quinta-feira, 3 de junho de 2010

RESÍDUOS POÉTICOS

RESÍDUOS POÉTICOS

"Não é a memória inseparável do amor, que pretende conservar o que passa?
(Theodor Adorno)

"Encontrar o objeto é reencontrá-lo"
(Sigmund Freud)

RESÍDUOS POÉTICOS


Sobrou uma pétala de rosa
esmaecida
um papel de bala guardado
uma carteirinha de colégio
entre as páginas envelhecidas de um diário
de adolescente.
Uma camisola branca, de bordados
do dia do batizado
vestida pelos filhos
durante a mesma cerimônia
As blusinhas de crochê
tecidas à mão pela avó
o chale azul de lã
das missas de domingo
e a saudade das mangas de vestir, postiças
cobrindo ombros nus ao entrar nas igrejas
O gesso do braço quebrado
assinado de nomes hoje antigos
desfaz-se no tempo
O livro de poesias do primário
com a professora abrindo a primeira página
e o filho da professora
deslizando "Barcos de Papel" por nossos sonhos
Retratos embranquecidos de lembranças
cartas trocadas em entusiasmo juvenil
a grinalda guardada em caixa de presente
cujas flores teimam em persistir
em marcas amareladas do vestido
as marcas da alma
das dores da vida.
Uma boca de batom
um amargo de vinho
uma expressão do teu olhar
no olhar de teu filho
Um poema dos resíduos
resíduos nostálgicos
vivos resíduos
do dia-a-dia.


Menção Honrosa no Concurso de Poesia da Associação Médica de Minas Gerais e Sociedade Brasileira de Médicos Escritores

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