terça-feira, 4 de dezembro de 2012

POESIA, PSICANÁLISE E ATO CRIATIVO: UMA TRAVESSIA POÉTICA

Marília Brandão Lemos Morais, Psicanalista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.Médica Psiquiatra.Autora do livro de poemas Resíduos, publicado em 2004 pela Editora B.Livro O sussurro das coisas, Biblioteca 24x7, 2010, Livro Psicanálise e Contemporaneidade, Biblioteca 24 horas 2010 , publicado também em espanhol.

Palavras-Chave: Arte - Poesia - Fantasia - Ato criativo - Ato psicanalítico - Objeto perdido - Representação de palavra - Representação de coisa - Pulsão sexual - Pulsão de morte - O Estranho - Sublimação - Poiesisanalista

Resumo:A autora aborda o tema da criação literária e poética fazendo um cotejamento entre os textos psicanalítico e poético, inspirada no dito freudiano de que o poeta fala, sem saber, aquilo que ele, Freud, chegará a concluir após muito estudo e reflexão. Cria algumas aproximações entre o trabalho do poeta e do psicanalista utilizando-se de poemas e escritos de vários escritores, e segue a premissa de que tanto a psicanálise quanto a poesia buscam vestígios e dão contornos para o objeto perdido (das Ding). Diz que uma travessia do autor pela escrita poética guarda semelhanças com a travessia do fantasma do final de análise pelo analisando e que o ato do psicanalista na sua arte de psicanalisar assemelha-se ao fazer criativo do poeta. Haveria um lugar para um poiesisanalista? (poiesis, de criar, fabricar)

Propus-me a abordar o tema Arte, Psicanálise e Ato Criativo pela via da poesia, dando voz aos poetas e escritores, criadores por excelência, e aos psicanalistas, artesãos no seu ofício, numa intertextualidade de onde pretendo emergir como uma Ariadne no labirinto da língua a seguir o fio condutor, como aquela que recorta, aproxima e se distancia do texto, emenda, forja atalhos, se oferece como textura, tecido ao texto a se fazer. Uma voz que se torna própria na medida em que, ao me apropriar de um patrimônio cultural, milenar da ars poética, e centenário da psicanálise, ofereço as mãos ao labor, e submeto-o a uma subjetividade. Um texto, retalho de várias vozes, polifonia, retábulo de lavores que se inscrevem por gerações, pentimentos de cores variadas a serem descobertas ao buril da linguagem, sob o gesto do autor. Policromia. Trata-se de lançar alguma luz às sombras, através de conceitos oriundos da psicanálise e da fala de alguns poetas, aos mistérios da criação poética e literária. Faço um cotejamento entre o texto poético e o texto psicanalítico, inspirada no dito freudiano de que o poeta fala, sem saber, aquilo que ele, Freud, chegará a concluir após muito estudo e reflexão. Crio algumas aproximações entre o trabalho do poeta e do psicanalista e realço a premissa de que tanto a psicanálise como a poesia procuram vestígios, buscam dar contornos ao indizível, ao objeto perdido desde sempre. É de um distanciamento com a linguagem, de um exílio que se escreve. De uma ignorância, no sentido de uma desaprendizagem, de uma quebra com o ver cotidiano, olhar como a primeira vez, com o deslumbramento de um des-saber, compromisso com nada.Deixar-se abraçar pelas coisas, que elas lhe atravessem, lhe sussurrem ruídos do arrastar das lesmas em seu trilho brilhante, do movimento das pernas das centopéias, pás dos remos dos barcos de Ulisses e viajar no murmúrio das ondas, no arfar cansado dos amantes, no zum das guilhotinas a cortar metáforas, todas já escritas, na simplicidade da verdade das formigas, no radar silencioso dos morcegos, no aprendizado da primeira letra, na quebra dos ouvidos viciados, na linguagem desacostumada, na coragem de calar, na inutilidade da arte, na escrita virgem da primeira viagem.A psicanálise necessita da palavra poética para falar do inefável. Ao contrário, a arte é, em si, capaz de comover o humano desde os primórdios da civilização.“E eis que, tendo Deus descansado no sétimo dia, os poetas continuaram a obra da Criação”, disse Mário Quintana no Caderno H.Criar como Deus cria, do Nada, do Caos primordial. Por muitos e muitos anos o artista se estancou na marginalidade, na única possibilidade um só Criador: Deus. Mas, o artista para criar, cria do despoder, da fraqueza humana, da impotência, e não da Onipotência Divina. Cria do desamparo, e não da Providência Divina. Cria da finitude, e não da Eternidade Divina. Cria do conflito, e não da Paz Celestial Divina. Cria da pobreza, e não dos Recursos Divinos. Como homens, nascemos do barro, sob o sopro divino. Como artistas, esculpimos o barro à nossa imagem e dessemelhança. Imagem que toca o fundo ser do olhar do outro que nos reconhece como espécie, indivíduo, semelhante. Semeiante, o artista semeador de grãos de liberdade para o homem que, constrito sob os signos da linguagem e aos limites de uma realidade externa, viabilizam um espaço onde ainda seja possível se mexer, quiçá voar.O poeta, um artesão de palavras que forja o verbo com martelo e bigorna. Forjar a coisicidade da mesma. Como disse Lacan, elevar a língua “à dignidade do indizível”(2) , do objeto perdido, do pulsional em seu efeito sublimatório que se sustenta sobre nada.Se aproximarmos o fazer psicanalítico e o poético, poderemos dizer que em ambos existe uma capacidade criadora capaz de instaurar novas realidades. A arte, diz o pintor suíço expressionista Paul Klee, “não reproduz o visível, ela faz visível” (3) , assim como o poema não reproduz o dizível, ele cria o dizível. A psicanálise, no seu fazer, cria para o analisando a possibilidade de realidades diferentes, de novas invenções de si mesmo. Na escuta do texto do seu cliente, o psicanalista cria palavras (e silêncios) com poder de gerar outras palavras, palavras-coisa, que tocam o Real, quebram sentidos e produzem efeitos simbólicos outros, que a repetição do mesmo.A arte e a literatura encontram-se nos pilares da construção psicanalítica, desde as primeiras formulações freudianas do Inconsciente e do complexo de Édipo, inspiradas em Sófocles e nas tragédias de Shakespeare. A referência à arte oferece certa universalidade e ancoradouro às incipientes teorizações de Freud, embasadas na sua auto-análise e na sua clínica. Grande leitor de poetas e escritores, em especial Goethe, o mais querido, ele lhes manifesta admiração e respeito, e coloca-os no lugar daqueles profundos conhecedores da alma humana. A arte e a literatura, na concepção do criador da psicanálise, seriam redutos do processo primário e o artista teria acesso privilegiado aos elementos do Inconsciente, pelo seu talento natural, numa perspicácia de vanguarda que lhe iluminaria caminhos ao porvir.Se Freud sempre singrou mares em busca de um estatuto científico para a psicanálise, há de se convir que nunca tenha deixado de embebedar-se no porto seguro de suas fontes primárias, a arte. Em seu ensaio de 1909 “O poeta e o fantasiar” (4) ,ele pergunta-se em que fontes o poeta se embriaga para criar suas obras.O poeta (Dichter na língua alemã) carrega consigo a fórmula de Ezra Pound: Dichter = condensare (5), e marca a poesia como a forma mais condensada de expressão verbal. A condensação do sonho é semelhante à metáfora poética, e a metonímia, deslizamento dos significantes, ao deslocamento das imagens oníricas ao vagar do desejo, numa outra aproximação entre o texto poético e o texto onírico. Neste ensaio (“O poeta e o fantasiar”), Freud compara o trabalho criativo do escritor ao da criança que brinca e encena criativamente, ação que lhe proporciona, através de um prazer prévio, de uma fruição, um jogo com o imponderável. Compara o poeta também ao adulto em devaneios, com seu fantasiar propiciador de cenas que encobrem, dentro de certos limites, o abismo de Real que ali subjaz. Todavia o escritor cria e expõe pela Bela Forma a sua fantasia, compondo uma cumplicidade com o leitor, que a toma para si, dela usufrui, e com ela realiza seus próprios anseios.Ninguém melhor para falar sobre poesia e ato criativo que o próprio poeta. João Cabral de Melo Neto, em uma entrevista ao “Caderno Mais” da Folha de São Paulo (6), diz, a respeito de seu processo de trabalho: “Estou com a visão muito ruim, dos dois olhos - acho difícil (escrever poemas sem o olhar). Eu, para escrever, preciso ver muito o que estou escrevendo... O poema, para mim, é como se eu pintasse um quadro. Preciso ver como é que está ficando a forma dele.” O olhar sustenta a palavra poética. A imagem sustenta a palavra poética. Imagem que recobre e descobre o nada no qual ela flutua. As palavras se abrem e se debruçam sobre o seu silêncio interior de imagem. A palavra à procura de suas fontes, de suas raízes, plantadas no nada. Escoamentos. A poesia é o desenho das palavras, não para se pintar ou descrever, mas para se descobrir.Freud fala que a imagem se encontra na raiz do verbal (7). A representação consciente (o pensamento) é integrada pela “representação das coisas” (Sachvorstellung), sistema Inconsciente, diferenciada em um processo originário, da “representação das palavras” (Wortvorstellung), sistema Pré-consciente-Consciente. As representações inconscientes encadeiam-se de acordo com as leis da linguagem e têm um caráter de imagens, quando investidas pelo desejo que, ao percorrê-las como uma descarga elétrica, as acende e produz uma corrente de visibilidade.Por onde desliza o desejo, a representação de coisas fixa-se na palavra, tornando-se visível para o sujeito, ou seja, consciente. As palavras remetem à materialidade sensorial, visual, sonora e corporal da representação, além ou aquém do significado proferido. Uma rede elétrica pulsional com luzes-representações, a acender e apagar ao sabor do desejo que a percorre e a faz cintilar estrelas.Antes da palavra existe alguma coisa que não é palavra. O pensamento pensa o que já era e é esse era que captura a palavra. Daremos voz a Clarice Lispector: “Minha nascente é obscura... Meu pensamento com a enunciação de palavras mentalmente brotando, este meu pensamento de palavras é precedido por uma instantânea visão sem palavras do pensamento, palavra que se seguirá quase imediatamente, diferença espacial de menos de um milímetro... Eu escrevo por meio de palavras que ocultam outras – as verdadeiras. É que as verdadeiras não podem ser denominadas. Mesmo que eu não saiba quais são as verdadeiras palavras, eu estou sempre me aludindo a elas... Às vezes a sensação de pré-pensar é agônica: é a tortuosa criação que se debate nas trevas e que só se liberta depois de pensar com palavras. (8)”Flaubert, ao falar de si como escritor, diz que, de belo, gostaria de fazer um livro sobre o nada, sem ligações externas, sustentado por si mesmo, pela forma interna de seu estilo, tal como a terra se mantém no espaço (9). Representações suspensas no vazio. No vazio do sujeito que se desfaz no intervalo fugidio entre dois significantes. Palavras suspensas no limbo da linguagem. Sustentadas pelo estilo. É no embate com o indizível, aludido por Clarice, nesta luta de palavras em torno de um sol que não desponta a madrugada, de uma eterna meia-noite, hora dos fantasmas e lobisomens, que o estilo, a singularidade irredutível, se faz no encontro-limite com a impossibilidade de dizer.O poeta Manoel de Barros escreveu um Livro sobre Nada.. Mas não como o nada de Flaubert, que se sustenta só no estilo. Nem sobre o nada metafísico. Mas o nada, nada mesmo, coisa nenhuma, sem utilidade, “um abridor de amanhecer”, “um alarme para o silêncio” (10) , numa poética de desaprender, de regredir a palavra ao seu começo, à sua face sem nome, que desemboca nesse “umbigo da escrita” (11) em que toda a significação se estanca e de onde se avança apenas pela ficção.Uma poética de escutar pedras, de ser árvore, de ler avencas, tornar-se xamã da língua e encarnar bichos, des-ser vegetal, chegar ao reino mineral, des-substanciar-se. Fugir da palavra costumeira, milagrar violetas, retratar o perfume e fazer do estilo um estigma que arranha ao léu, arrisca o traço, garatuja o verbo para falar do que não tem, e escrever um livro de nuvens, um “livro de areia”, um livro sobre nada.Estilo, de stylos, um estilete que risca o corpo da linguagem e produz um risco corporal, navalha na carne, que escarifica a pele e desenha desenho de bichos, os olhos dos bichos, garatujas de crianças, letras por onde jorram linfa e fel. Como Sade, escrever com seu próprio sangue e dejetos, fazer escrita das ruínas, dos restos, dos resíduos.Brincar com o corpo da mãe língua, riscar as coisas mesmas, a pedra da caverna, a casca de árvore, o barro, a argila a contornar o oco do vaso e cunhar a escrita primeira, escrita cuneiforme, riscos de bichos e ouvir mugidos de dinossauros, piados de fênix, o grito de Munch, tsunamis, inundações, o barulho do mar aprisionado na concha, o risco de uma estrela cadente, o canto de um sabiá...A poesia não é para ser interpretada, mas sim ouvida. Essa é a opinião de Antonin Artaud (12), para quem a voz, o registro do dizer e ouvir, torna-se imprescindível na leitura da mesma. Trazer a sensorialidade do poema, não só no registro do ver, mas do falar em voz alta, escandir as palavras, o sopro da respiração dando-lhe vida, convidá-lo a sair do papel e encantar nossos ouvidos, fazer emergir o charme da palavra, a entonação da voz, o ritmo, a melodia da poesia, jogar com as sonoridades, colocar o poema em ato, surpreender a orelha, fugir do sentido ordinário das palavras, acordar a língua.Na sua Poética como fazer versos, Mayakovsky fala do murmúrio do ritmo no poema e se pergunta: “De onde vem este ritmo-rumor de fundo? Impossível dizê-lo... pode ser produzido tanto pelo barulho repetido do mar, como pela criada que, quase todas as manhãs, faz bater à porta e este barulho repete-se, arrasta-se, penetrando na minha consciência e até o movimento da terra à volta do Sol, que para mim, como num armazém de material para lições de coisas, alterna e se liga de modo caricatural e inevitável com o vento que se levanta e assobia” (13).Ouçamos Lacan: “Mas basta escutar a poesia... para que se faça ouvir uma polifonia e se veja que todo o discurso se alinha nas várias pautas de uma partitura” (14).Em suas cartas ao jovem aprendiz (15), o poeta Rilke diz da sua necessidade imperiosa de escrever, acometendo-o na calada da noite, forçando-o ao gesto da escrita, e confessa, sinceramente, que morreria caso lhe fosse vedado escrever. Uma obra de arte só é boa quando nasce desta necessidade. Compara a criação intelectual à mesma essência, enlevada e eterna, da volúpia do corpo que revive, numa idéia criadora, as mil e uma noites de amor esquecidas, partes desse patrimônio humano que passa por gerações e gerações, evoca o futuro e eclode na solidão essencial de algum poeta vindouro.Desta necessidade visceral da escrita, nos explicita Marguerite Duras: “Não se pode escrever sem a força do corpo. É preciso ser mais forte do que si mesmo para abordar a escrita... o escrito é o grito das feras noturnas, de todos, de você e eu, o grito dos cães ... Ela ainda se acha como no primeiro dia. Selvagem... É a selvageria anterior à vida”... 916). Isto nos remete à criação freudiana do conceito de pulsão como território-limite, limite de continentes, terra e mar, corpo e linguagem, volúpia da carne e volúpia da alma, e mais ainda, ao conceito de pulsão na sua vertente quantitativa, como força, (Drang)“uma medida de exigência de trabalho que é imposta ao psíquico em conseqüência de sua ligação ao corporal” (17) e, mais além, aos conceitos de pulsão de vida e pulsão de morte, pulsão ligada ao pólo representacional e pulsão desligada, energia livre, a eterna antinomia de Eros e Thanatos.Desse dualismo do pólo pulsional e representacional da linguagem, desse intervalo constitutivo do psiquismo, dessa cisão radical entre as exigências da pulsão e os instrumentos de simbolização insuficientes para o sujeito, intervalo este denominado desamparo pelo discurso freudiano, é desse estado abissal e trágico de desamparo que o homem cria. A experiência artística e literária, assim como a psicanálise, possibilita um lugar em que o excesso e a intensidade pulsional, erótica, estruturem a realidade de forma estilizada e singular, organizem e constituam novos caminhos e inscrevam a pulsão no registro da simbolização. E o poeta a inscreve sob o dom poético, sob o talento bíblico de, a quem mais se dá, mais lhe será cobrado.A palavra estanca parcialmente o jorro de gozo que invade o psíquico, dá forma ao que não tem nome, enxuga os excessos. Permite ao autor colocar-se mais próximo ao pólo representacional da palavra ou ao pólo pulsional, num maior ou menor distanciamento e proximidade com o texto. O texto próximo ao pólo pulsional, aquele que se coloca na face-coisa da palavra, com a enunciação praticamente sobreposta ao enunciado, é um texto vivo, pulsátil, sem fôlego que conduz o leitor a vivências e identificações muito sensoriais, semelhantes àquelas que ele supõe que o autor tenha vivenciado e transforma a linguagem num palco onde o escritor encena seu drama (18). Se, como diz Fernando Pessoa, “o poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.”(19) Outros autores se colocam estrategicamente mais perto do pólo representacional da pulsão, marcando seus escritos com uma presença maior do deslocamento e da metonímia que de metáforas.Pode-se ainda pensar numa escrita rica de significantes que proliferam e deslizam infinitamente, até que advenha, sempre, a última noite das Mil e Uma e coloque um basta a este sem fim de palavras. Ou constata-se, ao contrário, uma escrita esvaziada de significantes, próxima ao sem sentido da letra. Se um poema é escrito na primeira pessoa, o Eu do poema não é necessariamente o do autor de carne e osso. O Eu que aí se apresenta é o de um personagem, de textura diversa do Eu que o poeta parece sustentar. Um descentramento do sujeito, não mais senhor de sua casa, mas submetido à linguagem, um exilado que não se reconhece em seu próprio texto (20). Um apagamento do Eu, descobrindo-se o estranho e desconhecido que o sujeito pode ser para ele mesmo. O autor emerge do intervalo vazio entre dois significantes, no clarão que acende o desejo. Lugar do sujeito do inconsciente, um dos destinos sublimatórios da pulsão (21).O melhor de mim são os personagens que me tomam, diz o Eu; direi a voz deles, nas suas próprias e na minha. Esta condição de exilado do texto, este estranhamento que pode nos causar a leitura de nosso próprio escrito, nos leva à surpreendente pergunta: Será que fui Eu quem escreveu Isso?Duas mãos escrevem o texto. Uma, da qual a caneta não desgruda, numa psicografia inconsciente e outra que recorta, sublinha, corta, refaz, pontua, coloca o um a mais das mil noites, o ponto final das infinitas pontuações. O escritor pontua sua presença. Duas inconsciências escrevem ao mesmo tempo. Duas inconsistências. Uma que não sabe de si e outra que quer se dar conta de si e se quer autor do seu próprio texto.Um autor se faz, quando seu texto transgride, se torna um risco, e indica um novo lugar, uma responsabilidade a mais deste autor (22). A arte é transgressora porque criada da amálgama da pulsão de vida e de morte, de Thanatos, potência criativa que subverte e transforma a ordem estabelecida.Colocar-se nesta posição de estrangeiro, de exilado da própria língua e manter vivo este intervalo, esta alteridade, é necessário, pois o que é o ato de escritura senão o que insurge neste espaço de desconhecimento do autor em relação à linguagem? O irlandês Samuel Beckett, que possuía um domínio extraordinário do inglês, sua língua-mãe, escolheu escrever seus livros em francês, língua na qual ele não tinha tanta fluência, de modo a ter que procurar com muito cuidado as palavras, encontrá-las com dificuldade e só depois de todo este esforço, vertê-las novamente para o inglês, um inglês novo que continha toda a dificuldade do francês, do pensamento forjado de uma segunda língua. E ser capaz de mudar o inglês para sempre. Ele dizia se sentir como a coisa que divide o mundo em dois, de um lado, o externo, de outro, o interno, e que podia ser tão fina como uma folha de papel, coisa dividida, coisa que fala. (Caderno Mais da Folha de S. Paulo de 09/04/2006)Ouçamos agora uma das lições de Rilke ao jovem aprendiz de poeta: “A arte também é uma maneira de viver. A gente pode preparar-se para ela sem o saber, vivendo de qualquer forma. Em tudo o que é verdadeiro está-se mais perto ...”(23)O poeta Manoel de Barros escreve:Quem acumula muita informação, perde o condão deadvinhar: divinare.Os sabiás divinam. (24)E passando dos divinos encantos de sabiás a anjos divinos, ouçamos novamente Rilke na sua primeira “Elegias do Duino”) onde ele canta: Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasseinesperadamente em seu coração, aniquilar-me-iasua existência demasiado forte. Pois que é o Belosenão o grau do Terrível, que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenhadestruir-nos? Todo Anjo é terrível. (25)Isto nos envia ao texto de Freud “O Estranho” (26), a esta surpreendente estranheza com tudo que é mais íntimo e familiar em nós, irrupção do que deveria permanecer oculto, mas veio à luz, e nos coloca diante da função do Belo em psicanálise, sustentação e falha do imaginário, lugar do equívoco, a ocultar e desvelar o horrível, e num repente, arremessar o homem frente a frente com sua transitoriedade e finitude. Um relâmpago, um lapso de imagem, efeito surpresa, impacto, faíscas de Eros e Thanatos, acompanhado de intensa angústia, se refere ao ponto em que o Belo, segundo Lacan, indica a sua relação com a morte em todo o seu resplendor de luz e sombras, de indefinição de fronteiras, quando a vida se mistura à morte e a morte invade a vida, região de desamparo (27). E a linguagem poética abre esta fenda à duplicidade do Belo/Horrível. A palavra revela e oculta ao mesmo tempo, a palavra bela, que carrega consigo “um sopro de morte”(Lacan), a palavra alada terrivelmente bela, reveladora do desamparo e incompletude do ser diante da ameaça de destruição, aparição do Anjo aniquilador rilkeano.Freud relata em seu belo texto “Sobre a transitoriedade” (28), estar passeando numa tarde de agosto de 1913 com seu amigo Rilke, por maravilhosos campos nas Dolomitas, quando o poeta, tomado de uma profunda nostalgia perante a beleza do cenário, lamenta a transitoriedade e a fugacidade do belo na Natureza, fadado a morrer no inverno, assim como toda a beleza humana, criada e a ser criada pelo homem, através da arte. Freud, ao contrário, valoriza a beleza justamente pela sua efemeridade. A melancolia do poeta o impede de usufruir das maravilhas da tarde, diante da possibilidade da dor da perda, e revela o efeito inquietador e comovente do Belo.A fugacidade do tempo, capturada no escrito. O tempo da escrita é um tempo sempre presente, infinitos segundos se sucedem rumo ao futuro e só se recuperam num passado representado, num continuum de um tempo sem tempo, onde o passado anseia o presente e o futuro se determina como aquilo que será lembrado, num lugar absurdo de um presente que sempre se esvai (29). E neste intervalo vazio, somos, nesta ausência de tempo e neste fascínio com o eterno presente sem presença. Um vazio do passado e um vazio do futuro se fazem presente nesta “solidão profética” (30) de um tempo que é para sempre agora, início sem fim, tempo de escrita.A deusa-mãe da Poesia e da Memória entrega Eros nos braços de Thanatos, entrega a vida nos braços da morte, berço-tumba pulsional, morte essa que na escrita faz presente e se torna uma promessa de imortalidade. “Escrevo, diz o poeta Lucio Cardoso - e meu coração pulsa... Escrevo apenas porque em mim alguma coisa não quer morrer e grita por sobrevivência.” (31)Escrever para não morrer. Como Scheerazade adiava a sua morte contando estórias para o sultão Schariyar. Uma voz que fala, uma voz de mulher fala, conta estórias de vida e de morte, encanta e é capaz de gerar vida. E se imortaliza nas Mil e uma Noites de estórias dentro de outras estórias, numa espiral do tempo, tempo presente, neste passado presentificado, rumo a um futuro que se quer presença. Freud diz em seu texto “O poeta e o fantasiar” sobre esta relação entre passado, presente e futuro interligados pelo fio do desejo. O escritor, no presente, busca em suas vivências passadas, material para o seu escrito e o lança no futuro, a dizer o que não sabe e mais do que quis dizer. O poema sabe mais que quem o escreve.Se a nossa infância nos fascina, é talvez por ser ela em si o tempo de fascinação, de estarmos fascinados com a fascinação materna, idade dourada, tábula rasa das primeiras impressões, fadadas a reluzirem vida afora, claro brilho de uma época, fonte de todos os poderes de encantamento. Mesmo se um poeta estivesse encerrado numa prisão minúscula, tendo à sua frente apenas muros embolorados, ainda assim tiraria o seu material poético de recordações de sua infância. Ou dos desenhos do bolor esverdeado impregnando os muros, ou dos odores que impregnam o espaço. Tudo a ser escrito já se encontra dentro de nós, basta achá-lo. O fascínio é o olhar da solidão, a solidão essencial à criação poética. Desfazer-se da fantasia grudada à carne e embrenhar-se neste fascinante e doloroso mundo da linguagem, como tartaruga arrancada do casco, frágil massa sem contornos, a procurar formas nas letras, para seu próprio ser. Água viva. Gelatina. Perder-se neste mundo de palavras em estado de dicionário, adormecidas na solidão seminal de seu repouso mortífero, encantar-lhes, dar-lhes vida e escapar desta agonia muda, desta selvageria pré-verbal, desta ancestral natureza animalesca anterior à aquisição da linguagem. E dali emergir com a palavra plena, fôlego para a angústia do inefável. Casco de tartaruga. Cascas de palavras.Se o poeta existe é necessário um leitor que o faça existir e a quem o poema se dirija. O leitor anônimo lerá o poema e nele falarão outras vozes além das que o poeta foi porta-voz, falarão vozes de antepassados, de avós, de mães, de babás, de tradições culturais, de suas fantasias inconscientes e, a cada leitor, o poema tocará de uma forma singular, nesta singularidade semelhante ao cavar de um poço, cada vez a embrenhar-se mais terra adentro, até que num determinado instante jorre água – sinal de haver-se encontrado o lençol universal comum a todos os outros poços individuais. Uma singularidade, um estilo a enlaçar o corpo social, e formar nos sujeitos um vínculo sublimatório em comum com o objeto que se perdeu. É necessário procurar esse leitor “sem saber onde ele está” (32), criar um espaço de outridade, possibilitador de uma dialética do desejo, de uma imprevisão, de uma surpresa, que os dados ainda não estejam lançados, que haja jogo. E esse leitor formará o seu próprio texto a partir de sua leitura. E esse leitor fará o poeta e o dirá.Texto significa tecido, teia, uma teia tecida com letras entrelaçadas pelo desejo travestido em aranha, uma aranha ilógica da escrita, arranha a pena ao papel e sem nenhuma pena, captura o leitor e o devora. E destas entranhas, desta estranha aranha-teia-texto, iniciar uma travessia. Uma travessia pela escrita (33), semelhante à travessia do fantasma do final de análise, onde o escritor atravessa e deixa-se atravessar pela linguagem, viagem na qual, através do próprio trilhamento, um autor se constitua, nos percalços desta teia-aranha, ao se arranhar na castração e ao procurar a sublime-ação de tecer e destecer a própria escrita, a própria história, de enxugar inundações, cortar por atalhos, encurtar caminhos, desinvestir ideais, desvestir fantasias, criando uma nova relação com a linguagem, uma nova rearticulação simbólica do sujeito diante do Real. E nas errâncias dessa travessia, literária e analítica, emergir como um sujeito-autor. Assim como o analisando no final de análise faz de seu complicado romance familiar um conto esteticamente mais elegante e moderno, através das pontuações do analista que interroga, exclama, corta, coloca um ponto e vírgula, às vezes dois pontos, ou entre parênteses, ou aspas, ou acento grave, agudos, asteriscos, reticências, até chegar ao ponto final, talvez possa algum analisando descobrir, ou reencontrar, através da análise, o seu dom poético e realizar uma travessia poética, criar das sobras, dos resíduos, restos de desejos, um poema, ou, quem sabe, um livro de poemas.E se esse analisando se tornar algum dia psicanalista, certamente se tornará um poiesisanalista: poiesis, de criar, fabricar, de confeccionar um terceiro personagem para além do analista e do poeta. E este não seria o lugar já, ou a ser ocupado pelo psicanalista na sua arte de psicanalisar, se pensarmos nas suas interpretações e silêncios, nas suas pontuações telegráficas como atos criativos similares à palavra nua do poeta, palavra-meia, e que, através escuta e das intervenções ao texto do analisando, permite ao mesmo desvincular-se de suas fixações, repetições e propicia-lhe inventar para si um novo script?A arte (assim como a psicanálise) reluzirá sempre o esplendor do objeto perdido e ocultará o seu mistério indevassável, mítico, e resistirá num casulo, num núcleo inacessível a quaisquer interpretações de sentido e, espero, a qualquer tentativa de devastação por parte do próprio homem, seu criador. Ela impulsionará, silenciosa, o arco e flecha de Eros, a fisgar e enlaçar humanos, erótica e afetivamente, criando vínculos sociais, civilizatórios e éticos. Se exibe, despida sob véus, para ser usufruída, fruída em seu charme e fascínio encantatórios, sem nunca se tornar totalmente compreendida, explicada ou devassada. E quanto à chave da criação poética, segredo revelado a alguns mortais ungidos pela Graça Divina, esta foi achada por Drummond durante sua “Procura da poesia” (34) , no exato momento em que o poeta nos pergunta: "Chega mais perto e contempla as palavras.Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta,pobre ou terrível, que lhe deres:Trouxeste a chave?”

Notas1- Trabalho apresentado na Jornada Centro-Sul do Círculo Brasileiro de Psicanálise.2- LACAN, J. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 19883- KLEE, Paul. Tagebücher Von Paul Klee 1898 - 1918. Publicado e prefaciado por Klee, Félix. Cologne: s/ed., 1957, p.1081. Citado por KON, Noemi Moritz. De Poe a Freud - O gato preto. In Psicanálise, literatura e estética de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 20014- FREUD, S. Escritores criativos e seus devaneios. ESB. Rio de Janeiro : Imago, 1980, v. IX.5- POUND, Ezra. ABC da literatura. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 1997.6- Entrevista de João Cabral de Melo Neto a Geraldo Couto em 25/05/1994, publicada no "Caderno Mais" do jornal Folha de S. Paulo e editada no livro Memórias do Presente: 100 entrevistas do "Mais": 1992-2002: Conhecimento das Artes / Adriano Shwartz, (org.) - São Paulo: Publifolha, 2003, p. 155.7- FREUD, S. O Inconsciente. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980,v. XIV.8- LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida (pulsações). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.9- FLAUBERT, G. Correspondance. Ed. J. Bruneau, Bibl. Plêiade. Paris: Gallimard, 1973.10- BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 2. Rio de Janeiro: Record, 1996.11- CASTELO BRANCO, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.12- REY, Jean Michel. O nascimento da poesia: Antonin Artaud. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.13- MAYAKÓVSKY, Vladmir. Poética como fazer versos. 4. ed. São Paulo: Global, 1984, p. 31.14- LACAN, J., citado por BRASIL, Hórus Vital. Dois ensaios entre psicanálise e literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1992, p. 25.15- RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. São Paulo: Globo, 2001.16- DURAS, Marguerite. Escrever. Rio de janeiro: Rocco, 1994, p. 23.17- FREUD, S. As pulsões e seus destinos. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XIV.18- CARVALHO, Ana Cecília. Pulsão e simbolização: limites da escrita. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago, 2001.19- PESSOA, Fernando. Autopsicografia in: Obra poética. Biblioteca luso-brasileira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977, p. 164.20- SOUSA, Edson Luiz André. Totumcalmum. A condição de exílio da escrita. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago, 2001.21- Sobre o psiquismo e sujeito do inconsciente como destino das pulões, ver BIRMAN, Joesl. Estilo e modernidade em psicanálise. São Paulo: ed.34, 1997 e BARTUCCI, Giovanna. Entre o mesmo e o duplo no ato de escrever. In Psicanálise, literatura e estética de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2001.22- FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Lisboa: Vega, 1992.23- RILKE, Rainer Maria. Elegias do Duíno. 4. ed. Rio de Janeiro: Globo, p. 3.24- BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.25- RILKE, Rainer Maria. Elegias do Dúino. Idem26- FREUD, S. O estranho. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XVII.27- FRANÇA, Maria Inês. Psicanálise, estética e ética do desejo. São Paulo: Perspectiva, 1997.28- FREUD, S. Sobre a transitoriedade. ESB. Rio de Janeiro: Imago 1980, v. XIV.29- CASTELLO BRANCO, Lúcia. A traição de Penélope. São Paulo: Annablume, 1994.30- BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987, p. 249.31- CARDOSO, Lúcio. Diário completo. Rio de Janeiro: José Olímpio / Instituto Nacional do Livro, 1970. Citado no artigo de Ruth Silviano Brandão: A vida escrita: os impasses do escrever. In Psicanálise, literatura e estética de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 43.32- BARTHES, Roland. O prazer do texto. 3.ed. São Paulo: Perspectiva, 2002, p. 9.33- BRANDÃO, Ruth Silviano. A vida escrita: os impasses do escrever. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 15734- ANDRADE, Carlos Drummond. Procura da poesia. In A rosa do povo. Reunião (10 livros de poesia). 5.ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1973, p. 76.Bibliografia ANDRADE, Carlos Drummond. Procura da poesia. In A rosa do povo. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1973.BARROS, Manoel. Livro sobre nada. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.BARTHES, Roland. O prazer do texto. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.BARTUCCI, Giovanna. Entre o mesmo e o duplo inscreve-se a alteridade. Psicanálise freudiana e escritura borgiana. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2001.BARTUCCI, Giovanna. (org.). Psicanálise, arte e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2002.BIRMAN, Joel. Estilo e modernidade em psicanálise. São Paulo: Ed. 34, 1997.BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.BRANDÃO, Ruth Silviano. A vida escrita: os impasses do escrever. In Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação. Org. Giovanna Bartucci. Rio de Janeiro: Imago, 2001.BRASIL, Hórus Vital. Dois ensaios entre psicanálise e literatura. 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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Quando parte uma Mãe


Quando parte uma Mãe
uma parte de nós parte com ela
uma parte de nós se parte para sempre

As mães  não deveriam partir

ficariam encantadas para sempre

guardiãs do enigma de viver

guardiãs da história de seus filhos

Parte uma mãe

e com ela

parte de mim se foi.

 (para minha mãe, Marília, que se foi em 26/10/2012)

domingo, 22 de julho de 2012

TRANTORNOS ALIMENTARES: ANOREXIA, BULIMIA, TRANSTORNO DA COMPULSÃO ALIMENTAR PERIÓDICA

              A nossa proposta  é a de conceituar os transtornos alimentares e abordar os seus aspectos relacionados à cultura a partir de uma leitura inicial psiquiátrica e fenomenológica  acrescida de uma visão psicanalítica destes quadros , o que nos traria uma abertura maior deste assunto tão instigante e complexo.  E correlaciona-lo com o tema deste nosso congresso “Psiquiatria, Ciência e Ética: Clinicar é preciso?”
           Conforme a Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID- 10,  sob o título de transtornos alimentares, duas síndromes  bem definidas são descritas: anorexia nervosa e bulimia  nervosa. Transtornos menos específicos como hiperfagia e vômitos associados a outras perturbações psicológicas também são citados.
           A Associação Psiquiátrica Americana (APA, 1995)  através do DSM-IV, 4 edição (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais) reconhece também estas duas grandes categorias de transtorno alimentar: a anorexia nervosa( subtipos restritivo e  purgativo) e a bulimia nervosa (subtipos purgativo e não purgativo) Os indivíduos que não preenchem os critérios para estes dois diagnósticos, devem ser incluídos na categoria de transtornos alimentares não especificados.
           Dentre os transtornos   não especificados, uma terceira e nova categoria diagnóstica de transtorno alimentar, ainda em fase de pesquisa  está sendo proposta: é  o transtorno de compulsão alimentar periódica ( binge eating disorder/ BED), incluída no apêndice B do DSM-IV, 4 edição )          

           ANOREXIA NERVOSA
          A anorexia nervosa  é um transtorno do comportamento alimentar caracterizado por   deliberada  perda de peso induzida ou mantida  pelo paciente, associada a uma perturbação da imagem corporal com uma busca incessante de um ideal de magreza, podendo chegar à inanição, associado à padrões bizarros de alimentação. Existe uma distorção na maneira de vivenciar o próprio corpo e as pacientes sentem-se  gordas e disformes mesmo com todas as evidências em contrário. A amenorréia sempre está presente. O termo anorexia não é muito adequado por não haver real perda de apetite até os estágios mais avançados da doença. O que existe é uma recusa patológica em se alimentar.
           Acomete com mais frequência  garotas adolescentes e mulheres jovens, embora homens jovens também possam ser afetados, assim como crianças na puberdade e mulheres próximas da menopausa.
             Desde a  Antiguidade esta  entidade clínica vem sendo identificada e diferentes relatos existem  a partir do século  XVIII. Bell, em 1985, descreve a vida de 250 santas e beatos da Igreja Católica em suas práticas de jejum religioso e ascetismo mostrando um interessante paralelo entre esta prática(anorexia santa) e o atual conceito de anorexia nervosa. Entre o comer como prazer mundano e o jejum como purificação.
           A história moderna da anorexia nervosa inicia em Londres em 1873 quando o médico londrino William Gull criou o termo, descrevendo o quadro clínico em três meninas com idade entre 14 e 18 anos.  Quase ao mesmo tempo, na França, Ernest Charles Lasègue, psiquiatra francês, descreveu a anorexie hysterique, um dos marcos decisivos na história do conhecimento psicopatológico da anorexia nervosa, texto este que continua atual. Lasègue acreditava que a anorexia fosse apenas uma das formas de apresentação da histeria. 

           BULIMIA NERVOSA
          A bulimia nervosa consiste de episódios recorrentes de hiperfagia com consumo de grandes quantidades de alimentos acompanhado de um sentimento de perda de controle. Associado a isto, uma preocupação excessiva com o peso corporal, levando o paciente a adotar medidas extremas para evitar engordar com a ingestão dos alimentos. Medidas tais como vômitos auto-induzidos, uso de laxantes, de diuréticos, de anorexígenos, de preparados tireoidianos, jejum, exercícios exagerados, entre outras.
           Diferentemente dos pacientes com anorexia nervosa, os pacientes bulímicos costumam manter em peso corporal dentro dos limites da normalidade. A maioria dos pacientes com bulimia é no sexo feminino numa proporção de 9 : 1. Início dos sintomas na fase mais tardia da adolescência ou idade adulta jovem até a década dos quarenta anos.
           A diferença dos subtipos purgativo e não purgativo de bulimia nervosa, é que , no tipo purgarivo o indivíduo envolve-se regularmente na auto indução de vômitos, ou no uso indevido de laxantes, diuréticos ou enemas. No tipo sem purgação o indivíduo usa comportamentos compensatórios inadequados tais como jejuns ou exercícios excessivos mas não se envolveu na auto indução de vômitos ou no uso indevido de laxantes diuréticos ou enemas.
           Pode existir anteriormente, mas nem sempre, história de um episódio prévio de anorexia nervosa,  diagnosticado ou não pelo fato de  às vezes a anorexia nervosa assumir  uma forma menor, disfarçada, com perda moderada de peso e fase transitória de amenoréia.
           Os primeiros relatos de bulimia nervosa como entidade psiquiátrica apareceram apenas a partir das anos 70. 

           TRANSTORNO DA COMPULSÃO ALIMENTAR PERIÓDICA
           Um importante subgrupo entre os trantornos alimentares não especificados, inclui aqueles indivíduos, muitas vezes obesos, que apresentam episódios recorrentes de compulsão alimentar (binge eating desorder/BED). O aspecto que se destaca deste transtorno é o fenômeno denominado binge eating, traduzido para o português como compulsão alimentar periódica. O termo binge, na língua inglesa, transmite uma noção genérica de excesso. O uso desta expressão no contexto deste transtorno alimentar  define os seus dois elementos centrais: o excesso alimentar e  e a perda de controle. Ou seja, significa a ingestão, em curto intervalo de tempo, de grandes quantidades de alimentos, associada à sensação de perda de controle sobre o ato de comer.
Os indivíduos relatam uma acentuada angústia , sentimento de culpa ou depressão após comer excessivamente. A compulsão periódica não está associada aos comportamentos regulares inadequados de compensação ( jejuns, purgação, excesso de exercícios, por exemplo) e ocorre independentemente do curso de anorexia e bulimia nervosa.
           A primeira descrição de episódios de compulsão alimentar em indivíduos obesos foi descrita em 1959 por Stunkard, mas foi a partir dos anos 80  que este tema passou a ser objeto de maiores estudos. Diversos pesquisadores vem demonstrando a existência de um subgrupo de obesos com episódios de compulsão alimentar como padrão específico e recorrente, associado a um alto grau de sofrimento psíquico, além de se diferenciarem dos outros obesos por apresentarem intensa preocupação com o corpo, alimentação e peso, exigências perfeccionistas   rígidas  em relação à dieta, maiores flutuações de peso e maiores dificuldades em manter a perda de peso obtida em tratamentos de emagrecimento.
           A distinção diagnóstica entre o transtorno da compulsão alimentar periódica e da bulimia não purgativa pode ser delicado, uma vez que não é incomum entre pacientes obesos dietas rigorosas e exercícios intensos. 

 TRANSTORNOS ALIMENTARES  E CULTURA
           Os aspectos culturais dos transtornos alimentares tem sido amplamente discutidos e são uma boa amostra de como valores culturais, associados a fatores biológicos , psíquicos e familiares, interferem na etiologia dos quadros de anorexia e bulimia nervosas, sendo talvez estas síndromes os melhores exemplos de se constatar a influêrncia direta  de fatores culturais  no  adoecer psíquico e físico das pessoas, ou de como o mundo simbólico, da linguagem, exerce influencia direta sobre o real do corpo.
           Numa perspectiva antropológica, é possível perceber que a forma que os indivíduos se relacionam com a comida e com o corpo são metáforas importantes de sua identidade revelando a sua origem racial, classe social, sexo, etc. e são carregadas de significados construídos culturalmente e que vão se transformando  ao  longo da história.                                                                                                                                    \
Alguns pesquisadores transculturais concebem os transtornos alimentares  como “síndromes ligadas à cultura” ou  culture – bound  syndromes (CBS), mais especificamente ligadas à nossa cultura ocidental .Esta é uma expressão pouco utilizada  em nosso meio, sendo entretanto frequente em trabalhos de antropologia e da psiquiatria transcultural. Com a inclusão deste termo no nono apêndice do DSM-4, “Plano para a formulação cultural e glossário para síndromes ligadas à cultura”(APA, 1995, p.793), seu uso provavelmente tenderá a crescer entre nós.  Cultura aqui não pode ser entendida apenas com fronteiras geográficas ou com regionalismos, mas com o universo simbólico da humanidade anterior e posterior a cada indivíduo em si e no qual estamos inseridos e que nos institui e constitui como sujeitos e como cidadãos. Como é a influência do contexto social do mundo de hoje, da modernização, da globalização, da diluição de fronteiras, da mudança de valores, da  mudança de papel social da mulher, das alterações de temporalidade e espacialidade decorridas do avanço da tecnologia, no contexto dos transtornos alimentares? Podem hoje os transtornos alimentares ser considerados transtornos da modernidade? Ou melhor, da pós-modernidade?
           Para isto é importante situarmos o mundo de hoje e a questão do corpo , e nos valeremos da psicanálise para nos auxiliar neste impasse.
           Na nossa sociedade ocidental, o ideal estético de beleza varia históricamente, ao longo dos séculos. A arte nos revela que  na Renascença valorizava-se as mulheres de corpo cheio, que hoje seriam consideradas gordas no nosso padrão atual de beleza. Na década de 40 e 50, musas com seios fartos e corpos curvilíneos eram as estrelas mais famosas de Hollywood, como Marylin Monroe. Observamos hoje uma progressiva mudança nestes ideais estéticos em direção a uma figura magra, de musculatura definida, com pouco tecido adiposo. E uma pressão social e toda uma propaganda e oferta de produtos em torno destes padrões estéticos de beleza: academias de ginástica  com alto desenvolvimento tecnológico em novas técnicas de exercícios físicos, dietas miraculosas oferecidas pela mídia nas centenas de canais de TV, aulas de ginástica em vídeos, aparelhos que reproduzem academias no espaço doméstico, cada vez mais espaços públicos destinados à prática de jogging, novos avanços na indústria cosmética , o desenvolvimento de novas técnicas de cirurgia plástica , apontando para um ideal estético em torno de um busca de um corpo jovem e perfeito, demonstrando uma verdadeira “cultura do corpo” predominante de nossa sociedade.
           Com o processo de modernização e globalização ocorre uma diluição de fronteiras, e alguns  pesquisadores que participaram da Oitava Conferência em Transtornos Alimentares-Nova York,1998,( por exemplo, Katzman e Sing Lee) propuzeram que se deixe de pensar os transtornos alimentares como um fenômeno ocidental  mas passemos a considerá-los relacionados à modernização, o que permite entender o aparecimento destes transtornos em quase todos os países do leste asiático e nas cidades da costa chinesa, onde eram considerados inexistentes há 10 anos atrás, assim como sua ausência nas cidades do oeste chinês, região até hoje essencialmente rural. Ao examinar um mapa do mundo no qual os países estão classificados pelo PIB per capta, demonstrou-se que nos lugares onde o PIB é alto, está documentada a presença de transtornos alimentares.
           Uma geração descobre sua identidade em grandes figuras mitológicas com as quais se identifica. O tempo presente, a cultura ocidental,  é melhor simbolizada pelo mito de Narciso.  Instaura-se a nossos olhos uma gradual mutação antropológica da qual fazemos parte, um novo tipo de individualismo, um neo-narcisismo cultural.   O narcisismo designa a emergência de um perfil inédito do indivíduo nas suas relações consigo próprio, com seu corpo e com o outro, com o mundo e com o tempo. O corpo agora é promovido à categoria de objeto de culto. Incontestavelmente a representação social do corpo sofreu mutação. O corpo deixa de ser relegado a um estatuto de positividade material e torna-se um espaço indecidível, um objeto-sujeito ,uma mistura flutuante de sensível e de sentido, onde veículado ao ideal estético de um corpo perfeito, associam-se as conotações símbólicas de sucesso, competência , elegância, classe, inteligência, felicidade, disciplina,  vontade, entre outras. O fracasso em se atingir esta imagem ideal passa a ser associado com preguiça, fracasso, fraqueza, falta de vontade, etc. Um ideal estético   portando valores éticos. O narcisismo funciona assim como um tipo inédito de controle social sobre almas e corpos.
           A busca do Ideal objetiva-se através da busca do Corpo- Ideal, que assim se constitui como suporte do Ideal do Eu. Esta expressão ( Ideal do Eu) foi utilizada por Freud para designar um modelo de referência do eu, simultaneamente substituto do narcisismo perdido na infância e produto de identificação com as figuras parentais e seus substitutos sociais, produto da identificação com valores da cultura. É aqui que podemos situar o enlace” entre o tele-tecno-midiático “ e o corpo light, sem carne, espectral, o extremo diet, o extremo zero caloria, onde as adolescentes se reconhecem num contágio identificatório neste corpo estético dietético sublime e disciplinado. É aqui que podemos situar um dos enlaces da cultura com os transtornos alimentares, em especial, com a anorexia nervosa.

TRANSTORNOS ALIMENTARES E PSICANÁLISE
           O corpo, objeto por excelência do estudo da ciência, da medicina, em psicanálise não é referido apenas como um organismo  ou como um corpo natural, mas um corpo articulado no mundo, articulado à cultura, submetido ao simbólico, submetido à linguagem. Frente ao corpo, tanto a psicanálise quanto a ciência operam como linguagem, promovendo recortes e trensformações no real. É através de uma tradução simbólica que os fenômenos biológicos referentes à vida e morte constituem matéria de trabalho para a ciência e que a psicanálise pode situar o sujeito emergido como resposta a este real.
           Um novo corpo, corpo submetido à linguagem, corpo pulsional .O conceito de pulsão, fundamental em psicanálise, é um “conceito limite, entre o psíquico e o somático” uma articulaçào teórica entre o psíquico e o somático,  uma tentativa de superação do dualismo cartesiano mediante  a inserção da categoria da linguagem entre a ordem do corpo e do psíquico. É  constituída assim uma representação do sujeito onde o psíquico e o corpo sexual interagem intimamente, tornando possível conceber a existência de um psiquismo para além do campo da consciência, da ordem do inconsciente.
           O corpo é memória, o corpo registra, o corpo não esquece. É receptáculo de inscrições primitivas, marcas dos ritmos da relação fundamental de desamparo humano mãe-filho, das satisfações e frustações de necessidades. E esta relação passa necessáriamente pela oferta do alimento, e pela relação corpo a corpo materno infantil. O objeto de necessidade (o leite) é ao mesmo tempo objeto de desejo(o seio), pois a sexualidade apoia-se desde o início na satisfação de necessidades. Pelo fato do homem se constituir como sujeito num ser de linguagem, a função orgânica da alimentação se acha elevada a uma função erótica, passando do registro da necessidade para o do desejo.  O comer e o beber  se inserem como atividades eróticas  que o corpo realiza. Não é apenas fome, mas apetite. A dimensão simbólica do alimento é a parte mais rica e é ela que assegura o desejo, o prazer de se alimentar, a degustação do prato predileto, o paladar compartilhado, a comunhão com a família ou os amigos no ato de comer.
           O corpo fala. As bizarras imagens moldadas pela anorexia nervosa, onde, em nome aparentemente de um padrão estético de beleza, o corpo caquético, disforme , emagrecido, esquálido,  se faz sintoma , esforçando-se por dizer o que não pode ser dito. E o que o corpo tem a dizer?  Que existe o desejo. Embora sendo formas diferentes de saber, este é o convite que a psicanálise faz à ciência: levar em consideração o inconsciente e o desejo. Embora em psicanálise exista uma teorização tormal e conceitual respaldada na clínica que determina o seu campo, é no singular e no um a um e nas peculiariedades e diferenças de cada cliente que podemos construir uma história.
           E qual é o desejo da anoréxica?
           A anoréxica quando fala, mal utiliza a voz, e não encontra nada para dizer. Através de seu sofrimento, suplica o acesso à palavra, ou seja, o desejo exprime-se no sintoma do corpo e não é articulado no discurso. A anorexia é um sintoma mudo, sem muito valor de sentido O verdadeiro sintoma é a recusa do alimento. Não se trata de que ela não coma mas sim de que ela coma nada. Trata-se de uma parceria com o nada. Existe uma obstinação enorme e a recusa de alimento é entendida  psicanaliticamente como forma de preservar seu desejo, de desvencilhar-se do outro enquanto invasor.  O alimento seria a intrusão feita pela mãe. Estranha e perigosa forma de preservar o desejo. Sabe-se que o desejo está sempre ligado a uma falta. Assim, recusar o alimento pode recriar uma falta que esta mãe preencheu ao tentar apenas satisfazer suas necessidades.
           A anorexia seria uma estratégia, pois graças à sua parceria com o nada,  a anoréxica vira o jogo e de dependente da mãe, faz com que a mãe agora dependa dela, aliás, tenta manipular com seu sintoma toda a família. Esta é sua vitória e também sua derrota, pois torna-se vítima da pulsão de morte e caminha a largos passos para ela caso não haja uma intervenção terapêutica , um  corte neste gozo mortífero. É  também uma demanda dirigida ao pai, um apelo e desafio ao olhar do pai, um pedido de corte à onipotência materna.
           Observa-se  frequentemente nos casos de anorexia nervosa, uma configuração familiar com uma mãe excessivamente presente, muito atenciosa e tolerante e um pai em geral ausente ou com dificuldades de exercer seu papel de pai. A relação conflitiva com a alimentação aparece o tempo todo e sua vida e da família passa a girar em torno da alimentação. As horas de refeições passam a ser um tormento para todos, os desentendimentos aparecem aí. É o triunfo sobre a família e sobre o próprio corpo.
           Porque a anorexia aparece preferencialmente na adolescência?  Este é o período de vida em que a sexualidade é redespertada intensamente e habita um corpo capaz de vivenciá-la. Este é o período de intensificação dos conflitos entre o continuar criança e o tornar-se adulta. Tornar-se mulher e poder assumir sua sexualidade genital.  Uma recusa em tornar-se mulher, onde o corpo transforma-se em campo de batalha. O corpo se faz sintoma. Em nome de um ideal de beleza, a anoréxica lança mão de seus regimes e emagrece perdendo todos os seus contornos femininos e capacidade de sedução. A ligação entre anorexia e sexualidade/feminilidade evidencia-se devido à intensidade da pulsão sexual neste momento de vida, onde o próprio corpo sexuado não é integrado ao eu. A sexualidade, desde o início atrelada à pulsão alimentar, também é escamoteada e negada, assim como a recusa e obstinação em não comer.  
           Com o tratamento, médico e psicanalítico,  a partir do abandono desta conversão sintomática sobre o corpo, o conflito pode ser vivido na esfera psíquica , as questões relativas à sexualidade podem ser ditas e elaboradas, a paciente passa a ganhar peso  e a    escutar as necessidades de seu corpo e de seus desejos, dizer o que gosta e o que não gosta, o que sabe e o que ignora, expressar os seus medos, enfim assumir-se como sujeito desejante.  Se a comida é o alimento do corpo, a palavra é o alimento do espírito. 

           COMENTÁRIOS      
           Apesar de conhecida desde a antiguidade, quando descrita por Sófocles em sua personagem Antígona, a anorexia nervosa , assim como a bulimia em especial, e os demais transtornos alimentares podem, na nossa opinião, ser considerados transtornos modernos, ou  pós-modernos, já que a cultura da modernidade atuaria como um “envelope cultural” , solo propiciador à eclosão dos  fatores biológicos, psíquicos e familiares, das predisposições singulares de cada um. Seriam as manifestações privilegiadas para a observação da influência da cultura no adoecer psíquico e corporal  dos indivíduos. 
           Enquanto clínicos, é no espaço individual e singular de cada cliente que podemos exercer éticamente o nosso ofício, onde a ciência  possa ser aplicada no contexto ético da singularidade, diferenças e dignidade de cada ser humano que nos procura, nesta especificidade do espaço clínico. Este é o convite que a psicanálise faz à ciência no contexto da clínica: levar em consideração o  sujeito desejante. 

           BIBLIOGRAFIA          
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BOCZAR, A., DRAWIN, C. R. , PIMENTA, A. C., MENDES, E.R.P.- Psicanálise e Modernidade: as metamorfoses do mal-estar. In  Revista Reverso, publicação do CPMG, no. 38,  BH, MG.
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quinta-feira, 29 de março de 2012

SOBRE O HUMOR E O RISO

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3960&secao=367

http://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao367.pdf

Com as unhas cravadas no mal-estar

Fazer humor é transgredir, é despir as ideologias de suas roupagens, e as teorias de sua pompa, frisa a psicanalista Marília Lemos. Os humoristas são aqueles que enterram as unhas no “mal-estar” do qual padece a contemporaneidade, fazendo ressurgir a transgressão

Por: Márcia Junges

“O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita”. A afirmação é da psicanalista Marília Lemos em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Ela recupera o conceito de humor em Sigmund Freud, dizendo que este não é resignado, mas rebelde. Os humoristas são aqueles que “cravam as unhas no mal-estar”, apontam a “finitude humana, sua dor e sofrimento”. E complementa: “Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!”. Marília constata que nossa sociedade “parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor”.

Psiquiatra e psicanalista, Marília Brandão LemosMorais  é formada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. Filiada ao Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ao Círculo Brasileiro de Psicanálise e à International Federation of Psychoanalisis. Título de Especialista em Psiquiatria e Psicoterapia pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Médica Brasileira

 COM AS UNHAS CRAVADAS NO  MALESTAR

Fazer humor é transgredir, é despir as ideologias de suas roupagens, e as teorias de sua pompa, frisa a psicanalista Marília Lemos. Os humoristas são aqueles que enterram as unhas no “mal-estar” do qual padece a contemporaneidade, fazendo ressurgir a transgressão

Por: Márcia Junges

“O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita”. A afirmação é da psicanalista Marília Lemos em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Ela recupera o conceito de humor em Sigmund Freud, dizendo que este não é resignado, mas rebelde. Os humoristas são aqueles que “cravam as unhas no mal-estar”, apontam a “finitude humana, sua dor e sofrimento”. E complementa: “Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!”. Marília constata que nossa sociedade “parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor”.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Psicanaliticamente, o que explica a necessidade e o prazer que sentimos de rir e fazer rir?
Marília Lemos – O riso é uma descarga de afeto que gera prazer e contagia. O mecanismo do riso é explicado como consequência da suspensão da inibição: um quantum de energia psíquica torna-se livre e encontra uma via de descarga motora na risada.O chiste e o humor convidam ao prazer e ao gozo em função do riso que provocam, contagiando o espaço social. Se o chiste está estruturado como uma formação do inconsciente, é por isto mesmo um trânsito para que alguma coisa da ordem do recalcado abra passagem e se mostre sem passar pelo desconforto da angústia e do padecimento de sintomas.
No capítulo V do livro Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), de Freud, são analisados os motivos dos chistes e o impulso que temos de passá-los para frente, através de um contágio entusiasmado, colocando-os como um processo social. Na estrutura dos chistes, são determinadas três pessoas: a primeira, quem conta a piada; a segunda, aquela de quem se fala e que não está presente e é o alvo das pressões sexuais e agressivas; e a terceira, que é para quem se conta a piada, a plateia ou a paróquia (termo retirado de Bergson que Freud colocou como todo chiste requer seu próprio público). A função desta terceira pessoa é fundamental: é aquela que ri da piada e a que a referenda, pois, sem seu riso, a piada não é piada, portanto, um efeito a posteriori, que só então faz o piadista rir. Esta terceira pessoa é importante para o piadista reexperimentar, através dela, o efeito surpresa da piada ouvida pela primeira vez, e para autorizar a transgressão da repressão social efetuada pelo piadista.
Os chistes provêm dos jogos de palavras e pensamentos usados pelas crianças e que produzem prazer. Com o passar dos anos são abandonados em função da faculdade crítica e da racionalidade. Entretanto, o sujeito não quer renunciar a um prazer que lhe é familiar. Daí o ulterior desenvolvimento destes jogos infantis até a sua transformação em chistes, impulsionados pelo desejo de burlar a crítica e reencontrar o antigo prazer. O propósito, a função dos chistes consiste em suspender as inibições internas e tornar acessíveis as fontes de prazer. Os chistes são tendenciosos, satisfazem a uma tendens, uma intenção. A sua forma engenhosa satisfaz a intenções agressivas e sexuais, a sua forma alusiva e indireta permite que pensamentos sejam expressos, burlando a crítica. O fato de negarem a censura e de liberarem a inibição que pesava sobre estas fantasias coloca à mostra o inconsciente e o prazer é derivado da economia de um dispêndio psíquico, aquele que mantinha a inibição. Entre os vários tipos de inibição, o texto freudiano se refere ao recalque, reconhecido por impedir que impulsos a ele sujeitos e seus derivativos tornem-se conscientes. E diz que os chistes são capazes de liberar prazer de fontes já submetidas ao recalque.

IHU On-Line – Qual é a função do riso? Catarse, mecanismo de defesa?

Marília Lemos – O humor atua como álibi de alguma verdade do sujeito que, até então, não fora capaz de ser dita. Numa brincadeira pode-se até dizer a verdade, enuncia Freud em seu livro Os chistes e sua relação com o inconsciente. O recurso ao falei de brincadeira ou é de mentirinha pode ser a maneira de uma verdade ser anunciada, através do faz de conta: Foi sem querer querendo, como diz o Chavez do programa humorístico da TV. Esta verdade se diz através de um sentido insólito brotado no nonsense, do paradoxo, do absurdo, ao qual se segue uma revelação de sentido que é sempre surpreendente e fugaz, seguido da descarga de riso.

IHU On-Line – Em que medida rir pode ser também uma transgressão e uma rebeldia?

Marília Lemos – O humor não é resignado, mas rebelde, diz Freud em seu ensaio O humor (1926). São os humoristas, aqueles que captam a fragilidade do homem, seus conflitos, sua finitude, sua dor e sofrimento, “cravam as unhas no mal-estar”, desviam do interdito e dali saem com um dito espirituoso que os fazem rir de si mesmos, ou do outro e fazem o outro rir. São eles que revelam nossas contradições, nossas falhas, nossas imperfeições. Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem a sua pompa, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua. O humor é transgressor!

IHU On-Line – Como podemos compreender as conexões entre angústia, ironia e riso?

Marília Lemos Se o humor consiste numa forma inteligente de lidar com a dor e o sofrimento e ainda tirar proveito disso, podemos observar esta conexão na própria vida de Freud em duas situações descritas por Peter Gay (e citadas por Kupermann). Em 1938, na época de deixar a Áustria dominada, então, pelo nazismo, após a prisão e interrogatório de sua filha Anna, Freud foi obrigado a assinar um documento para a Gestapo dizendo que não havia sofrido maus-tratos. Após assiná-lo, ele acrescentou de próprio punho: “Posso recomendar altamente a Gestapo a todos”. Esta tirada de humor foi, de início, interpretada por Gay como uma tentativa inconsciente de suicídio, uma vez que a ousadia de Freud punha em risco a sua própria vida, caso as autoridades nazistas reconhecessem ali uma fina ironia. Mas, num segundo tempo, o mesmo Gay reconhece que esta atitude demonstrava uma grande coragem e vitalidade do criador da psicanálise e “seu senso de humor irreprimível”. Esta ambiguidade, que aponta tanto para a vida quanto para a morte, revela a ambivalência e o paradoxo próprios do registro tragicômico e do humor negro, nesta estranha proximidade da angústia, da ironia e do riso.

IHU On-Line – Por que o humor pode ser o último véu a encobrir o horror?

Marília Lemos – Podemos observar como o humor pode ser o último véu a encobrir o horror, citando o famoso chiste de humor negro escrito por Freud, o do condenado à morte que, numa segunda-feira de manhã, ao ser levado para a execução, comenta: “É, a semana está começando otimamente.” Humor enquanto afirmação do desejo diante da adversidade e da morte. Humor lúcido e trágico, ao mesmo tempo triunfal, alegre, ou seja, o humor freudiano, em sua associação íntima com a morte é tragicômico.

IHU On-Line – Em que medida o humor freudiano é um humor trágico?

Marília Lemos – Em alguns episódios da vida de Freud, especialmente em sua velhice, quando acometido por um câncer de mandíbula que lhe causava muito sofrimento, ou quando assistia ao advento do nazismo na Europa – todos estes momentos demonstram fino humor. Em maio de 1933, ao saber que seus livros estavam incluídos nos que seriam queimados em praças públicas das cidades alemãs e nos campi universitários, fez o seguinte comentário: “Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje se contentam em queimar os meus livros”. Mal sabia ele o quanto estava sendo profético!
Numa conversa com o jornalista americano George Sylvester Viereck em 1926, Freud teria dito: Setenta anos de existência ensinaram-me a aceitar a vida com alegre humildade... Não gosto de meu palato artificial, porque a luta para mantê-lo em função consome minha energia. Prefiro, entretanto, um palato postiço a nenhum; ainda prefiro a existência à extinção... Não sou pessimista, não permito que nenhuma reflexão filosófica me faça perder o gozo das coisas simples da vida. Sábias palavras de alguém que, apesar dos sofrimentos pelos quais passou, ainda amava a vida e pode expressar, aos 71 anos, a sua criatividade e escrever sobre o valioso dom do humor para aliviar as dores da existência, pois só através dele, é possível divertir-se no infortúnio. O humor permite a inscrição da intensidade pulsional no universo das representações, ainda que em situações-limite. Permite que o sujeito afirme seu desejo contra a pulsão de morte que o habita.

IHU On-Line – Por que o humor é ético, estético e político? Poderia aprofundar essa relação?

Marília Lemos – Esta relação é bem aprofundada por Kupermann (Ousar rir) e Birman , em Frente e verso: o trágico e o cômico na desconstrução do poder, em Seria trágico... se não fosse cômico (Slavustzky e Kupermann). O humor é ético porque é a afirmação do desejo frente à pulsão de morte. O humor permite a inscrição da intensidade pulsional no universo das representações, ainda que em situações-limite. A essência do humor seria poupar afetos penosos. O humor possui, segundo Freud, qualquer coisa de grandeza e elevação, que faltam ao chiste e ao cômico: o eu se recusa a sofrer as provocações impostas pela realidade. Significa a vitória do eu sobre o mundo externo e a vitória do princípio do prazer, do modo de funcionamento do processo primário característico do inconsciente. O desejo se afirma frente à pulsão de morte e a pulsão traça novos caminhos simbólicos, encontra outros objetos de satisfação. A despeito do triunfo do narcisismo enfatizado por Freud, o humor denuncia o fracasso e a impossibilidade de realização das ilusões narcísicas do eu, leva a uma desidealização e desmontagem de certezas, permitindo que o desejo abra caminhos. Estamos lidando, na questão do humor, não apenas com o triunfo do eu, mas com a afirmação teimosa e rebelde do erotismo e do desejo do sujeito frente às adversidades impostas pelo destino, pelo acaso e pela morte. O caráter rebelde do humor se opõe à resignação masoquista do sujeito ante o real e os imperativos sociais.
A obra Os chistes e sua relação com o inconsciente é, segundo Jones, a principal contribuição freudiana para a estética, entendendo-se por estética as condições nas quais a fruição de prazer torna-se possível diante das produções artísticas e culturais. O humor é estético, pois, criativo, contorna os interditos e causa prazer da ordem sublimatória. Na segunda tópica freudiana, com a formulação do conceito de pulsão de morte, o processo sublimatório é concebido como uma mudança do objeto de satisfação num circuito pulsional, como uma saída criativa do aparato psíquico, pela criação de novos objetos para a satisfação erótica do sujeito, que também possam ser culturalmente compartilhados, sem que isto implique em renúncia à satisfação pulsional, mas sim, um processo que é movido pelo erotismo e pelo desejo.
O humor como desconstrução de poder está exemplificado por Birman com o famoso humor judaico. O judaísmo utilizou-se do humor para a sua sobrevivência, enquanto cultura minoritária e enquanto ethos, como forma de reação criativa ao antissemitismo. Os judeus não se colocaram numa posição de vítimas, nem de mortificação masoquista, passiva, mas opuseram-se ativamente a isto, através de uma desmontagem social promovida pelo chiste, propiciadora da circulação do desejo e abertura de novas vias de discurso. Birman diz que Transformar a agressão mortífera em chiste e ainda gozar com o que se realiza, pelo riso que provoca, implica, para a tradição judaica, não se identificar com o agressor e esvaziar em ato, em cena social, o aniquilamento presente no gesto antissemita. Na virada do século XIX para o século XX, quando foi escrito o livro Os chistes e sua relação com o inconsciente, uma Áustria antissemita foi o palco para a criação da psicanálise. Não é por acaso que a singularidade da criatividade judaica, a qual permeia este livro recheado de piadas sobre judeus, contribuiu para a sua constituição. O humor é político, pois que é uma forma de desconstrução, pelas beiradas, do poder instituído, para que o sujeito reafirme o seu desejo e restaure o seu direito de existir numa comunidade social. Sem perder a graça!

IHU On-Line – Como compreender a contribuição de Lacan, quando refere que o chiste é da ordem do simbólico, o cômico, da ordem do imaginário e o humor, da ordem do real?

Marília Lemos – O chiste é da ordem do simbólico, porque se dá apenas no contexto da linguagem. Com a necessidade da primeira pessoa, a que conta a piada, a segunda pessoa, de quem se fala, e a terceira pessoa, aquela que ri da piada e que a referenda e autoriza a transgressão da repressão social, o chiste é considerado um modelo para o inconsciente. A referência de Freud à terceira pessoa coloca em cena um Outro como um lugar do simbólico, do código da linguagem com toda sua polissemia e ambiguidade, além da pessoa que a encarna. Uma diferença com o cômico está justamente aí, porque o cômico não necessita desta terceira pessoa, apenas de duas: a que ri e a de quem se ri. O cômico se realiza na dimensão especular da relação narcisista do eu com a imagem do outro, seu semelhante. Há, no cômico, uma tendência ao afastamento da palavra da sua propriedade significante e a aproximação ao puro significado: por exemplo, o pastelão na cara. O cômico pode prescindir da linguagem, uma vez que se desenvolve no registro da imagem, valendo-se do inesperado e do contraste repentino, como o que ocorre numa galeria de espelhos. Se encontramos algo cômico, poderemos rir sozinhos, embora muitas vezes o passemos para frente. Mas um chiste não nos permite rir sozinhos; é imperioso passarmos para a alguém que dê uma gostosa gargalhada.
O humor seria uma criação simbólica repentina, quando, através da surpresa e do inesperado, eclode um sentido novo. Seria, como diz Kuppermam, o marco zero da criatividade. É articulado e depende totalmente da linguagem e do deslizamento de sentido da palavra. Completa seu curso dentro de uma única pessoa; não é necessário uma outra para a fruição do prazer humorístico. Mas quando o humor é comunicado ou compartilhado pelo humorista, sentimos o mesmo prazer que o seu. A essência do humor é poupar afetos. No humor, a pessoa que é vítima da dor, consegue suprimir este afeto penoso in status nascendi e obter um prazer humorístico, o humorista consegue rir de si mesmo. De um encontro faltoso com o real, o humorista escamoteia o mal-estar e cria um dito espirituoso.

IHU On-Line – O risível muda de acordo com as culturas e com a época? Nesse sentido, qual é a peculiaridade do humor de nossos dias?

Marília Lemos – Apesar de o riso humorístico ser festivo e universal, sem idade ou pátria, o risível muda de acordo com a cultura e a época. Na Antiguidade e no Renascimento, havia a tradição das festas populares, na qual o sagrado era ritualmente profanado no paganismo. Uma estética do grotesco se disseminou no realismo alemão, que conjugava o horror e o disforme com a mordacidade. O conceito de Unheimlich (o estranho-familiar em Freud, ou o Sinistro) remete historicamente para esta estética do grotesco. Na Modernidade, o homem já não mais sabia rir (Nietzsche), a não ser por uma gargalhada estridente que funcionava mais como um instrumento de crítica que de prazer e descontração.
Vale dizer que os temas do riso e do cômico estavam na moda, na segunda metade do século XIX e vários autores escreveram sobre ele, antes e depois de Freud. No campo da filosofia, o livro O riso, de Henri Bergson, publicado originalmente em 1899 na Révue de Paris, obra de grande bojo teórico, era conhecido por Freud e foi incorporado e criticado por ele no seu livro de 1905. Outra foi Komic und Humor, do filósofo Theodor Lipps. Mas a originalidade do livro de Freud e sua contribuição maior foi inscrevê-lo como uma formação psíquica do inconsciente, destacando as dimensões do sentido e do desejo presentes na produção do chiste pelo sujeito e inseri-lo no corpo teórico da psicanálise, que estava, naquele momento, sendo constituído. O que o discurso freudiano vai enfatizar na técnica do chiste e do seu efeito humorístico são os mesmos mecanismos de condensação e deslocamento pelos quais o inconsciente se apresenta, como nos sonhos, atos falhos e sintomas.
Nos nossos dias, o tempo da modernidade líquida, segundo Zygmund Bauman , ou da hipermodernidade descrita por Gilles Lipovetsky em A era do vazio, no qual ele demonstra que vivemos numa “sociedade humorística” em que um código e um estilo humorístico dominam desde a publicidade até a política, da moda às produções acadêmicas, da arte aos meios de comunicação em massa, em que também as relações interpessoais são caracterizadas por um clima irreverente, nada deve ser pesado ou sério ou sólido, cuja orientação é que a vida deve ser vivida de modo cool [legal] ou light [leve] ou fun [divertido], descontraidamente, sem conflitos, sem litígios, em nome de uma do bem estar definido por uma cultura, na qual os alvos almejados são a adaptação e o sucesso pessoal. Paradoxalmente, vivemos numa cultura marcada pela depressão, um dos efeitos da descrença e da falência dos ideais universais modernos que tinham possibilitado, até meados do século XX, o engajamento dos sujeitos em projetos para o bem comum. Uma sociedade contemporânea que parece ter perdido a potência do riso, evidenciada pelo conformismo que se observa no humor cínico e no pornográfico. Resgatar a rebeldia característica do humor é resgatar as dimensões de vida que não podemos deixar esmaecer no nosso dia a dia: a graça de viver, a criatividade, o lúdico e o bom humor