cologne:s/ed.,1957, p.1081. Citado por KON, Noemi Moritz. De Poe a Freud-O gato preto. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001.
(3) – FREUD, S. Escritores criativos e seus devaneios. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. IX.
(4) - POUND, Erza. ABC da literatura. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 1997.
(5) – Entrevista de João Cabral de Melo Neto a Geraldo Couto em 25/05/1994, publicada no “Caderno Mais” do jornal Folha de São Paulo e editada no livro Memórias do Presente: 100 entrevistas do “Mais”: 1992-2002: Conhecimento das Artes / Adriano Shwartz, (org.) – São Paulo: Publifolha, 2003. Pág. 155.
(6) – FREUD, S. O Inconsciente. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XIV.
(7) – LISPECTOR, Clarisse. Um sopro de vida (Pulsações). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
(8) – .FLAUBERT, G. Correspondance. Ed. J. Bruneau, Bibl. Plêiade, Paris: Gallimard,
(9) – BARROS, Manoel. Livro sobre nada. 2. Ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
(9) – Idem, pág. 7.
1973.
(10) - CASTELLO BRANCO, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.
(11) - REY, Jean Michel. O nascimento da poesia: Antonin Artaud. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
(12) - LACAN, J., citado por BRAZIL, Hórus Vital. Dois ensaios entre psicanálise e literatura. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992. Pag. 25.
(13) - MAYAKÓVSKY, Vladmir. Poética como fazer versos. 4. ed. São Paulo: Global Ed., 1984. Pág. 31.
(14) - RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. São Paulo: Globo, 2001.
(15) – DURAS, Marguerite. Escrever. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. Pag. 23.
(16) – FREUD, S . As pulsões e seus destinos. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XIV.
(17) – Sobre o psiquismo e sujeito do inconsciente como destino das pulsões, ver BIRMAN, Joel. Estilo e modernidade em psicanálise. Ed. 34. São Paulo: 1997 e BARTUCCI, Giovanna. Entre o mesmo e o duplo no ato de escrever. In Psicanálise, literatura e estéticas da subjetivação. Imago Ed., 2001.
(18) SOUZA, Edson Luiz André. Totumcalmum. A condição de exílio da escrita. In Psicanálise, literatura e estéticas da subjetivação. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001.
(19) – FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Lisboa: Vega Ed., 1992.
(20) – BARROS, Manoel. Livro sobre nada. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
(21) – RILKE, Rainer Maria. Elegias do Duíno. 4.ed.Rio de Janeiro: Ed. Globo. Pág. 3.
(22) - FREUD, S. O estranho. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XVII.
(23) - FRANÇA, Maria Inês. Psicanálise, estética e ética do desejo. São Paulo: Perspectiva, 1997.

(24) – FREUD, S. Sobre a transitoriedade. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XIV.
(25) - CASTELLO BRANCO, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.
(26) - BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. Pág. 249.
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