terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Menino-Deus ( poema publicado no meu livro Resíduos)

Onde está o menino
procuro o menino
que renasce a cada ano
há quase dois mil anos

Numa estrebaria
aconchegado em feno
veio à luz
sob a luz de uma estrela.

Menininho dos olhos azuis
(será que eram azuis?)
nasces e desapareces
quem sabe fugindo à ira de Herodes
dos Herodes atuais

Te procuro disfarçado em cada menino
de rua
olhinhos escuros
soltos na vida

busco você nos hospitais
de crianças desnutridas
corpinhos esquálidos
olhar de grandes olhos de carneiro
moribundo

Quando leio jornais, investigo
as páginas policiais:
crianças assassinadas!
quem sabe fizeram com você
o que Herodes não conseguiu

Te reconheço entre os corpos dos meninos mortos
na praça da Candelária
te ouço nas vozes das mães de crianças
desaparecidas
te contemplo no olhar do pedinte
esfomeado
ou talvez, cidadão do mundo, sucumbistes
na Sérvio-Croácia
no Iraque
sob o reboar de uma bomba
sob a bala de um fuzil
sob as esteiras de um tanque?

Ou na Somália,desterrado
de tua mãe sugando o seio
sem leite
sem carne
sem teto

Ah! quem sabe és uma das vítimas
das hecatombes nucleares
e, se não estás morto
estás cativo
com tantas outras crianças
vítimas
radioativo

Vejo você em imagem
no altar das igrejas
em presépios nos shoppings
sob árvores de bolas coloridas iluminadas
ao som de Jingle bells
em Noite-Feliz da vida.

Penso em você na mangedoura da favela
nos morros, sem casa
na madrugada
nos abrigos de menores
nas prisões... podem tê-lo tomado por marginal
revolucionário
comunista
mendigo
louco... são tantos os caminhos
os perigos
os esconderijos! Por favor meu menino,
meu menininho-Deus de olhos azuis
... ou castanhos, me diga
Onde estás?

Arrumo teu berço no quarto
te encontro no coração

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